sexta-feira, 19 de julho de 2019
Nada Pop

Um pouco do universo de Amanda Buttler, baixista da Sky Down

Ela é a dona do baixo Washburn e integrante da Sky Down, super banda do ABC Paulista (se não conhece, tá perdendo tempo!). Nascida em São Bernardo do Campo, mora atualmente com o seu companheiro, três amigos e dois gatos na cidade de São Paulo. 

Amanda Buttler nos concedeu a honra e o prazer de um bate-papo simples, mas cheio de histórias pessoais interessantes. Amanda é formada em Rádio e TV e já trabalhou com diversas agências de publicidade como redatora.

Depois mudou completamente após ganhar uma “úlcera desgraçada”, como ela mesma diz, e foi estudar pedagogia e trabalhar com educação infantil com crianças entre 1 e 7 anos. Depois de cinco anos, decidiu ser freela e atualmente exerce mais de uma profissão (trabalha em bar, é babá, escreve, além dos seus projetos pessoais de música, discotecagem e até produção e contrarregra em um curta de terror.

Amanda Buttler – Foto: Filipa Aurélio

Como ela mesma diz, seu ascendente em gêmeos a faz querer fazer mil coisas. É leonina, com lua em libra e vênus em câncer. “Esse ano fiz trinta anos e não sei ainda o que quero ser quando crescer”, diz.

Sobre a Sky Down ela confirma que a banda está finalizando um disco e preparando videoclipes, ajeitando tudo para ser lançado já com alguns materiais na manga.

Confira o papo que trocamos para falar um pouco sobre ela e esse rolê underground que amamos.

NADA POP – Queria começar pelo seu sobrenome, é seu mesmo ou não? Qual a história do nome Buttler?

AMANDA BUTTLER – Tem gente que acha que é artístico, risos. Uns vem falando “Ahh, parente do Geezer, né?”, outros lembram daquele ator Gerard Butler. Assim como o Gezzer, Gerard tem um “t” só no buTler. Eu sou buttler com dois T’s. É de origem alemã. Minha família boa parte tem olhos claros e cabelos loiros, mas eu sou uma mistureba de Alemanha com Teresina (PI) e respondendo a sua pergunta: é meu mesmo.

NADA POP – Você consegue lembrar do seu primeiro contato com a música? E com o contrabaixo? Ele foi seu primeiro instrumento?

AMANDA BUTTLER – Eu lembro de ter cinco ou seis anos e pegar o LP de “Houses of the Holy” e dizer: “Quero ouvir aquele disco das crianças peladas escalando nas pedras”. Dancing Days era minha faixa favorita na época. Eu sempre fiquei pirando naquela capa, pensando pra onde elas estariam indo, sabe? Fui apresentada ao Led Zeppelin, Black Sabbath, Pink Floyd, Supertramp pelo meu tio. Minha mãe sempre foi mais Tina Turner, Abba, Tom Tom Club, Duran Duran, Oingo Boingo. Meu padrasto era mais Cazuza, Titãs, Barão Vermelho, Raul Seixas, Mutantes…


Álbum “Houses of the Holy”, do Led Zeppelin (1973)

Com 15 ou 16 anos montei uma banda com amigos da escola. Éramos três meninas (eu, vocal. Sheila, baixo. Mônica, guitarra) Tiago na outra guita e o Fábio na bateria. A banda se chamava (não ria, é mei tosco): “VooDoo Dolls” tocávamos em bares em Santo André, festivais e no finado Volkana (onde chegamos a abrir um show do Dance of Days e do Dead Fish). Eu era vocalista e não sabia tocar nada. Em 2006, comprei o baixo que uso até hoje e comecei a procurar tablatura na internet das músicas que eu curtia na época (Pixies, Breeders, Bikini Kill, Nirvana). Fiz aula uma época, mas achei um saco e sai fora. Eu nem sei tocar essa porra direito, mas eu enrolo bem, risos.

Amanda Buttler – Foto: Arquivo Pessoal

NADA POP – Lembro de você no Der Baum. Pode contar um pouco mais da sua experiência com a banda e das suas outras bandas? Como tudo começou?

