domingo, 25 de agosto de 2019
Nada Pop

Sobre um show do Dead Fish em São Mateus e o mini doc Ponto Cego

Por Letícia Pataquine

Eu não sou fã do Dead Fish desde a adolescência, só depois de adulta, acidentalmente, vi um show da banda e entendi porque eles estavam quase completando 25 anos de estrada. Essa demora pra me tornar “fã de uma banda” que eu conhecia desde os tempos de MTV é parecida com a demora para processar e conseguir escrever sobre o show que o Dead Fish fez no começo de julho na Casa de Cultura de São Mateus, na Zona Leste (SP).

No ano passado, repercutiu em todo o País, o discurso do Mano Brown em um palanque do PT sobre o partido ter se esquecido de falar a língua do povo, lembrando que caso aquelas pessoas que dividiam o palco com ele naquele momento não alcançassem as periferias, era necessário voltar ao começo. A importância de discursos progressistas atingirem as periferias é cada vez mais gritante e por isso o show do DF em São Mateus foi tão intenso pra todo mundo que teve a oportunidade (e coragem de sair em um dos domingos mais frios do ano em SP) de assistir.

Não é normal levar duas ou mais horas pra ir e voltar do trabalho e eu sei que muitos de vocês vivem isso todos os dias

Na hora do show, Rodrigo, que já havia trocado ideia com o público enquanto rolavam os shows do Wiseman e do Projeto R.U.A, subiu e gritou que ali era onde eles queriam tocar. Considerando que antes desse show em São Mateus, o Dead Fish só havia tocado o Ponto Cego em uma das maiores casas de shows da Zona Oeste, mesmo que grande parte do público fosse dos fãs, é possível que muitos ali estivessem vendo a banda pela primeira vez, por uma oportunidade de ouvir música de graça em um domingo num dos bairros mais afastados do Centro – “Não é normal levar duas ou mais horas pra ir e voltar do trabalho e eu sei que muitos de vocês vivem isso todos os dias”, lembrou Rodrigo entre uma música e outra desse álbum que não tem meio termo.

Mas já que estamos falando em “Ponto Cego”, álbum que já teve resenha publicada aqui no Nada Pop (clique AQUI para ler), o disco ganhou um minidoc de 15 minutos disponível no canal da Deckdisc no Youtube, que mostra o processo criativo da banda e o porquê de voltarem para uma gravadora depois de tantos anos, além de alguns pontos de vista dos membros sobre as letras e a necessidade desse álbum em um dos piores momentos políticos do Brasil.

O DF ainda tem a energia, a raiva e a motivação necessárias pra estarem na cultura em que o DF está inserido

O doc começa com o Rodrigo falando que sempre o questionam se é possível explicar como ele, aos 46 anos, ainda consegue olhar nos olhos de jovens de 20 e poucos anos e continuar fazendo sentido. Apesar de falar que não sabe explicar, Rodrigo afirma, na sequência, que o DF ainda tem a energia, a raiva e a motivação necessárias pra estarem na cultura em que o DF está inserido. Então aqui a gente já entende que é por isso que a banda faz sentido depois de 25 anos. E o desejo é que faça cada vez mais sentido e desperte em cada vez mais jovens a raiva, a motivação e a energia necessárias para uma inevitável mudança. E que chegue cada vez mais longe, não apenas em tempo de banda, mas também em bairros afastados dos grandes centros e dos condomínios fechados que inspiraram as letras de Ponto Cego.

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