sexta-feira, 23 de agosto de 2019
Nada Pop

Resenha: Jovens Mortos, novo álbum do Ódio Social

Jovens Mortos, disco novo da banda Ódio Social, acaba de sair do forno, e promete! 

Entre riffs bem trabalhados, distorções, acordes e beats, misturam-se letras de protesto que relatam o cotidiano e a visão da banda em relação a sociedade que vivemos. Com mais de 13 anos de carreira, o Ódio Social vem mostrando todo o seu potencial e talento musical, inovando e oferecendo hardcore de qualidade a quem possa interessar. O novo trabalho da banda conta com várias participações especiais, entre elas Fábio Sampaio (Fabião) do Olho Seco, Jeferson, da banda Agrotóxico, e Wendel, do Cólera. Em uma breve análise do disco, o que podemos adiantar aos fãs da banda é que “Jovens Mortos” é porrada na cabeça do início ao fim, e quando chega ao fim, dá vontade de ouvir tudo de novo!

A primeira musica que inicia o disco vem uma energia muito grande. Sua letra vem como um tapa na cara da juventude de hoje em dia que espera por mudanças, por um amanhã melhor, porém encontram-se em estado de apatia, sem força para lutar. Ficam sentados, estagnados, observando e reclamando de tudo que acontece a sua volta, se deixando levar pelo comodismo, jovens que já não acreditam mais no seu próprio ideal. Essa música é um grito de liberdade, um grito de incentivo que diz a vida não é fácil, porem deve ser vivida e encarada com coragem, suas escolhas e suas ideias podem sim mudar o amanhã, afinal “Jovens mortos não fazem e não contam histórias”.

odiosocial_2“Me dá um cigarro” é a segunda faixa do disco e a primeira música de trabalho. Vem com uma característica bem marcante, riffs de guitarra que mesclam o rock’n’roll com o bom e velho hardcore. A execução da cozinha ficou perfeita, levadas de baixo se encontram com a batera dando um toque especial a música. Esse som contou com a participação especial do Dux (ex R.D.H), velho conhecido na cena punk. Sua letra relata a história de um homem que foi julgado e condenado por crimes que não cometeu. Julgado por uma sociedade hipócrita que apenas vê o que lhes convém. Perdeu família, perdeu sua identidade como ser humano e hoje circula pelas ruas sozinho, sem rumo, sem expectativas, sem esperança, sem perspectivas de vida. Algo muito comum de se ver nos dias de hoje, basta caminhar pela ruas centrais de uma grande metrópole que história como essas se cruzam com a nossa. ” Me dá um cigarro?! Me dá um real.”

“Não Passarão!” é uma música que relata as desigualdades e preconceitos sofridos por aqueles que vivem em uma sociedade que considera a classe social, ou cor da pele mais importante do que o caráter. Relata a luta de quem combate o racismo, fascismo diariamente, a luta de quem busca um mundo melhor, livre de preconceitos, ou barreiras.

Grandes potencias mundiais potencializam o extermínio dos povos pobres mundo a fora. “Corvos, Abutres e Chacais” relata exatamente isso, a manipulação do povo, que trabalha para gerar lucro para os poderosos enquanto continuam na miséria. Essa música começa com uma levada mais lenta, puxada para o punk rock, e conta com a participação nos backing vocals do Fábio Sampaio, também conhecido com Fabião, uma lenda do punk nacional, vocalista da banda Olho Seco.

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Pessoas que se iludem e deixam-se levar pelo dinheiro e poder, enganadas e seduzidas pela ganância perdem completamente a essência, sensibilidade e a ternura, maltratando e ignorando completamente pessoas que sempre estiveram ao seu lado. “Vai sofrer”, é a letra que relata o resultado dessa trágica mistura.

Em setembro de 2011, o movimento punk sofreu um golpe brutal, uma grande perda! Edson Lopes Pozzi, mais conhecido como Redson e vocalista da banda Cólera, precocemente nos deixou aos 49 anos vítima de uma parada cardiorrespiratória. Essa grande perda foi algo que entristeceu e sensibilizou muito o cenário musical. Com riffs muito bem trabalhados e uma levada bastante característica da lendária banda Motörhead, a música “MotöRedson” é uma homenagem a esse grande músico, que por onde passava transbordava alegria, poesia e luta por mudanças. Nesse som contamos com a participação especial do atual vocalista da banda do Cólera, o Wendel. “Sua poesia, não será em vão, focos de resistência, ecos de revolução!”.

A derrocada de uma sociedade, onde o ser humano se destrói através da ganância, da vaidade e do comodismo fica cada vez mais evidente. Essa letra relata esse caos, a “Catástrofe” humana. Com a participação especial de um velho amigo da banda nos backings vocals, Wagner “Napalm” Fischer , que aos gritos brutais, conseguiu colocar uma pitadinha de Death Metal no som do Ódio Social, essa mistura ficou bem diferente, e bem legal, vale a pena conferir.

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“Segue Calado” relata a roubalheira que rola no planalto, e a submissão do povo que vive na miséria, sendo roubado, enganado e humilhado, porém aceita de cabeça baixa toda essa patifaria política, e se curvam diante de um governo corrupto. É o famoso ” jeitinho Brasileiro” de se virar em situações extremas. O povo roubado, e humilhado está cansado dessa situação, porem segue suas vidas calados. Nesse som podemos contar com a participação especial nos backings vocals do Diögro , vocalista da banda Agaglock, que representou com toda sua potência e agressividade vocal.

