sexta-feira, 19 de julho de 2019
Nada Pop

Wendell Araújo – Tá aqui o seu café, chefinho

Primeira ilustração da série “Tá aqui seu café, chefinho”, de Wendell Araújo.

Wendell Araújo é daqueles artistas que despertam o seu interesse de forma excepcional. Basta uma arte, apenas uma única imagem rabiscada ou capa assinada por ele que na hora você se pergunta “porra, quem é esse maluco?”.

Foi assim que reagi ao conhecer a série “Tá aqui o seu café, chefinho”, criada e ilustrada pelo Wendell como símbolo de revolta contra os chefes arrogantes e estúpidos, senhores de uma razão de merda e que conseguem despertar em nós o maior ódio e vontade de vingança possível e até inimaginável. Se você já teve um chefe capaz de despertar esse mesmo sentimento em você, acredito que será quase impossível não se identificar.

Além dos trabalhos com ilustração, o Wendell também é guitarrista da banda Eu O Declaro Meu Inimigo e vocal da Nark, ambas de Recife (PE). Se você nunca ouviu essas bandas, por favor, vá em busca disso.

Conversamos com o Wendell para saber sobre o seu trabalho como ilustrador, obviamente, o papo também tem relação com as bandas da qual integra. Esperamos que curta o papo e navegue ainda mais pela arte do Wendell, não esqueça de conferir a galeria que terá as 10 imagens da série “Tá aqui o seu café, chefinho” publicadas no final da entrevista.

Entrevista – Wendell Araújo

NADA POP – Gostaria que você contasse como surgiu seu interesse por ilustrações. Começou na infância mesmo? Você recebeu algum incentivo de familiares ou tudo foi por conta própria? Hoje é possível dizer que as ilustrações pagam as suas contas?

WENDELL – Desenhava casinhas e árvores como todo mundo na infância. O estalo veio com os personagens do Hergé. Minha família incentivava pelo hobby, não deviam imaginar que seria minha profissão no futuro, pagando as contas da minha casa, rolés e curtições.

NADA POP – E como a música surgiu na sua vida? Hoje você é integrante das bandas Nark e Eu o Declaro Meu Inimigo, o que você toca nessas bandas e há quanto tempo elas existem. Além disso, é possível falar um pouco do estilo de cada uma delas?

WENDELL – Comecei aos 4 anos, aprendendo saxofone com meu avô. Ele é maestro, meu bisa também e foi fundador de uma escola de música. Debandei pro punk pela liberdade de tocar sem partitura. Toco guitarra na Eu o Declaro Meu Inimigo e sou vocal no Nark. A EDMI tem 5 anos, toca fastcore e o Nark tem 8, toca hardcore oitentista.

NADA POP – Recife ainda é sinônimo para alguns apenas de ‘manguebeat’? O que você pensa sobre esse movimento dos anos 90 e qual o impacto, tanto positivo quanto negativo, que ainda existe ou deve existir por aí?

WENDELL – Cara, infelizmente ainda é sim! hahahaha Brincadeira. Têm amigxs de fora do estado que chegam aqui perguntando a respeito ou querendo ir aos picos “históricos” do Mangue. Particularmente acho o movimento uma bosta, mas não dá pra negar que ele foi responsável por colocar Pernambuco no mapa de festivais de música alternativa.

Aloha Haole

Wendell também faz ilustrações para capas de álbuns. Essa imagem está relacionada com a banda Aloha Haole, de Teresina, no Piauí.

NADA POP – Quais são as suas influências na arte e na música? Você faz ilustrações ouvindo algum som, qual?

WENDELL – Na ilustração tem o Stokoe, Moebius e Laerte. As influências da Eu o Declaro são o Black Flag e Sin Dios, e do Nark são o Cólera e Circle Jerks.

Pra ilustrar, procuro ouvir sons relativos à vibe do trampo em questão. A série do “Tá aqui seu café, chefinho”, por exemplo, rolou muito ‘Clocked In’ do Black Flag. Fora isso, curto colocar Dinosaur Jr, Neil Young e David Bowie enquanto rabisco.

Këtä Trip

NADA POP – Quais outras bandas atuais de Recife que você poderia citar e como está o cenário independente por aí? Há casas que aceitam o independente de forma mais fácil, há bandas se movimentando como vocês se articulam por aí?

WENDELL – Tenho escutado bastante a The Haze, Jef Jones e 13 mil volts. O underground local se mantem há seis anos com eventos frequentes, 70% deles na periferia, realizados por coletivos de 3 a 4 pessoas cada. As casas de show não produzem eventos autorais, então tudo fica a cargo desses coletivos. Não é um cenário cheio de tretas e quase todo mundo se conhece de longas datas. Som grunge, punk, rap ou metal dividem o mesmo espaço numa boa.

