segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Nada Pop

Lendas do Underground: Kaneda, do Asfixia Social, e sua arma chamada microfone

Talento, foco e uma vontade inabalável. Armado de seu microfone, o entrevistado da vez quebra barreiras e trilha seu caminho ao olimpo das lendas do underground. Sem medo dos desafios e sempre atento às oportunidades, Kaneda, vocalista da banda Asfixia Social não se cansa de transformar meras ideias em reais possibilidades, seja ela aprender a tocar um instrumento ou fazer uma até então inédita turnê pela charmosa Cuba, de Fidel.

NADA POP – Existe uma lenda urbana que conta que você já foi jogador de futebol profissional e que chegou a atuar fora do continente. Conte-nos um pouco sobre essa história e sobre o legado que trouxe para sua vida.

KANEDA – Pode crer. O futebol foi o primeiro vício que caminhou comigo, desde criança. Eu cai de cabeça nos campinhos de terra… goleiro, depois zagueiro, lateral, atacante, meia. Depois que joguei a primeira vez, o primeiro carrinho, drible, gol, passei a jogar todo dia até ingressar em times menores e categorias de base. Tudo era futebol, e o legado é a força que traz para afirmar a personalidade, caráter e a vontade de vencer qualquer parada. LUVE/UFV – MG, Ponte Nova – MG, E.C. Santo André – SP, Itália, Líbia, Alemanha.

Conheci culturas, lugares, passei por uma dezena de times, bons momentos e frustrações, e por dilemas pessoais, geográficos e outros que nem poderia explicar. Conheci a música punk e o rap no meio disso tudo, há uma década, e acho que rachou minha cabeça em determinado momento. O Asfixia Social era uma parada necessária para o meu espírito, que começamos há 8 anos, e me orgulho de ter levado adiante esse segundo vício. Eu nem sei até que ponto posso dizer que foi uma opção minha, em que ponto eu me dividi entre futebol e música, mas o legado se tornou também o Asfixia Social.

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Asfixia Social – Crédito: divulgação

NADA POP – Futebol, vocal, trompete, trombone, produção, cinema… Qual será o próximo alvo do Kaneda?

KANEDA – Não sei, rs. Tem tanta coisa que precisamos fazer… se houver uma brecha, faremos! O alvo são as brechas.

NADA POP – Aproveitando que tocamos no assunto, como foi que os instrumentos de sopro chegaram até você? Foi uma necessidade percebida no som do Asfixia Social ou uma vontade pessoal? É verdade que você é autodidata?

KANEDA – Eu ouvia muito rap, punk, reggae, ska, e além de escrever, queria tocar um instrumento que pudesse transitar e transformar esses estilos. Queria fazer algo diferente. Em 2007, numa loja de música na Líbia, tinha um trompete empoeirado lá. Comprei e comecei a assoprar até aprender alguma coisa, ouvindo um som, olhando em livros e na internet. Formamos na sequência o Asfixia Social, e eu praticamente tocava as nossas músicas. Não sabia ler partitura, aulas eram caras, eu não tinha tempo, nem muitas opções. Foi o caminho que se apresentou pra mim e eu segui adiante desse jeito.

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Festival LADO PUNK ABC – Mais informações sobre o evento no final da entrevista

NADA POP – É do conhecimento de todos(?) que a mídia manipula a população através da informação selecionada e tendenciosa, e tem sido fundamental para a manutenção e agravamento da crise econômica e política do país. Você acredita que se trate apenas de uma disputa partidária pelo poder ou existe algo ainda maior sendo tramado nos bastidores dessa crise?

KANEDA – Falando de crise econômica, há uma dívida pública no Brasil (contraída junto a bancos e que nós não temos acesso, apesar de “pública”) que consome MAIS da metade do PIB. É um mega esquema de corrupção que paga juros e nunca a dívida, aos bancos… é onde a Grécia se afundou, e é o modo dos maiores bancos do mundo controlarem as economias de centenas de federações. Bancos privados, e não públicos. Esse é um tema que devemos tornar cada vez mais conhecido e pressionar pra que o governo abra as contas e escancare a fraude.

