terça-feira, 11 de fevereiro de 2020
Nada Pop

O penúltimo suspiro do rock machista – Resenha do festival “Minha droga é o roque”

O rock sempre foi marcado pela subversão, mas de uns tempos pra cá tem sido marcado também pelo conservadorismo de muitos fãs e artistas famosos do gênero. Homens brancos, machistas, homofóbicos, racistas e fãs de um certo político aí insistem em repetir que o rock é maior e melhor que outros gêneros e se incomodam com a presença feminina e LGBTQI+ na cena. Por isso, a parceria entre Howlin’ Records, Efusiva e Oxenti Records organizou um festival com 8 bandas por duas cidades durante três dias com o objetivo de matar o rock.

O festival seguiu uma ordem, começando no dia 1º de fevereiro no Rio de Janeiro, com a noite do “Deixa o rock morrer”, e a segunda noite foi no Presidenta Bar, na Rua Augusta, em São Paulo, dia 7. Com a presença de Trash No Star, Letty e La Burca, a noite foi um aquecimento para o assassinato do rock, que aconteceria no sábado (8), na Cecília Cultural, também em São Paulo.

Os shows começaram por volta das 20h30, depois da discotecagem da Rita, e foi uma sequência de QUE MULHER! QUE MULHER! QUE MULHER!

Trash no Star – Foto: Letícia Pataquine

A primeira banda da noite foi a Trash No Star, comandada pela minha xará e parceira de Nada Pop, Letícia Lety. Pode parecer suspeito eu falar que a minha colega de trabalho é incrível no palco, mas não tem nada de puxa-saquismo nessa informação, a Trash é entrega total, tanto que a corda da guitarra da Lety quebrou e ela precisou da ajuda de uma terceira Letícia que estava ali, a Letty – o mundo será dominado pelas Letícias, aceitem.

Trash encerrou o show com muitos pedidos de bis e sem tocar “how are you” – uma afronta, mas a gente perdoa porque o tempo era curto e o show tinha valido muito a pena.

Depois veio a La Burca. Em sua nova formação, a dupla agora é um trio com a entrada do guitarrista Deniel Guedes, chamado carinhosamente de Bela Lugosi. A banda é comandada pela frontwoman Amanda Rocha, que hipnotiza o público e nos leva a uma viagem de volta aos anos 80 na atmosfera do pós-punk.

La Burca – Foto: Letícia Pataquine

A La Burca apresentou várias músicas novas, incluindo uma que leva o nome da turnê: “Desaforo”. Amanda explicou que o motivo da turnê atual ter esse nome é o fato que é um desaforo a gente ter que pensar em que roupa usar, em que calçada andar e outras preocupações que as mulheres não deveriam ter, se não fosse essa sociedade patriarcal e ressaltou que é preciso mesmo matar o rock retrógrado, aproveitando o momento para chamar a Letty no palco para tocar bateria e dividir o vocal interpretando “Dancing Barefoot”, da Patti Smith.
O show da La Burca ganhou meu coração e o merch também, já que a Amanda pinta as camisetas à mão. Fica a dica pra você que curte a cena underground: compre o merch das bandas que você curte. Ajuda muito!

Por fim, já perto das 23h30, ela que participou dos dois primeiros shows, emprestando guitarra, cantando e gritando pelas amigas, sobe ao palco: Letty, uma das minhas cantoras brasileiras preferidas do último ano. Em um show enérgico, Letty tirou a camisa, tocou Madonna e Billie Eilish, gritou “Golpista” e aproveitou para reiterar o objetivo do evento: a necessidade de colocarmos fim no rock machista, falando até em colocar fogo em um certo cara famoso entre a moçada, se é que vocês me entendem.

Letty – Foto: Letícia Pataquine

A celebração de morte do “roque” terminou no sábado, mas agora fica a nossa vontade para que mais festivais organizados e protagonizados por mulheres aconteçam, para que o gênero renasça mais feminista e forte do que nunca.

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Sobre o autor

Letícia Pataquine

Formada em Letras pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é colaboradora do Nada Pop com pautas, principalmente, envolvendo mulheres com banda. É natural de Guarulhos, Região Metropolitana de São Paulo.