segunda-feira, 20 de maio de 2019
Nada Pop

Entrevista com a banda Carne Moída

“Vocês não podem virar carne moída!” – bradava Falcão, ex-vocal da banda Excomungados, durante o festival “A um passo do fim do mundo”, sem saber que influenciaria ali o batismo de uma das bandas mais longevas da cena atual, a Carne Moída.

Formada no final do ano 2000 no bairro do Jardim Arpoador, periferia de São Paulo, a banda tem em seu currículo vários registros, como a demo “Pedras contra tanques” (2002), a participação na coletânea “Pragas dos arrabaldes” (2004), na “A inveja é uma merda” (2008) além de outras coletâneas.

O Nada Pop conversou com Eduardo (vocal), Waldemar (baixo) e Shina (guitarra), que ao lado de Fabiano (bateria) formam o line up atual da banda, falando de assuntos polêmicos e atuais e de algumas experiências pelas quais passaram nesses mais de 14 anos de punk rock e atitude.

Se prepare para doses enormes de sinceridade, consciência e imparcialidade. Aperte o play e como diz Waldemar: “Vamos moer a carne!”.

Entrevista Carne Moída

NADA POP – Em primeiro lugar, muito obrigado por nos atender. Para começar gostaria de saber quais as principais influências da banda e o que os integrantes tem ouvido ultimamente?

Eduardo – Gosto de muita coisa, gosto de música que faz bater os pés ou batucar com as mãos. Se a música não me causa essa reação eu não ouço até o final. Cresci ouvindo Ramones, AC/DC, Deep Purple, Rose Tattoo, Sex Pistols, Angel City (atualmente a banda se chama Angel). Na adolescência ouvia muito Thrash Metal do mais agressivo possível, hoje ainda ouço tudo do Slayer. O Nirvana é uma banda que eu gosto muito, a atitude do Kurt e do Cris Novoselic no palco eram demais, era tudo o que eu sempre quis fazer no palco. Ouço muito Ska e tenho preferência pelo tradicional, bandas como The Specials, The Slackers, Blue Killa, entre outros do gênero. Bandas mais atuais eu gosto demais, do Rancid… Puts, ouço muita coisa, inclusive chorinho do Altamiro Carrilho, Dilermando Reis e Jacó do Bandolim… Ainda tem as caipiras… (hehehehehehhe)

Waldemar – O Carne Moída tem influência do punk nacional dos anos 80, além do hardcore inglês (Varukers, Exploited, Discharge, GBH). Eu tenho ouvido Dead Kennedys, Ramones, Motorhead, Nirvana, Black Sabbath, de nacional Crackers do Blues e Mollotov Attack!!

Shina – Eu tenho muita influência pra tocar de punk rock argentino:  Flema, Attaque 77, Superuva, Doble Fuerza, Eterna Inocencia, Dos Minutos, Expulsados, Tukera… Essas são bandas que estou sempre escutando. Outras bandas que tenho escutado são os clássicos: RDP, Flicts, Pennywise, Bad Religion e muitas outras.

NADA POP – As apresentações da banda sempre chamaram a atenção pela excelente qualidade do som e pelo impacto visual (os aventais e as maluquices do vocalista Eduardo). De onde surgem essas ideias e a preocupação com a qualidade do som, muitas vezes deixada em segundo plano pelas bandas punk?

Eduardo – As palhaçadas no palco, tipo entrar de bicicleta, de fralda… Isso é coisa minha e que normalmente o pessoal da banda é sempre pego de surpresa e acabam rindo muito. Quando é a banda inteira que adere a algum traje, normalmente um tem a ideia e o resto concorda, mas sempre no coletivo.

Waldemar – Obrigado pela excelente qualidade de som, acho que o respeito pelo público em primeiro lugar, tocar sóbrio também ajuda as maluquices do Edu vem de sempre, conheço ele desde pequeno e sempre foi assim maluco, deve ter caído do berço, as ideias surgem da cabeça dele, particularmente me preocupo mais com o som da banda que deve sempre estar redondo. Os aventais foi ideia do Luiz Fabiano, para parecermos açougueiros malucos.

Shina – Sou suspeito, pois na outra banda que toco o vocalista também causa no palco, já fomos expulsos duas vezes do Hangar (hahaha).

Eduardo – Na verdade a banda estava parada, eu havia saído em 2012 e com isso o Mauro montou outra banda no estilo que ele gosta. Por coincidência em 2013, o Waldemar, o Fabiano e eu acabamos tendo a mesma ideia de voltar com o Carne Moída. O Jão (Marcelo Shina) já tocava no Racha Cuca há muito tempo e pela amizade com todos do Racha, acabamos “pegando emprestado” o Jão que está conosco até hoje. Espero não ter que devolve-lo tão cedo (hahahaha). O impacto sonoro na banda é nítido, desde a distorção até a palhetada, são estilos diferentes e a proposta do Carne Moída agora é fazer um som mais pesado e agressivo, sem muito nhê-nhê-nhê.

O vocalista Eduardo com o seu tradicional avental

NADA POP – Em 2013 o ex-guitarrista Mauro deixou a banda, entrando em seu lugar o Marcelo Shina. Qual o impacto dessa mudança de formação na sonoridade do Carne Moída, uma vez que a banda parecia refletir muito da personalidade musical do guitarrista em suas composições?

Waldemar – As músicas do Carne Moída são em sua maioria da formação antiga da banda, com o Sergio na guitarra, com a entrada do Mauro as novas composições tiveram mais influência dele com pegada mais rock’n’roll, com sua saída o Marcelo tem uma pegada mais “ramonica”, as músicas ficaram mais retas e pesadas cada um teve sua importância para a banda no momento em que tocaram, mas de um modo geral o som não mudou muito.