NADA POP – Pra você qual é o papel fundamental da arte ou pelo menos o que você busca despertar nas pessoas que enxergam seu trabalho?

WENDELL – Acho legal a forma como a arte pode modificar a sua realidade. Sempre vou defender a ideia que ela deve ser pra todo mundo e feita por todo mundo. Se uma ilustração que fiz levou alguém a pensar diferente, debater mesmo que por alguns minutos, ou se a instigou pra começar seu próprio lance, já fico eternamente grato.

Junior malvadão

NADA POP – Como surgiu a série “Tá aqui o seu café, chefinho”? O quanto a revolta serve de inspiração e como seria uma sociedade ideal para você? Como conseguir e lutar por isso?

WENDELL – Quis brincar um pouco com a arte digital, fazendo uma série inteira usando a mesma frase e personagem, apenas recortando e mudando-o de lugar. O conteúdo é baseado em experiências pessoais no meu antigo emprego. As dez ficaram prontas em uma tarde e comecei a publicar durante duas semanas, nos dias úteis.

Não acredito em sociedade ideal, mas existem outras maneiras de viver, especialmente a respeito das relações entre patrões e empregados. Não posso chegar aqui e dizer “largue seu emprego hoje”. É muito fácil falar isso tendo um trabalho de freelancer, numa carreira que me possibilita não receber ordens de ninguém. Lógico, você deve fazer o que ama, mesmo que em um emprego formal, mas isso não significa aguentar calado os assédios de supervisores. Chamar de senhor? Nunca! Doutor? Doutor de quê? Sabe o chefinho da vida real em que essa série se baseia? Ele realmente ficou com síndrome do pânico e sumiu da empresa. (Risos eternos)

lobo skate ilustração1

NADA POP – Entre as suas ilustrações, existe alguma que você considera mais representativa sobre o seu trabalho? Qual seria e por quê?

WENDELL – Këtä Trip. É a que mais curto e a que teve o processo mais divertido. Ela fala sobre amizade e a sensação de flutuar ao lado dessas criaturas imperfeitas e excepcionais que a gente conhece durante a vida.

NADA POP – Grafite, stencil e pichação, em qual contexto político-social você resumiria essas três expressões?

WENDELL – Formas de questionar o uso de espaços públicos numa sociedade que (ainda) debate pouco o assunto.

capa e contracapa

NADA POP – Eu não poderia deixar de questionar o que você pensa sobre o trabalho do Banksy. O quanto você considera válido as manifestações desse artista, se acredita que o capitalismo tende a transformar certas contestações culturais num produto que possa ser embalado e comercializado para pessoas que não se importam tanto com a reflexão ou com o significado da arte em si?

WENDELL – É fuderoso como as artes delx, principalmente os stencils, são repassadas a valer pelo público em geral. O capital enlata e se utiliza porque é o papel dele, mesmo em trampos com viés de manifesto (tipo o leilão da Slave Labour). Arte é amor e também pode ser comércio. É Warhol e o sabão Brillo ou Arturo Vega e a logo do Ramones.

“Cada um é um universo, face a face com você” – Wendel Araújo

NADA POP – Em alguma vez, seja por qual motivo, alguns dos seus desenhos/ilustrações trouxe complicações com a polícia? Ou a própria música trouxe essa complicação?

WENDELL – Não, nunca tive problema com uzomi por causa de ilustrações. Com colagens na rua sim. De ilustração, teve só o receio da arte de uma camisa da Eu o Declaro (da arma apontada pro Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco) dar alguma merda pra mim e pro Diego (vocal da banda, que fez junto comigo esse trampo). Assinamos ela com o nome dos caras do Slayer, meio brincando, meio sério. Acabou não dando em nada, o Dudu Campos morreu alguns meses depois mesmo.

NADA POP – Para encerrar, deixo o nosso obrigado pelo papo e peço que deixe algumas informações para quem quiser conferir mais o seu trabalho. 

WENDELL – Véio, eu que agradeço pelo espaço no Nada Pop!
Quem quiser ver mais do meu trampo, dá uma olhada no flickr:
http://flic.kr/ps/2uAne6

ou no álbum de ilustrações no meu face, que é mais acessível a todo mundo:
https://www.facebook.com/wendell.narkedmi/media_set?set=a.314533415343756.1073741826.100003613005197&type=3

Pra contato ou jogar conversa fora sobre horizontalização da arte:
h.wendell.araujo@gmail.com

Bandas

Eu o Declaro Meu Inimigo
http://euodeclaromeuinimigo.bandcamp.com/

Nark
http://narkoficial.bandcamp.com/

Abraço a todxs!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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