Não há motivo, no Brasil, uma das maiores economias do mundo, pra tamanha falta de investimentos no setor público, enquanto bancos batem recordes de lucro. São eles, os bancos dos bancos, os responsáveis por esse rombo, que de maneira genérica atrela-se à chamada “corrupção”. Ela tem nomes e causas muito específicas. Enfim, a mídia está a favor dos seus próprios interesses, e de seus próprios próximos candidatos, e isso não é novidade na América Latina. Além da disputa partidária, existe uma disputa ideológica, em que fundamentalistas e fascistas estão se articulando no Brasil de maneira muito sistemática e perigosa, há alguns anos, junto a corporações, políticos, igrejas, e meios de comunicação, que jogam de acordo com os partidos que melhor atendem aos seus interesses.

Já que estamos falando da atual crise política, é só fazer uma leitura rápida do quanto a estatal Petrobrás é disputada no âmbito político, por exemplo, do quanto a Polícia Federal é usada pra fazer política, e favorece quem mais tem poder de influência e articulação. Ao mesmo tempo, de um lado, leis que colocam em cheque nossas liberdades, de outro lado grupos dispostos a reprimir ainda mais os movimentos sociais, e no meio, as pessoas e suas liberdades. Quem preza essa liberdade precisa estar atento, organizado, e principalmente imune a vaidade dos próprios movimentos de esquerda pra continuarmos essa discussão sem retroceder. Apenas vamos suceder essa missão, minimamente, se estivemos organizados, pautados em ações estratégicas e que, de maneira consistente possamos utilizar a legislação e os direitos civis como eixo.

NADA POP – O Asfixia Social fez uma turnê em Cuba no ano passado, sendo inclusive a primeira banda brasileira a fazê-lo. Como surgiu esse projeto e quais foram os principais empecilhos enfrentados para realizar essa jornada pela ilha?

KANEDA – Em 2014, eu e o Alonso (baterista) fomos à Cuba junto ao grupo de teatro XPTO, de São Paulo. Nos apresentamos em diversas cidades ao representar o Brasil no Conselho Internacional de Teatro de Bonecos, que reuniu mais de 80 países. Nisso, conhecemos também pessoas e grupos ligados à música independente, tocamos com grupos de lá, participei de rodas de improviso e me juntei num show pra milhares de pessoas com uma banda de salsa. Dessa parada toda, deixamos nosso material com muita gente, fizemos muita gente ouvir nosso som e nossas idéias… rs. A galera lá não tem internet, mas compartilha a música que curte na praça por bluetooth, passando de celular em celular… o Asfixia Social caiu nessa lista aí, e mantivemos contato com os grupos de punk, hardcore e rap que conhecemos.

Em 2015, surgiu a oportunidade de voltarmos, pra shows organizados pela Associação Hermano Saiz, Associação Rock Solidário, e pelas bandas Arrabio e Eztafilokoko, entre outras. Foram 10 shows, nas cidades de Havana, Artemisa, Santa Clara, Trinidad, Sancti Spiritus, Jagüey Grande, Jatibonico e La Lisa. Foi uma tour insana e completamente do it yourself, tocamos pra nata da música cubana, pros gringos e pro gueto, desde lugares mundialmente conhecidos e bem estruturados como a Fábrica de Arte Cubano, a centros culturais, praças, cinema abandonado e locais improvisados.

Passamos bem em alguns lugares, do camarim ao local de dormir, mas pra responder aos empecílios, vou falar dos perrengues, desde o aeroporto, quando a guitarra só apareceu quando fomos atrás, a condução, o busão, as caminhadas quilométricas à noite e debaixo de sol com equipamento nas costas, dormimos esmagados no chão, dormimos de pé no busão, escassez de banho, rodamos milhares de quilômetros, viajamos em caminhão de gado, caminhão de terra, emagrecemos pra caralho, tretamos com uns “punks”, perdemos um dos shows porque foi impossível chegar, no fim do rolê com a grana contada, a gente segurou a onda na fome mesmo alguns dias, na casa de produtor que também passa perrengue, aquele “pão que se divide nos une”, e os bons momentos, shows, bons lugares e amizades superam tudo isso, definitivamente. Quem estiver afim, tá aí o DVD Cuba Punk – Asfixia Social.

