quarta-feira, 22 de maio de 2019
Nada Pop

Entrevista Flicts – Especial Punktoberfest 2014

E o Flicts chega para encerrar o Especial Punktoberfest 2014 que o Nada Pop promoveu durante essa semana. Foram cinco dias de entrevistas com as bandas Desacato Civil, Perturba, Lomba Raivosa!, Mukeka di Rato e agora o Flicts. Confira a entrevista com os irmãos Arthur e Rafael (guitarra/vocal e o batera, respectivamente).

NADA POP – O que significa o anarquismo para vocês e como vocês o vivem no dia a dia? Além disso, o que significa ter uma banda punk?

RAFAEL: Para mim, anarquismo significa, antes de tudo, o exercício, obviamente livre, da autenticidade individual. Assim, a coletividade livre seria uma associação de indivíduos autênticos e, antes de qualquer coisa, diferentes entre si. Indivíduos autênticos, leais apenas a si mesmos, relacionando-se de modo autêntico com outros indivíduos autênticos. Tenho me aproximado bastante da vertente anarcoindividualista de Max Stirner. Todas as correntes anarquistas são, a meu ver, pouco compreendidas na medida em que, mesmo entre os que se definem como anarquistas, há pouco estudo, reflexão e debate. E dentre essa correntes, ainda menos compreendida é a anarcoindividualista, equivocadamente identificada com o egoísmo ou individualismo burguês. Recomendo a todos a leitura de “O Único e sua Propriedade”, de Stirner.

NADA POP – Vocês têm uma forte ligação com futebol, o que vocês acham dessa nova “onda” de estádios modernizados (o chamado “padrão Fifa”)? Concordam com a afirmação de que o futebol foi “elitizado”?

RAFAEL: A elitização do futebol fez com que eu me afastasse dele. Não me interessa mais como esporte nem como espetáculo.

ARTHUR: Não sei dizer se o futebol está de fato elitizado sob a ótica do torcedor. O que vimos na Copa do Mundo já passou. Como trabalho com jornalismo esportivo, tenho visitado, há alguns anos, muitos estádios do país e não sei se essa análise de que “só rico hoje vai ao estádio” se aproxima de fato da realidade.

O que vemos nas capitais que contam com esses estádios “padrão Fifa” não representa necessariamente a realidade do país, já que temos Série B, Série C, Série D e as Ligas de Futebol de Várzea. Na América Latina, a mesma coisa. E mesmo nos estádios modernizados, não vejo necessariamente essa elitização. Precisaria fazer uma análise melhor sobre esse assunto, baseada em fatos. Não vou ficar aqui cuspindo “achismos”.

NADA POP – Como vocês observam a cena independente atual, o que acreditam que existe de errado e o que melhorou ao longo dos anos? Existem ainda muitos “senhores da cena” na avaliação de vocês?

RAFAEL: A cena independente musical transcende a cena punk. De qualquer forma, acredito que a cena independente está bastante enfraquecida, se pensarmos em independência em relação à lógica do capitalismo. O que chamamos de independência nada mais é do que uma cena que se faz separada da grande indústria cultural, mas que, quase sempre, carrega o mesmo padrão de funcionamento dela, apenas em menor escala. A pergunta é: seria possível construir uma outra dinâmica de funcionamento, que tornaria a cena independente efetivamente independente e, ao mesmo tempo, ampla? Sinceramente, ainda não sei responder categoricamente, mas tendo a achar que não. Por fim, tratando da cena musical punk especificamente, vejo nela uma profunda retração, com poucas bandas, poucos lugares para tocar e sem renovação do público. Sem contar a falta de politização efetiva do público e mesmo das bandas. É muito ganguismo e cultura de gueto e pouca cultura e organização política efetiva.

ARTHUR: De qualquer forma, mesmo com todos os problemas, precisamos valorizar a atitude dos que ainda produzem discos, livros e arte de qualquer natureza. Quem está realmente a fim de fazer, vai lá e faz. Não fica reclamando da vida, nem colocando a culpa nos outros.

NADA POP – Quais são as principais atitudes fascistas disfarçadas de “opiniões democráticas” que vocês mais ouvem por aí? E outra coisa, qual a opinião da banda sobre pessoas que se dizem “apolítica”?

RAFAEL: Não existe uma opinião da banda sobre isso. Apenas opiniões pessoais. A minha é a de que não existe posição apolítica de fato. Declarar-se apolítico é adotar uma determinada posição em relação e em meio às relações de poder. Ou seja, também é uma posição política. Acredito que quando alguém, de maneira sincera, se define como apolítico, regra geral, quer afirmar-se como alguém que não participa da política partidária, institucional e ou não se envolve com as ideologias mais conhecidas: liberalismo, nazi-fascismo, marxismo ou anarquismo. No entanto, na prática em meio à cena alternativa, sobretudo punk, quando alguém se afirma apolítico, tendencialmente, esse alguém adota posturas de direita (extrema ou moderada), conscientemente ou não. Em relação às posturas fascistas disfarçadas de democracia, acredito que a mais evidente tem sido a do “combate à corrupção”, que de fato se constitui em postura conservadora e reacionária, contrária à ampliação das liberdades de fato e de certa diminuição da desigualdade econômica.

ARTHUR: Tenho ouvido muito por aí também a tal “defesa da família” que, na verdade, acoberta um discurso totalmente preconceituoso e homofóbico.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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