sexta-feira, 19 de julho de 2019
Nada Pop

Thiagones, do Wiseman: “Não dá para cobrar postura de punk que sempre foi ignorante”

Da esquerda para a direita: Luiz Chagas (bateria), Thiagones (vocal e guitarra) e Paulo Sepúlvida (baixo). Juntos formam a banda Wiseman – Foto: divulgação.

Poderia simplesmente repetir o próprio release da banda, do qual tive a oportunidade de revisar na época que falávamos sobre política e punk em uma mesa de bar. Até hoje lembro o início daquele texto: “as guitarras estão gritando, o baixo é distorcido enquanto a bateria segue pulsando firme e na contramão do pop, a voz rasgada canta/reclama/xinga sobre política, problemas sociais e tergiversa o cotidiano…”.

Esse trecho poderia ser o resumo do próprio Nada Pop, mas fico contente de pertencer a uma das bandas mais honestas que conheço. Honestidade, entenda, não se trata de bom ou ruim, mas do quanto você está disposto a se jogar na vida pelo que acredita. Poxa, estou no segundo parágrafo e ainda não disse o nome da banda: Wiseman.

“Mind Blown”, lançado em 2018, é o primeiro full da banda. Antes desse álbum temos a demo “Reflex”, de 2014, na qual destaco a “Per Hour” (acho linda essa música), e depois o EP/ Promo, de 2016, com três faixas, incluindo “Ballistic”, que pra mim é inspirada na música “Dayglo”, da Hazel (talvez seja só maluquice da minha cabeça… ou não).

Mas voltando ao Mind Blown, que é grunge, alternativo e sujo, com fortes influências dos sons de 1990 dos EUA, mas sem querer ser uma cópia e sim um parente próximo. Ao todo, as 12 músicas do álbum (Ballistic também aparece aqui como faixa bônus) mostram uma banda consciente do seu som, que não se vende mais do que é, fazendo das inspirações uma nova janela para o futuro. “Shut Up and Listen!” é o que você deve fazer.

Gravado no estúdio Damata e produzido por Ali Zaher Jr. e Thiago Costa (Babalu), Mind Blown foi masterizado por Nick Townsend. Talvez essas informações não importem tanto, vivemos dias que em que o consumo de música é cada vez mais descartável… Ainda sim, aquelas bandas que ainda ousam se inspirar na honestidade, precisam ser ouvidas.

Aproveitamos essa “pequena” introdução sobre o álbum e a banda para convidá-lo a ler a entrevista que o vocal e guitarra Thiagones concedeu ao Nada Pop. Papo reto e direto.

NADA POP – Thiago, como você enxerga a cena HC atual. Mais bandas e menos espaços, você diria que o rock está muito enfraquecido ou definitivamente morreu?

THIAGONES – Nesta questão eu vejo algumas situações que se cruzam, mas não necessariamente são as mesmas, saca? Essas cenas segmentadas (punk, hardcore, indie, etc) eu vejo como uma coisa e sobre o lance do “Rock estar morrendo” eu vejo outras.

No nosso microuniverso Underground, vejo que os poucos que “estão em cima” praticamente não olham pra “quem está embaixo”. Só olham apenas pro lado, sacou? O que deixa a multidão de baixo buscando e se confrontando por migalhas de atenção.

Quanto ao Rock, macro, geral. Sim, está morrendo e já já ele empacota de vez. Perdeu relevância pro jovem, perdeu conexão com as ruas, com a rebeldia.

As grandes industrias musicais também aprenderam como empacotar, plastificar e vender isso, o que foi tornando o estilo cada vez mais diluído e insosso. É isso, conformem-se, em algumas décadas, já era

Nostradamones falou!

NADA POP – O que representa ter uma banda para você, tanto política como socialmente falando?

THIAGONES – Pra mim é importante passar alguma mensagem. Ter uma banda pra mim, obviamente, é ter amor à música, mas também particularmente eu tenho essa necessidade de cuspir, externar sentimentos que ficam guardados lá no meu dia a dia.

Muita coisa envolve ter uma banda. É conhecer lugares e pessoas legais, trocar experiencias musicais, muita coisa. Esse é o pagamento pelo trabalho de se ter uma banda. Ah, isso enquanto o Bonadio não nos contratar, risos.

NADA POP – A pergunta anterior se baseia na percepção, não só minha, mas de que muitas bandas buscam o sucesso rápido e retorno financeiro a curto prazo. Você concorda com essa percepção, o que corrobora para isso?

THIAGONES – Sim, sem dúvidas. Eu tenho visto bastante disso. Vejo todo mundo querendo visibilidade e atenção (não necessariamente pro som, mas enfim), mas poucos trabalhando de verdade por isso.

Ter banda, ser artista no Brasil é difícil. De rock, punk, hardcore, etc., então, pior ainda… É Difícil, complexo e caro.

