sexta-feira, 19 de abril de 2019
Nada Pop

Vingança 83: Nossos sonhos são o seu pesadelo

Vingança 83: “O perigo é constante, o inimigo pode te atingir a qualquer instante”

Frequento eventos e atividades ligadas ao punk rock e hardcore há uns 10 anos, aproximadamente. Durante esse tempo li vários relatos, assisti vídeos de shows, vi opiniões em sites, zines, assisti documentários sobre o assunto, etc. A partir disso, criei alguma base de comparação a respeito das bandas entre as quais ouço ou assisto shows. E durante esse tempo que convivo nesse ambiente, deu para notar que normalmente, entre relatos e conversas de boteco, a tendência das pessoas é valorizar e cravar que as bandas mais antigas sempre possuem os melhores (ou mais intensos) atributos e/ou qualidades.

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“Nossos sonhos de liberdade se tornaram seus pesadelos”

Os motivos desse apego pela nostalgia podem ser muitos, começando desde uma proximidade emocional, muitas vezes criando uma relação maternal e/ou paternal com os precursores de ideias e estilos (sonoros, visuais), até uma reprodução automática de discursos que são mais reproduzidos por aí. Seja qual for o motivo para esse apego pelo passado, pessoalmente não acredito que o mais antigo necessariamente terá a melhor qualidade, importância ou intensidade. Isso por que, não sendo adepto da hierarquização de qualidade e critérios de valor fixo, penso que cada indivíduo tem suas preferências pessoais. Não vejo com bons olhos esse apelo cego pela nostalgia. A nostalgia e criação de lista de clássicos beneficiam a imobilidade, neste caso, culturais. A idealização e criação de heróis intocáveis, quase sempre dá uma sensação de que nada mais será tão belo como antes, e que temos que passar a vida revisitando os clássicos ou criando bandas novas com influências que de tão próximas parecem cópias renovadas deles. Fugindo da nostalgia e procurando novidades encontro pelo caminho o Vingança 83. Vejo como uma das principais renovações de energia do hardcore. Com exceção de vídeos e sons que vi e ouvi do Ulster e Bad Brains, eu não me lembro de ter presenciado uma banda (em todo seu conjunto) tão violenta e agressiva quanto ao Vingança.

Ver um show dos caras é entrar em um clima de perigo, medo e destruição. Os Invasores de Cérebros tem esse poder, porém em um show dos Invasores o clima é de um medo que empodera quem está assistindo, é como se a música estivesse lhe preparando para controlar a situação de caos. Comparando com o Vingança, a diferença é que nesse caso a sensação e o clima criado é de uma agressividade fora de controle! O tom sombrio dado pelas guitarras e as introduções da bateria dão um clima de incerteza, uma sensação de terror iminente.

O agudo das cordas é cortante e venenoso como a navalha dos marginalizados. Os timbres e a potência do vocal são totalmente incontroláveis, não só sonoramente, como também em sua presença de palco. O ambiente criado é de incerteza com o que esta por vir. Não dá para saber se o vocalista vai cair, ir ao público, derrubar os instrumentos! Todas as vezes me pergunto se o cabo do microfone resistiria ao final dos shows. A movimentação é violenta, fragmentada e descontínua é a representação próxima do caos, da revolta, a interpretação sonora da inquietação dos oprimidos e marginalizados. O 4/4 da bateria é cru de tal forma que em alguns momentos a impressão é que a batida alterou para um 2/3 num ritmo instável e quebrado. É como se o Bad Brains e o Dead Kennedys tivessem ido ao cinema juntos assistir algum filme do Hitchcock e depois se fundissem com a sujeira do punk do 3° mundo dos anos 80.

As letras traçam um paralelo entre violência e mudança, a luta e o novo, reivindicando o direito à resistência não-pacífica contra o monopólio estatal da agressão. É como se tivessem expressando a consciência de que não haverá grandes rupturas sociais feitas de forma pacífica – talvez não seja à toa o fato de a introdução levar o nome do anarquista francês “ilegalista” Ravachol. O dinamite e o punhal dos “ilegalistas” em notas musicais! Essa ideia também está posta no nome do EP “nossos sonhos de liberdade se tornou seu pesadelo”. Acredito que o som que resume a banda é o “Estado de Alerta”, que diz: “o perigo é constante/ o inimigo pode te atingir/ a qualquer instante”. É exatamente essa a sensação de um show. A interpretação das mazelas da realidade já está feita de forma natural pelas vozes e expressões marginalizadas, o que se faz urgente é transforma-la. Venha, mas saiba que você não terá total controle sobre seu psicológico!

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Bandcamp
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Sobre o autor

Suna

Suna é colaborador do Nada Pop.

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