sexta-feira, 19 de abril de 2019
Nada Pop

Rotten Flies – O hardcore de João Pessoa

O Rotten Flies é uma banda de hardcore nascida em 1990, em João Pessoa (Paraíba). A banda possui uma sonoridade rápida, direta, vinculada à realidade das ruas. Tocando em tudo que é lugar há 25 anos. Som crú, letras fortes, e sentimento ligado a uma espécie de guerrilha verbal. Hardcore sem firulas com um pé na energia das velhas referências do punk dos anos 80. Sem concessões, e sem falso medo de assumir referências. Saiba mais sobre a banda nessa entrevista especial feita pelo Wagner Cyco, do Mollotov Attack.

NADA POP ENTREVISTA ROTTEN FLIES

NADA POP – O Rotten Flies parece ser uma banda muito ativa, baseado na quantidade de material lançado, e vem fazendo isso desde os anos 90. Nessa caminhada já passaram por diversas mídias como a fita cassete na primeira demo (Necrofilia), o CD, material disponível apenas para download, como é o caso do EP Guerrilha Urbana (2007), além de diversos vídeo clipes. As datas de alguns desses lançamentos também revelam uma banda bastante antenada com o mundo ao redor e as novas tecnologias. Nos conte um pouco sobre a experiência de gravar e lançar em cada uma dessas diferentes mídias, e qual o rumo que vocês acreditam que os lançamentos musicais deverão seguir daqui em diante, nesses tempos de tão pouca atenção por parte do público.

ROTTEN FLIES – A dificuldade no passado imperava. Hoje podemos gravar em casa. A bateria continua sendo o instrumento que requer ainda muita atenção. A bateria pode colocar tudo a perder se a captação não for certa. Além da tecnologia, hoje, temos profissionais mais experientes, não apenas no quesito dos equipamentos, como também em gravar bandas de rock, o que era muito difícil em nosso território. Hoje todas as mídias usadas no passado estão disponíveis e até o mesmo equipamento vintage para se captar a atmosfera de quando tudo era muito caro e inalcançável para o bolso dos roqueiros.

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Álbum “Saco de Gilete”, da banda Rotten Flies

NADA POP – O punk rock e o hardcore sempre tiveram no conteúdo de suas letras seu grande diferencial em relação à grande maioria dos outros estilos musicais. Vocês acreditam que hoje já exista uma espécie de saturação no estilo, com muitos temas se repetindo, e que isso possa vir a se tornar um problema? Aproveitando a deixa, como funciona o processo de composição das letras da banda?

ROTTEN FLIES – Não. Não acredito que isso venha se tornar um problema. O grande problema é a espécie humana, durante séculos, repetir os mesmos erros e não conseguir melhorar como raça. Em tecnologia estamos ótimos, mas é só isso! O nosso planeta está em frangalhos, a matança incontrolável, desigualdade desenfreada, sistema selvagem, água escassa, ar poluído… Fazer música e falar do que nos causa desconforto é o propósito para não morrer sufocado com o grito na garganta, porque sufocado em breve estaremos todos!

NADA POP – Com tanto tempo de estrada é natural que rolem desentendimentos, trocas de formação períodos de menor atividade. Como foi o passar dos anos para o Rotten Flies? Qual a opinião de vocês sobre a fase atual da banda?

ROTTEN FLIES – Ter uma banda é mais complicado que um casamento! Não é apenas mais uma pessoa, são três! Claro, rola tudo isso que você citou na pergunta, mas rola também, principalmente, depois de tanto tempo, uma comunicação extra que só a gente entende! E isso só se consegue passando por todos os perrengues que temos direito durante um período tão extenso de banda. A fase atual da banda está ótima! Gravamos um CD, ano passado, estamos com composições novas para um EP ou LP com previsão para ano que vem e ainda esse ano lançaremos nosso primeiro DVD, Sem falar nos roles que estão surgindo, desde o Saco de Gilete, já tocamos em diversos lugares e cidades que nem cogitamos durante todos os vinte e cinco anos de banda!

NADA POP – Existe quase um consenso entre os músicos do sudeste de que São Paulo tem uma das piores, senão a pior cena independente do mundo em termos de público e renda. Com uma recente passagem pela cidade e com uma perspectiva diferente, como vocês enxergam a cena paulistana e as principais diferenças para outros lugares por onde a banda passou e para a região nordeste?

ROTTEN FLIES – Cara, difícil avaliar isso com uma simples e rápida passagem da banda pela terra da garoa. Em todos os lugares existem pessoas que trabalham em prol de uma cena alternativa, underground e que encontram os mesmos empecilhos de uma grande metrópole como São Paulo. Infelizmente, não temos um circuito fixo de casas, bares ou squats para a circulação de banda e consequentemente de fluxo de informações e materiais relacionados, a exemplo dos Estados Unidos e Europa.

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NADA POP – Algumas bandas não gostam muito de ensaiar, e acabam se encontrando apenas às vésperas de shows ou quando se preparam para uma gravação. Como isso funciona para o Rotten Flies e como vocês conciliam trabalho, família, turnês, ensaios, gravações, etc?

ROTTEN FLIES – Para a Rotten Flies ensaiar é a diversão, o dayoff de todo mundo que trabalha a semana inteira e no final de semana precisa descarregar todas as tensões em seus respectivos instrumentos. Acompanhado de muita cerva bem gelada e o som no talo! Quando todos na banda tem um único objetivo, tudo acaba conspirando para se encaixar. O negócio é não travar nada!

NADA POP – As letras de duas das faixas do último CD, “Saco de gilete”, me chamaram bastante a atenção. São elas ‘Ladeira do Varjão’ e ‘Jacarapé’. Vocês poderiam nos contar um pouco sobre essas letras e sobre as estórias por detrás delas?