NADA POP – Você é conhecido por sua inquietude e dedicação ao underground nos mais diversos projetos, seja tocando, participando de projetos de outros artistas, organizando eventos ou até mesmo à frente de um hostel. De onde vem tanta energia? Como tem sido a recepção do público à Kombi da rua pra rua? Vi que vocês tem conseguido importantes apoios.

KANEDA – Acho que isso tudo surge das necessidades, do tamanho dessas necessidades, e de como podemos enfrentá-las. Tem quem tá fodido, tem quem tá só esperando, tem quem tá afim de fazer, e tem quem faz e assume a responsa. A gente tá sempre revendo essas necessidades e faz o corre com coração e dedicação, seja em projetos nossos, em projetos dos parceiros, em projetos das nossas comunidades, em eventos ou na vida pessoal.

O hostel foi uma maneira de pagar minhas contas por um bom tempo, além de receber gente do mundo inteiro, entre turistas, bandas e até refugiados. A Kombi foi a nossa solução quando o contratante passou a pagar mais o dono da van do que nosso próprio cachê. A gente pode se deslocar até o público, chegar mais fácil ao local de show, tocar no meio da rua, no dia que quiser, a hora que quiser, e ter nosso sustento na estrada, cara a cara com o público. Essa transparência e honestidade é recíproca e a vida tem retribuído com amizade e verdade. Tem muita gente que acompanha, admira, fortalece nosso trabalho. Só temos a agradecer, é um apoio muito real. A gente pode chegar, trocar ideia, mostrar nosso trampo, abrir espaço pra quem quiser colar… estacionaremos onde der, e principalmente, o jogo com o público é aberto. Somos uma banda independente e que conta com cada mano e mina que resiste com a gente. Não há intermediário, só essa ligação e esse apoio mútuo. Ou é ou não é.

NADA POP – Outra de suas investidas é o cinema. Ainda em 2015 foi lançado ‘O sepulcro do gato preto’, uma produção Oloeaê filmes, que toca em uma ferida aberta na zona norte da cidade de São Paulo e que, não contente com sua contribuição social e histórica, ainda venceu prêmios em festivais de cinema pelo país. Conte-nos um pouco sobre o processo de produção do filme e sobre a sensação de vê-lo recebendo esse reconhecimento.

KANEDA – O Asfixia Social tocou em Perus, em 2012, e fizemos umas fotos da banda numa fábrica abandonada. Descobrimos depois ser a primeira Fábrica de cimento do país, e por curiosidade começamos a ir à fundo na história. Além da luta dos trabalhadores, o descaso das autoridades com pessoas, meio ambiente e patrimônios no Brasil, a especulação imobiliária e outros episódios cabulosos foram se somando. Minha vontade de fazer cinema surgiu justamente dessas histórias reais que o Asfixia Social conheceu na estrada. Compartilhei o lance de Perus com o amigo e também diretor Frederico Moreira, e escrevemos o roteiro do filme. Conseguimos o apoio do Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo, e tudo isso se intensificou no ano de 2014, enquanto rodávamos o filme em 3 pessoas.

É uma história tão sinistra que não coube nem um terço nos 52 minutos de filme, mas que a gente fica contente de minimamente poder divulgar e ainda mais por tomar uma dimensão ao estar em festivais no Brasil e no exterior. O filme venceu 3 importantes festivais de cinema de São Paulo e Minas Gerais, e daí pra frente foi pra outros estados e países. Esse ano, até o momento, está em Festivais de Cinema da Venezuela, Uruguai e México, mas infelizmente a televisão por aqui nunca abriu espaço. Aliás, recentemente uma forte enchente atingiu a região norte de São Paulo e o bairro de Gato Preto e vários dos entrevistados sofreram bastante com isso. A causa dessa história de aterramentos e áreas de risco praticamente criadas por mineradoras e o descaso do poder público, eles contam detalhadamente no documentário.