AMANDA BUTTLER – Então, tive essa aí, o “VooDoo Dolls”, daí uma época eu cantava duas ou três músicas em alguns shows do Histamina (banda cover de 80 do ABC). Depois ensaiei algumas músicas com a banda stoner duns amigos (Allan e Alê) o Deavollo, mas também não virou nada. Daí a Fernanda e o Ian eu já conhecia há milianos do Histamina, porque o Ian tocava teclado nessa banda também e a Fê sempre colava nos shows e ficávamos papeando. Nem lembro como foi, mas eles me chamaram pra tocar bateria eletrônica, eu nunca nem tinha visto uma de perto nem sabia nada também. Mas foi muito legal porque gravamos EP, clipe, tocamos em vários lugares e projetos legais. Eu compus e cantava algumas músicas com eles também. Acho especial saber que tive uma parte ali naquela banda.

Amanda Buttler em clipe da Der Baum no período que integrava a banda

NADA POP – Como surgiu a sua entrada para o Sky Down e como você enxerga a banda e a sua participação no grupo?

AMANDA BUTTLER – Eu entrei tem dois anos. O Tales (ex-baixista) foi morar fora e eles ficaram sem baixista. Se não me falha a memória o Caio queria tocar com alguma mulher. Daí eu falei “bora ensaiar quero tocar nessa banda aí”. Eu já colava nos shows, sempre gostei das músicas. Ele me passou as tab (tablatura) de Nowhere inteiro. Eu tirei, passamos aqui em casa e depois marcamos ensaio com o André. E daí bateu.

Sobre tocar no Sky Down: é uma das coisas que eu mais me divirto fazendo, e eu acho que o lance é você fazer porque gosta e foda-se. Sempre tem perrengue, zica, pressão baixa, teto preto, corda estoura, dedo expurga. É uma delícia.

NADA POP – Já vi você comentando nas redes sociais sobre o machismo na música. Você vê muito disso? Até quando você acredita que mulheres irão enfrentar esse tipo de problema e quais dicas/ conselhos você poderia dar para outras minas que possam passar por esse tipo de situação?

AMANDA BUTTLER – Já expus publicamente alguns lances que aconteceram pelo simples fato de eu ser uma mina ali tocando. Desde o cara que acha que cê não dá conta de carregar tua própria bag do baixo (“é muito pesado pra você!”) sendo que eu fico cerca de 45 minutos estrebuchando com ele pendurado no meu corpo e tô vivona – não preciso da ajuda, saca? Quando o cara acha que cê não sabe tocar, ou “elogia” dizendo que “pra uma mina até que cê toca bem”. Acho que tem um lance de acharem frágil, fofo, sei lá que porra. Eu sempre vejo acontecer: comigo, com amigas que também tocam. Eu espero que nunca ninguém passe algo zuado por conta de homem escroto, mas estamos suscetíveis sempre. Eu não sei se isso um dia vai ter fim. Mas por mais difícil que seja (isso vale muito pra mim também) é: nunca deixe quieto. Questione, responda. Se for um cara babacão, seja também. Na maioria das vezes eu fico quieta, engulo. Depois cuspo todo ódio em forma de palavras num post do Facebook. Às vezes me falta um foda-se maior pra esse tipo de situ.

NADA POP – Tempos atrás você deu aulas de contrabaixo para outras meninas. Como foi essa experiência, onde e quando aconteceu? Qual a importância desse tipo de projeto em sua opinião?

AMANDA BUTTLER – Então, na real, ano passado eu atuei em outras funções no GRCBR (Girls Rock Camp Brasil), como Mestre de Cerimônia, Produtora e Mediadora de conflitos.

Em 2019 é que eu vou como instrutora de baixo pela primeira vez. O GRCBR é um acampamento diurno para garotas de 7 a 17 anos. Acontece no mês de janeiro na cidade de Sorocaba. São cerca de 90 meninas, 80 voluntárias (acho) e durante uma semana as meninas aprendem o instrumento que escolheram e têm aulas básicas. Além disso, aulas de composição, silk, zine, expressão corporal, autodefesa, história das minas na música, yoga etc. No final, elas se apresentam no Asteroid, uma música de sua autoria. É emocionante acompanhar esse processo, eu acredito ser muito importante na formação das meninas. Tanto social como musical, abre possibilidades, percepções, elas se divertem e aprendem um tanto de coisa com crianças de faixa etária misturada. É legal ver uma criança de 12 ajudando a de 8 e a de 15 aprendendo com a de 7, sabe?

NADA POP – Queria que você destacasse três shows com a Sky Down que você nunca irá esquecer.

AMANDA BUTTLER – Do CCSP (Centro Cultural São Paulo) pra mim foi foda. Teve performance da minha amiga Catharina Bellini, sem ensaiar nem nada e foi incrível. Ela pirou no som e criou a identidade da performance. Foi dentro da programação do Dia do Rock com curadoria do Alexandre Matias. Tinha uma galera legal e o show foi intenso.