ROTTEN FLIES – São letras que retratam momentos diferentes em bairros distintos. Em todo canto do mundo tem cidades com bairros barra pesada. A Ladeira do Varjão é uma via que liga os bairros de Jaguaribe com o Cristo (bairro da periferia) e que já foi cenário de muitos causos. Enquanto Jacarapé ficou famosa porque se costumava desovar corpos por lá. É um local distante e pouco habitado. Daí o refrão dizer: “Jacarapé, desova grande!” Acho bacana uma banda falar de sua aldeia, de suas peculiaridades, do micro para o macro.

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NADA POP – Falem um pouco sobre o DVD Rotten Flies ao vivo no Pogo. Já terminaram as gravações? Onde foram feitas? Já tem previsão de lançamento? Sairá pelo selo Microfonia?

ROTTEN FLIES – Não, ainda nem começamos! Estamos na pré-produção e aguardando o subsídio do FIC (Fundo Municipal de Cultura) no qual o projeto foi aprovado. A gravação será no local situado no Centro Histórico da cidade de João Pessoa, chamado Pogo Pub. Queremos muito lançar ainda esse ano, mas tudo vai depender do andamento do processo para a liberação do recurso. Sim, o selo Microfonia irá distribuir e divulgar!

NADA POP – E aproveitando a deixa, o jornal Microfonia vem se tornando a cada edição uma real opção aos cadernos culturais representantes da mesmice instaurada na arte brasileira, dando voz ao novo, ao excluído, ao independente de um modo geral. Quando surgiu esse projeto e quais foram as maiores dificuldades no início? E hoje, o jornal conta com muitas parcerias para tornar possível sua existência, distribuição e relevância?

ROTTEN FLIES – Temos a preferência pelo novo e desconhecido. O que tem uma produção mainstream e muitos holofotes em cima, a gente descarta. Nada contra! Ótimo para quem conseguiu chegar lá (seja lá o que isso signifique – grana, fama, etc). A gente faz o que gosta. Gostamos também de bandas, filmes e livros que tem um lugar na história do rock e que por isso mesmo, não achamos relevante ficar ‘chovendo no molhado’. Como diz Belchior, o novo sempre vem! E não existe nenhuma geração espontânea, todo mundo tem influência de algo. Ficar procurando a banda dos últimos tempos não existe. Existe sim, o fato de ter muita gente fazendo trabalhos significativos por todo nosso país e isso é difícil cobrir, pois é muita coisa nova surgindo, Seria preciso uns 50 ‘ Jornais Microfonia’ para dá conta de tudo (risos).

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Mesmo hoje em dia sendo bancado por um projeto aprovado pelo Fundo Municipal de Cultura (FMC), o jornal não pode se dar ao luxo de não ter parceiros. A nossa melhor arma é a divulgação e a maior parte dela se dá pelo boca a boca ou por um exemplar que alguém mandou junto com uma troca de CDs ou outros materiais de distribuidoras, selos e bandas independentes. Acredito que a gente não pode oferecer chances para as dificuldades. Irão sempre existir. É fácil? Não, não é fácil, mas se ficar pensando nas dificuldades e de mimimi nas redes sociais, com certeza isso não faz a diferença, nem inspira ninguém a tirar a bunda da cadeira e pegar a estrada! A vida vai muito além da tela do computador, mesmo esta lhe proporcionando comunicação e diálogos antes intransponíveis!

NADA POP – Como se não bastasse a banda, o selo e o jornal, o Rotten Flies também está envolvido com o programa ‘Jardim Elétrico’ que vai ao ar todas as quintas, das 20h às 22h pela rádio Tabajara FM 105,5 (http://radiotabajara.pb.gov.br/), através da figura do guitarrista Adriano. Fale um pouco sobre a proposta do trabalho e da importância desse espaço em uma mídia tão tradicional, acessível e abrangente quanto o rádio. E quanto ao ‘Sessão Microfonia’, do que se trata?

ROTTEN FLIES – Um programa de rock na radio, no sudeste talvez seja algo comum, mas aqui é alienígena, carregamos nos braços com carinho. Conseguimos um nível de divulgação legal do nosso trabalho e de demais bandas, e sim, somos o também o programa mais subversivo da radio paraibana, totalmente sem roteiro, ficamos sabendo que outras radios ficam se perguntando: quem diabos é esse pessoal do Jardim Elétrico? Mas tudo começou nos anos 80 com Olga Costa, minha parceira no crime. Ela já fazia o Jardim Elétrico na radio Universitária, nos anos 90 deu uma parada e retornou agora.

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Como você disse, é uma mídia tradicional, rádio era a única forma de informação no começo do século passado, e ainda tem gente que ouve. Sessão Microfonia foi um projeto que acontecia uma vez por mês, privilegiando bandas autorais de todo canto do país, mas a instituição que cedia o local, passou a dar preferência a bandas cover. Pegamos nossa trouxa e saímos, não era a nossa. O bom disso é que o Sessão Microfonia ficou itinerante, agora fazemos em qualquer canto, pode ser numa praça, na sua rua, na sala de sua casa, onde tiver o mínimo de estrutura, a gente chega junto!

NADA POP – Para finalizar, gostaria em nome de toda a equipe do Nada Pop agradecer a conversa e deixar este espaço livre para a banda falar sobre o que bem entender, responder qualquer pergunta que não tenha sido feita, ou até mandar um beijo pra minha mãe, pro meu pai e especialmente pra Xuxa!

ROTTEN FLIES – A Rotten Flies agradece o espaço do Nada Pop para divulgar nosso trabalho. Atualmente é cada vez mais raro, ver alguém se preocupar em divulgar as bandas independentes do nosso país. Muitos existem, poucos resistem! Valeu!

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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