Nossa sensação também é de desgosto e impunidade, num país em que pra ficar imune às lei é só comprar meia dúzia de figuras e patrocinar os jornais. Quem estiver afim, segue o link: https://goo.gl/oDaNWQ

NADA POP – O Asfixia Social parece ser uma banda sem limites, onde qualquer sonoridade é absorvida e encontra seu lugar ou uma nova forma. De onde vem essa capacidade da banda? O quanto as turnês e as parcerias contribuem para isso?

KANEDA – Cara, sei lá… Obrigado! Acho que a gente tem a cabeça aberta, cada um ouve seu som, ouve o do outro também, gosta de conhecer coisa nova, cada hora tá ouvindo e tocando algo diferente, mas principalmente a gente não se restringe a estereotipar a música e seu espaço. Acho que é por aí, e é bem natural… sempre que a gente compõe, a continuação das canções pedem um caminho que nos leva a essa gama de influências, e a gente sente essa energia da própria música. Quanto mais a gente toca, mais gente conhece, mais lugares a gente vai, mais a gente involuntariamente absorve. É também uma forma da gente se satisfazer com nosso som, tocar o que faz sentido, cantar o que vive, e canalizar nossa mensagem da nossa maneira.

NADA POP – A banda acabou de lançar o DVD oficial ‘Cuba punk’, que pode ser adquirido em um pacote especial que inclui um vinil 12” do álbum ‘Da rua pra rua’ (pedidos pelo asfixiasocial@asfixiasocial.com.br, com assunto VINIL / DVD). Quais os próximos planos da banda?

KANEDA – Definitivamente lançar nosso terceiro álbum, “SISTEMA DE SOMA”, em diversos formatos. O DVD do “Cuba Punk” e o Vinil do “Da Rua pra Rua” já estão à venda (via asfixiasocial@asfixiasocial.com.br), mas em breve estão chegando vários tipos de merch, camisetas, moletons, bonés e disco novo numa lojinha no site oficial www.asfixiasocial.com.br… É um dos trabalhos mais loucos que já fizemos! Estamos trampando nesse disco há 3 anos, e com a ajuda do amigo e produtor Marcelo Sampaio, a coisa tá ficando especial…

NADA POP – Kaneda, muito obrigado pela conversa e parabéns em nome de todos do Nada Pop por toda a luta e dedicação ao underground. Este espaço costuma ser disponibilizado para o entrevistado ficar à vontade e dizer o que quiser. Sabendo o calibre da metralhadora vocal com que estamos lidando, lanço o desafio: surpreenda-nos!!

KANEDA – Eu que agradeço pelo espaço e consideração! Máximo respeito ao Nada Pop. “Cês deram a letra, segura o refrão”: “Nóis tem a voz e vós tem a Nóis”, né não? Pois, “conosco caminham caminhos, caminham amigos, em caminhos circulares que encaminham um só forte caminhar”. E se estamos nessa é porque “não há justificativa pra tamanha injustiça, e nunca passará de mera desculpa. Então FODA-SE a desculpa, que aqui é sem perdão”! Nada Pop, Asfixia Social, conexão com todos que colam com nóis, é sem intermédio, JUNTOS SOMOS RESISTÊNCIA! Tamo juntão!

SERVIÇO

Festival LADO PUNK ABC

Quando: 26 de junho de 2016
Local: Av. Cesar Magnani, 851 – São Bernardo do Campo (SP)
Horário: a partir das 13h
Entrada: Primeiro lote mais barato – Clique AQUI e adquira o seu ingresso
Pacotes para grupos e excursões (acima de 10 ingressos) à venda diretamente via inbox pela página oficial www.facebook.com/ladopunkabc

Bandas confirmadas: Cólera, Olho Seco, Asfixia Social (participação de AXL Rude Skamoondongos), Mollotov Attack (participação de Ariel Invasores de Cérebros), O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, DZK, Lokaut, Esquizofrenia, Sistema Sangria e Histeria Coletiva.

Outras informações acesse a página do evento no Facebook: https://goo.gl/JNkSpu

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Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

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