domingo, 18 de agosto de 2019
Nada Pop

{exclusivo} Fui internado no hospital e usei drogas ouvindo “Biggest Thing”, da banda Lo-Fi

Lo Fi – Foto: Guilherme Calissi

A enfermeira procurando por veias em meus braços e eu suando calado tentando disfarçar minha angústia, que coisa horrível sentir uma agulha entrando em seu corpo e ela, lá dentro de você, procurando por uma veia e você sentindo aquele metal quase tão fino quanto um fio de cabelo correndo por um pequeno espaço há procura de sangue… O sangue jorrou no chão e sujou a cama de vermelho. Tudo escureceu e eu me senti um pouco zonzo e com falta de ar.

A falta de ar já estava sentindo antes, pneumonia nos dois pulmões, era internar ou esperar morrer em casa, tossindo como se fosse um cachorro engasgando com o próprio rabo. Nessas horas você percebe o quanto a vida não vale nada e que tudo, uma hora ou outra, irá se transformar em pó. Não sei ao certo como conversei com o Thiago Roxo, só sei que ele me pediu para ouvir o novo single da Lo-Fi e que gostaria de uma opinião. Ele me mandou o áudio e eu soube que aquela música seria a trilha sonora para os dias que iriam se seguir. Pior do que enlouquecer é se sentir enlouquecendo consciente disso. Ele sabia que eu estava internado e perguntou se mesmo assim queria ouvir, lógico que sim.

Sobre “Biggest Thing”

Biggest Thing começa lenta e você sente a tensão no ar, é como se estivesse frente a frente com o meu pior inimigo e ambos estivessem prontos para dar um fim naquela treta. O silêncio no ambiente e olhos nos olhos dá a tônica do que está por vir. Só uma pessoa conhecerá a vitória. Deixei a música no modo repeat e cochilei, cochilei por longos minutos viajando na sonoridade e me imaginando naquele filme “Meu ódio será sua herança”, minha última missão seria sobreviver. Já parou pra pensar como é louco se matar para viver?

A guitarra do Thiago é desesperante, ela grita no meu ouvido. Aquele teclado lembrando The Doors é como se estivesse dentro da cabeça do próprio Jim Morrison… Claritromicina na minha veia me fazendo delirar, queimando meu corpo e tornando tudo ao meu redor disforme. Biggest Thing não era agora mais uma música, era o próprio soro entrando na minha pele, atacando meu fôlego e me deixando em estupor.

Quem é Lo-Fi e que porra é essa de rock regressivo?

Rogério, baixista da Lo-Fi, explica que são uma banda de rock e que atualmente se rotula como rock regressivo. Diz que vivem no underground, pois seu local de trabalho é literalmente embaixo da terra. O trio é natural de São José dos Campos, interior de São Paulo, que vem espalhando seu trabalho pelo mundo e que, segundo os próprios caras, possuem um comportamento artístico mais intenso do que social.

São 11 trabalhos (álbuns) e os caras estão partindo para o 12° disco. Isso é impressionante, mas afinal, que porra é essa de rock regressivo? “Vou tentar explicar”, começa o Rogério com aquele jeito de alguém que tem algo profundamente profundo para falar. “Definição muda a cada semana. Banda de origem punk, sem virtuosismo nenhum, que é fã de rock progressivo desconhecido, mas toca igual suas primeiras influencias de bandas americanas de jam band, improvisação sem limites e extensão de musicas ao extremo. E mais, respeito máximo as nossas influências e músicos que ouvimos”, explicou. Achei bonito, mas agora é hora da inalação.

Gotas de berotec, taquicardia e quase convulsão

Cerca de 20 minutos depois termino a minha inalação com berotec. Aquilo faz um efeito no pulmão que dá certo alívio, sinto que posso respirar mais uma vez normalmente. Mas tudo o que é bom possui um preço, logo as tremedeiras na mão começam e me sinto sem controle nenhum sobre o meu corpo. Biggest Thing continua tocando ao fundo, o modo repeat ficou ligado, mas esse não é o primeiro single da Lo-Fi neste ano.

Antes de Biggest Thing, a banda lançou Trouble/Magic Boy pelos selos Abraxas Records, Karasu Killer e Laja. Mozine parece estar em todos os lugares do mundo, velho esperto da porra!

Acho que estou convulsionando, as tremedeiras aumentam e não consigo alcançar a campainha para chamar ajuda. Estou sozinho no quarto pensando que morrer será como estar em turbulência com o próprio corpo. É mais ou menos assim que Trouble/ Magic Boy soam, não saberia explicar de outra forma sem parecer um professor daqueles de filosofia tentando falar sobre Nietzsche.

Sinto meu coração acelerar, parece querer saltar do peito e minha vida não passa de um mero espasmo no universo. Longos minutos entre a vida e a morte, longos minutos entre luz e escuridão. Estaria ouvindo Lo-Fi como última canção… Mas voltei, aos poucos fui assumindo o controle, só ficou a boca seca como resquício do fim.

“Meddling in Regressive Rock” é o último álbum da Lo-Fi, lançado em 2017. Nele você tinha uma combinação de sonoridades, muito cru e com batidas duras e rápidas. Foi com esse trabalho que nasceu a história do “rock regressivo”.

Até que enfim algum respiro; a vida como sinônimo de enfrentamento ao caos

Não durmo direito por diversas noites seguidas. Estou há uma semana internado, buscando não enlouquecer. Minhas veias foram todas para o saco, o antibiótico é ácido e corroeu tudo por dentro. Tentei fugir do hospital… Acabei voltando por medo de acabar morrendo na rua. Fui até a lanchonete no térreo e comprei um salgado qualquer com queijo. Meu estômago sorriu e eu senti que nada vale mais nessa vida do que um homem e seu direito de morrer em paz… Voltei a ouvir Biggest Thing. Não sei por que, mas resolvi escrever sobre tudo isso para registrar que quase morri, mas ouvindo um bom som.

Thiago Roxo diz que Biggest Thing tem um efeito de eco na guitarra que martela na música inteira, lá nas profundezas, contrabaixo denso, bateria ditando o ritmo sem pressa e Dinho Zampier com um bom gosto desgraçado nos teclados. “Não é a toa que tem 10 minutos, e não podia ser menos”. Concordo.

Lo-Fi é uma banda que completou 10 anos em 2018. Não me lembro de ter ouvido qualquer som deles que não tenha despertado algum sentimento dentro de mim. Confusão, excitação, sentimento de força, alucinação, entre outras coisas assim. É sempre tudo muito intenso, visceral, um som feito para quem não vive nessa miséria de mundo cabisbaixo, que diz um grande foda-se pela manhã e não busca por fama ou glória… Tá, talvez algum dinheiro e prazer, mas sem que seja necessário vender a sua alma para isso.

Fui um dos primeiros a ouvir esse som novo e acredito que tive certo privilégio. O caos ainda continua por aqui, mas pelo menos com a fúria de um som incandescente capaz de me revigorar o corpo. Isso pode não fazer qualquer sentido pra você, mas quer saber, não tô nem aí. Ouça, de preferência longe de um hospital.

Onde achar a Lo-Fi

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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