Pessoas que vivem trancadas em seus mundinhos, que agem como se tivessem, um sentimento que não possuem, e dissimula sua verdadeira personalidade, finge não ver o que acontece ao seu redor só para tornar o convívio social mais suportável. “Muralha de Hipócrita” trata desse fato comum da sociedade moderna. Esse som pesadíssimo, conta com a participação especial do grande JP da banda Yekun, que durante alguns anos foi linha de frente do Ódio Social como vocalista, alem de um grande amigo, JP faz parte da história e trajetória da banda.

Corruptos, corruptores e corrompidos, paralelo a esses caminhos existe o mais nobre de todos, o honesto. Infelizmente no Brasil aprende-se desde cedo esses caminhos, e que a vida é feita de escolhas. Ou você entra no jogo deles, dos corruptos, deixando-se corromper pelo dinheiro e seduzir-se pelo poder, ou você se fode de trabalhar para seguir o caminho honesto. São dois lados de uma mesma moeda, o rico, o pobre, o corrupto, o honesto, o dinheiro sujo, e o conquistado com honestidade e dignidade, porem a escolha é sua. Cabe a você decidir se seguirá sua vida de forma honesta, ou se entrará na “Dança dos Ratos”.

odiosocial_8Saúde pública precária, pessoas doentes em filas, morrendo em corredores de hospitais. É o estado de calamidade pública. Fruto de um governo que prioriza futebol e carnaval, enquanto o povo vive na miséria, sem emprego, sem educação, sem transporte de qualidade, sem saúde, sem nada. “Estado Grave” relata essa realidade,esse grande descaso do governo com assuntos que deveriam ser prioridade, como a saúde. Mas pra que se preocupar com isso? Afinal o Brasil é o país do Futebol, então é melhor construir estádios. Um povo burro, sem cultura, sem trabalho e doente é muito mais fácil de ser manipulado. “Sem tratamento, o dinheiro foi desviado. Se o seu filho adoecer, leve ele a um estádio!”. Essa música contou com a participação especial do Jeferson, da banda Agrotóxico, e Antonio Carlos, da banda Sistema Sangria, adianto que essa mistura de “Ódio Agrotóxico Sangria” ficou pesadíssima.

Farsa eleitoral, falsa democracia, onde te obrigam a votar, escolher um candidato no qual dizem representar as vontades e necessidades do povo. Mas na verdade não passa de um jogo sujo e imundo de cartas marcadas, onde o povo vota, elege um candidato, e no segundo seguinte se arrepende, pois vê que nada mudará na política, pois tudo sempre foi e sempre será premeditado. “Cartas Marcadas” relata exatamente isso, toda essa farsa e manipulação eleitoral. Essa música contou com a minha participação nos backings vocals, representando toda força e acidez feminina, e em contraste vem Antônio Carlos, da banda Cracolândia, nos gritos e berros brutos.

“Napalm neles” ultima música do disco, é aquela que deixa quem está ouvindo o disco com um gostinho de quero mais. Acordes pesados de guitarras, envolvem seus ouvidos meio que hipnotizando. A letra relata a revolta de quem vê e vive o sofrimento de ser prejudicado por aqueles que roubam no planalto. De quem já não vê mudança na política, porem sente aquela vontade de fazer justiça com as próprias mão, acabar com os políticos, acabar com a corrupção, é o ódio e a revolta de alguém que já não suporta mais essa situação de bosta. “O ódio que tenho é, a vontade que é, Napalm neles!”

A arte da capa é um show a parte, com traços firmes e cores bem distribuídas, mostra um cenário não muito distante, que intercala a cidade cinza e o cemitério sombrio, e em covas abertas…. Jovens mortos. O artista chama-se Guilherme Bridon (Pogo Zero Zero), e aquele “tcham” maroto da arte final ficou por conta do Luiz Angelelli, da banda Imminentchaos.

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A arte fotográfica ficou por conta do mestre dos clicks Apolo Sales, que registrou as imagens durante um show da banda em 17/05/2014, no “Palco Test”, gig realizada no centro de São Paulo, em uma região conhecida como Cracolândia.

A tradução ficou por conta da querida Vanessa Joda, que há anos contribui com o cenário e as bandas do underground. A gravação foi realizada em maio de 2014 no Estúdio Hardcaos, pelo Fábio, que alem de baixista da banda é produtor e grande parceiro de muitas bandas do cenário independente nacional. A mixagem e masterização do disco foi realizada entre Maio e Junho de 2014 no Mr. Som Estúdio, por Heros Trench, guitarrista da banda Korzus.

Resumindo esse disco alem de oferecer uma excelente qualidade musical, foi todo produzido por uma família que acredita no underground e no hardcore, e isso transparece a cada música, cada acorde, cada riff, cada beat, cada detalhe. Um disco que é fruto de trabalho ardo, com muita consistência e potencial.

Lary Durante, autora da resenha, é baterista da banda Ratas Rabiosas e colaboradora da Hi Hat Magazine.

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Sobre o autor

Lary Durante

Formada em Comunicação e Marketing pela Universidade Cidade de São Paulo, além de baterista da banda de punk Ratas Rabiosas. Também é colaboradora da revista eletrônica Hi Hat Girls Magazine.

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