Teve um que nunca vou me esquecer pois eu chapei demais antes de tocar e esqueci TUDO. Parecia até que eu nunca tinha feito aquilo, foi memorável de horrível, risos. Desde então só toco sóbria. Só bebo água, durante se estou relaxada deixo uma latinha no palco pra bebericar entre um som e outro.

O aniversário do Roger (Roger Souza) foi foda também. Ele chamou umas bandas e Djs pra festa dele. Tocamos e foi muito legal tocar para os amigos. Um pandeiro caiu na cabeça do Caio e deu uma cortada. Eu colei um absorvente no corte da testa dele e ele tocou com aquilo, com sanguinho no meio.

Amanda Buttler – Foto: Arquivo pessoal

NADA POP – Enxergo você hoje como uma referência musical no meio underground. Pra você, quais bandas diria que devemos manter a atenção e acompanhar os trabalhos anteriores, presentes e futuros e que te impactaram de alguma forma?

AMANDA BUTTLER – Jonnata Doll e os Garotos Solventes: eu gosto do trampo do Jonnata Doll. Acho que todo mundo deveria ver ele ao vivo num show, é surpreendente. Performance, letras, arranjos. É punk, melancólico, dançante, e tem letra em português, o que eu admiro muito pois eu acho difícil, sabe? Escrever legal em português.

Pin Ups: um dia eu postei um texto pra divulgar o show que íamos tocar com eles. O texto começava dizendo que no ano em que nasci eles formaram a banda (1988). Até o Zé achou graça e comentou comigo algo do tipo “Pô, me senti um velho, risos”. Eu demorei mesmo pra escutar, risos. Doido é ver eles gravando disco novo, depois de tanto tempo de banda, enfim, muda-se a formação, mas a essência do que é eles ali no palco sempre vão ser impactantes pra mim. Eu sou grande fã da Ale e do Zé, sempre gostei do Flávio tocando desde o Forgotten, ele toca pra caralho. O Adriano sempre foi aquela imagem de amigo que eu gostaria de ter na vida, eu amava CSS (Cansei de Ser Sexy). Acho muito legal ter essa proximidade com todos eles hoje em dia, o que rendeu até numa participação minha em uma faixa do disco novo deles. ❤ Fiquei muito feliz com o convite.

Autoramas: eu sou fã demais também. Lembro que em 2007 eu queria muito ver show deles na Outs. Chamei Caio pra ir comigo. Eu tinha 17 anos e o segurança não me deixou entrar. Fiquei “ouvindo” da sarjeta. Anos se passaram e hoje em dia somos amigos. Até participei do tributo gravando a faixa de “Deus me deu um cérebro” que tá pra sair em breve com mais de 40 bandas. Eles lançaram disco novo e mostram que mesmo depois de 20 anos de banda eles tem uma energia grandiosa.

Negro Léo: ele tem um disco que se chama “Action Lekking”, de 2017. Eles têm feito uns shows desse disco onde todos os instrumentos são processados por efeitos de pedais diferentes. Eu recomendo assistir esse show, é uma doidera do caralho. As letras do Léo são foda, e os músicos que acompanham a banda tocam pra caralho.

NADA POP – Quais bandas, músicas e artistas fazem a sua cabeça hoje e quais sempre irão fazer?

AMANDA BUTTLER – Eu tenho pirado na Letrux, na Ava Rocha, na Alessandra Leão, Negro Leo. Sempre que posso vou ver show dessa galera. Tenho escutado muito Rita Lee, Nara Leão (eu amo), Marina Lima. Ainda escuto Duran Duran, Oingo Boingo, Joy Division, Titãs, Lydia Lunch, Siousxie. Meu ascendente em gêmeos não permite continuar pois a lista é extensa.

NADA POP – Quando teremos um livro seu publicado? Existem planos pra isso? Sempre leio as histórias que você conta e acredito que não sou o único a te falar isso. Podemos esperar por uma publicação?

AMANDA BUTTLER – Queria. Tenho ideias, um tanto de coisa escrito que quero botar pra jogo no mundo. Quero ilustrar e escrever um livro infantil e trabalhar no meu pessoal de crônicas.

Planos – nunca faço, risos. Eu nem sei muito por onde começar, sabe? Amigos escritores que estão lendo isso, aceito consultorias de como publicar seu primeiro livro.

Links da Sky Down: Facebook | YouTube | Instagram | Bandcamp

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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