domingo, 25 de agosto de 2019
Nada Pop

Uma noite no FFFront e o som inebriante da Gomalakka

Não iria colar no FFFront nesta terça-feira, dia 13 de agosto. Estava cheio de trabalho e muito, muito estressado por outras coisas do cotidiano que não cabem neste momento. Mas quer saber? A vida é curta demais para a gente sofrer pelo amanhã. Tasquei um foda-se bem grande, chamei um UBER e fui para o bairro do Sumarezinho, na Zona Oeste de São Paulo.

Saí do trabalho às 19h30, não sabia exatamente o que esperar. Cheguei um pouco depois das oito da noite. Sabia apenas que teria uma apresentação do novo álbum da Gomalakka, banda armada para causar da Ciça Brancale, Alê Vergueiro, Renato Maia, Flavien Arker e Rodolfo Martins. O novo disco da banda, intitulado “Quem vai ficar até o fim da festa”, é exatamente como imaginei que seria: excepcional.

Leia nossa entrevista com a vocalista Ciça – talvez melhore a compreensão desse texto: CLIQUE AQUI.

Confesso que me atrapalhei todo, achei que seria um show… Burro para um c$%#%@ que sou, só me dei conta que era uma audição, ou seja, uma festa onde o novo álbum da banda seria tocado. Era um “fexxxxtinha”, por assim dizer. Uma nova estratégia no marketing musical? Olha, até que deu certo. Tava cheio o espaço, mesmo com a cerveja IPA Tarantino custando R$ 25 reais cada lata. Existiam outras cervejas com preços menores, mesmo assim achei o espaço caro, porém é um lugar bonito e que talvez possa valer o custo benefício para muitos. Estou escrevendo exatamente como cheguei em casa: embriagado e preocupado em me fazer entender de uma forma positiva e o mais simples possível.

Obviamente o Matheus Krempel é alvo das minhas alucinações nesses casos, mandei diversas mensagens de WhatsApp falando da minha situação débil e aleatória e ele, todo gentil, tentando auxiliar nas minhas divagações (ou me ignorando).

Fiquei bebendo sozinho porque não conhecia praticamente ninguém que estava no local, apenas o Eduardo Santana, da Cérebro Surdo Produções. Meu jeito antissocial mas sempre antifascista costuma aflorar nesses momentos.

Para minha sorte, a Ciça, vocalista da Gomalakka, chegou pouco tempo depois e me cumprimentou e me apresentou para algumas pessoas. Em seguida, coincidentemente, encontrei a Natalia Pinheiro, onde falamos sobre um pouco sobre seu trabalho e a cena queer em São Paulo. Talvez possamos fazer pautas juntos sobre alguns temas bem importantes. Pedi mais uma cerveja IPA Tarantino e nesse momento a Ciça avisou: hora de ouvir Quem vai ficar até o fim da festa.

Ouvir a banda em um ambiente de festa fez perceber que mesmo falando de assuntos sérios, além de ter sido realizado em momentos de tensão, como a Ciça me explicou depois, o disco consegue transmitir uma batida pulsante que facilmente caberia em uma festa capaz de fazer muitos dançarem. É uma outra experiência sair de casa/ trabalho para ouvir a estreia de um disco, sem uma banda tocando ao vivo. Fui pego gostando de estar ali, mesmo me sentindo deslocado. O álbum ficou muito bem gravado e mesmo sem entender tanto as letras naquele momento, as músicas entravam na minha mente e me deixavam ainda mais inebriado. Com certeza o papo que tivemos com a Ciça demonstrou que esse álbum foi pensado do início ao fim, exatamente com esse propósito. Todas as faixas, passando por “Fiatlux”, “Insecta”, “Ressaca Moral” e “Gravidade” são verdadeiras obras para agradar quem gosta de dançar, mas também quem gosta de pensar. Fiquei imaginando depois o quanto a arte se disfarça (no bom sentido) para aquilo que precisamos ouvir com aquilo que queremos ouvir.

O trabalho é de uma profundidade sonora muito interessante, um passo além dos outros trabalhos produzidos pelo grupo, transformando esse álbum em uma das melhores coisas do underground do ano. Mas será que todo mundo irá pensar assim?

Conversando com a Ciça, essa é uma outra questão bem interessante: como se desenvolver como artista ao longo dos anos e se encontrar como artista diante dos conflitos que afrontam as mulheres na música diariamente? As forças que essas mulheres encontram vão além da música. É a arte em sua resistência de existir, de se enxergar como artista e de se fazer ouvir e ver.

Falamos muitas outras coisas importantes, o som ao fundo me deixava ainda mais na inebriado, mas com certeza não foi um papo em vão. Ao contrário, foi quase filosófico. Talvez conte mais sobre isso em uma outra resenha.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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