O Wiseman, por exemplo: tocamos em picos minúsculos, médios, “grandes”, pra pouca e pra muita gente. Mantemos as redes sociais e o website oficial da forma mais profissional possível. Controlamos as vendas de merch (tanto online quanto nos shows). Fazemos os designs das nossas artes, imagens, tudo… É trampo duro, não remunerado e feito por longos anos. Aí chega um e pergunta: “Pô, como tu arrumou esse show?”, “como tu fez pra sair naquele site”.

Trabalha, cara. Corre, organiza, grava, monta, envia… Troca de informação, experiência é uma coisa, querer cortar caminho é outra.

Eu entendo (e também sofro) com essa agonia atual de que quase ninguém (selos, artistas “maiores”) se interessa por novos trampos (e quando se interessam, são as “novidades” feitas por velhos caciques), mas o que fazer? Trabalhar.

É difícil mesmo, cara.

NADA POP – Gravar um álbum é muito mais fácil hoje no Brasil do que na década de 1980, por exemplo. Mas pra você, o que impede uma produção e gravação de qualidade para a maior parte das bandas ou não existe mais “desculpas” para uma boa gravação?

THIAGONES – Grana sempre é um problema né… Os estúdios estão mais acessíveis? Estão. Gravar em casa é uma possibilidade real hoje em dia? Também é.

Mas envolve grana da mesma forma. Pra realidade brasileira, dinheiro ainda é um problema. Mas em relação à qualidade de gravação, eu tenho visto que o padrão está bem alto, galera tá se esforçando e mandando brasa.

No nosso disco, por exemplo, pra conseguir prensar o Mind Blown em CD bacana, digipack, profissa, com encarte e talz , tiramos grana do aluguel, das contas, não foi fácil.

Tivemos apoio foda dos selos 33Records e Dinamite, mas mesmo assim tivemos de desviar umas verbas aí (Brasil, o país da laranjada).

NADA POP – Tempos atrás conversamos sobre tours e de como algumas bandas acabam se ajudando para essas viagens. O Wiseman está nessa pegada de tour? Avaliam que uma tour fora do País pode ser melhor para a banda, que canta em inglês, melhor do que em seu próprio lugar de origem?

THIAGONES – Sempre! Neste 1° ano desde o lançamento do MIND BLOWN, fizemos mais de 45 shows em 5 estados do país. Neste ano queremos tentar chegar o mais longe que conseguirmos. Nós tentamos tocar em tudo o que pudemos, sextas, sábados e domingos muitas vezes.

Nesse ponto, acho que ainda temos aquela velha visão de que uma banda se faz na estrada, divulgando o trampo face a face. Tocar ao vivo é também a melhor parte de se ter uma banda (na minha humilde opinião).

Tour fora do Brasil exige planejamento e estamos dedicando um bom tempo a isso. Da minha parte, não espero virar o novo Sepultura nem nada do tipo. Isso é devaneio de jovem deslumbrado com o nada. Mas talvez a banda possa receber alguma atenção por um trampo bem feito.

Talvez seja possível nos manter como banda, tipo: fazemos 12 / 15 shows, vendemos merch e levantamos uma grana que banque uma próxima ida, e assim por diante.

Aliás, sobre cantar em inglês no Brasil. Brasileiro é um bicho engraçado: tudo que é gringo (sueco, norueguês, alemão) cantando em inglês, o brasa recebe de braços abertos. Ama de paixão. Se é uma banda brasileira cantando em inglês, aí parece que tem uma barreira no meio, reclama que não sabe o idioma, pergunta e questiona do porque não cantar em BR.

Curioso…

Thiagones – Foto: Fabio Banin

NADA POP – Durante as eleições presidenciais do ano passado, houve um grande número de pessoas relacionadas com o hardcore, e até mesmo com o punk, favoráveis ao atual presidente (Jair Bolsonaro). Como conheço um pouco as suas posições políticas, qual a sua visão em relação a esses músicos e como que um movimento, naturalmente de esquerda, se volta para alguém com pensamentos tão diferentes do que o próprio HC reproduz?

THIAGONES – A idade chega e cobra né. Poucos no punk BR da 1° geração eram realmente politizados, e isso é dito pelos próprios antigos. Não dá pra cobrar postura de quem sempre foi ignorante (no sentido literal) e só entrou em rolê pela moda ou porque estava fudido, etc.

O que eu acho mais bizarro são os jovens que estão envolvidos no meio e que não conseguem assimilar nada. Nem de postura, comportamento, letras, nada. Tem uma tonelada de informações, mas não consegue entender nenhuma.

Deficiência cognitiva mesmo. É difícil falar em “movimento”, quando isso nem existe, mas naturalmente que o ambiente tem (ou deveria ter) uma atitude libertária em todas as esferas (sexual, de gênero, antirracismo, tudo).

Mas quando aparece um tipo desse, eu vejo poucos realmente abertos ao diálogo. São sempre as frases clichês, as ofensas padrão e tal. Não tem muito diálogo com essa gente.

Basicamente, das 2, 1: Ou fica quieto ouvindo os Rinfes (gíria tá na moda), ou acaba formando o seu rolê de imbecis!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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