Shina – Porra, quase dois anos já! (hahaha) O Mauro é bem mais técnico que eu! Venho de uma escola de 3 acordes e uma cerveja (toco no Racha Cuca também) então não tenho facilidade com solos, mas assim que entrei já peguei as músicas e tirei do jeito que sei tocar. Acho que com o tempo vamos aprendendo cada vez mais e incluindo nos sons.

NADA POP – Com todo esse tempo de estrada vocês certamente acompanharam muitos momentos na cena punk rock e underground, e o surgimento de muitas bandas e tendências. Quais as principais diferenças entre a época do surgimento da banda e a cena atual, e a motivação para seguir com a banda, naqueles dias e agora?

Eduardo – No começo do Carne Moída tínhamos muitos shows, era muito lugar bacana para tocar, tinham as brigas de gangues que nos incomodavam muito, mas os shows eram bem cheios. Hoje já não há tanta gangue e também não tem tanta gente nos shows, acredito que seja pelo histórico de violência, muitas vezes gratuita.

Waldemar – Na minha opinião o que mudou foi a qualidade do som que melhorou, melhores instrumentos ajudaram bastante, antes era um zunido ensurdecedor. Nos anos 80 eu gostava mais de ir no Lira Paulistana que ficava na Teodoro Sampaio, onde era mais legal de curtir, as bandas eram bem parecidas na sonoridade e depois de um tempo tiveram suas particularidades, hoje o som está melhor das bandas eu penso com muitas influências musicais.

Shina – Toco desde 2004 e a primeira banda foi com o SxNxOxP, então desde aquele tempo já tava no rock fudido tocando em garagem, buteco de esquina, depois entrei no Racha Cuca. A diferença pra hoje em dia acho que tá nos roles mesmo. Antes juntava meia dúzia de banda e ia pra algum lugar, cada um levando seu equipamento. Hoje em dia não vejo muito mais isso, deve ser culpa da velhice? (hahahaha)

NADA POP – A banda já está trabalhando em composições novas? Se sim, já existe alguma expectativa quanto a data de lançamento? Como está sendo esse processo com a nova formação?

Eduardo – Composições novas?! (hahahahaha) Estamos pensando em revitalizar algumas músicas que tocávamos no início da banda e hoje não tocamos mais. Mas há sim o início da criação de algo novo, porém ainda sem término. Temos material que os amigos têm nos enviado e algo nosso mesmo. Tenho ideias de novos covers também. O lançamento só quando a gente se aposentar… (hahahahaha) Tocar com o Jão é foda, ter mais um amigo na banda é bom demais!

Waldemar – Para falar a verdade estamos devagar com novas músicas, com os integrantes tocando em outras bandas, temos nos reunido pouco, mas com paciência algo novo vai surgir com esta nova formação da banda, pois confio no pessoal para continuar a moer a carne.

Shina – Por enquanto estamos trabalhando nas músicas velhas que ainda não tirei todas, por mais simples que pareça! (hahahaha)

NADA POP – Recentemente tivemos a greve dos metroviários de São Paulo. Eu sei que o Waldemar, baixista da banda é metroviário. Como foi, especialmente pra você, que tem uma banda punk, que convive em um meio anarquista, perceber o posicionamento da população que condenou a greve e apoiou as demissões praticadas pelo governo do estado?

Eduardo – Meu irmão também é metroviário. Preciso dizer mais alguma coisa? Mesmo que não seja necessário, eu vou dizer. Governos e mídias bandidas, queimem no inferno!

Waldemar – Fiquei muito chateado com toda a situação sou antigo de empresa e sei o momento de uma greve de começar e parar, já participei de várias. A greve deste ano era justa até o momento do julgamento dela que foi no domingo, a população sofre com a falta do metrô, mas era maneira permitida de luta, infelizmente lutamos com uma mídia golpista e corrupta que manipulam a verdade para arrebentar sempre com lado mais fraco financeiramente falando, o fato que no final sobrou interesse políticos dos dois lados desvirtuando da campanha salarial.

Shina – Meu total apoio aos metroviários! Quem pega transporte público todo dia sabe que não tá a maravilha que eles querem.

NADA POP – Neste ano teremos eleições, e a batalha pelos votos parece já ter começado no front das redes sociais. Como vocês veem a atual cena política brasileira? Ainda existe uma esquerda ideológica e uma direita conservadora ou apenas discursos oportunistas na busca pelo poder e seus privilégios?

Eduardo – O que vemos hoje é uma política nacional com cunho pouco voltado ao social como diferente das promessas feitas antes das eleições. A roubalheira não é novidade nesse governo, tão pouco a forma como ela é feita e isso me incomoda muito por sempre ter acreditado no discurso de socialismo dos que governam o país. Nunca acreditei na direita e deixei de acreditar na esquerda, apesar que sou totalmente a favor da política voltada ao social. Nessas eleições estou com muita dúvida entre sacrificar meu voto para a situação e assim evitar que um reaça assuma o poder ou continuar votando nulo.

Waldemar – Na verdade o conceito de esquerda e direita não existe mais, o que prevalece é o financeiro, porém neste jogo existem interesses diversos e às vezes temos que optar pelo governo que tem mais atuado na parte social do povo, como moradia, reforma agrária, educação, transporte digno e capitação de renda para os mais pobres. Este governo ainda não apareceu, agora também achar que vamos ter uma sociedade homogênea com todos com o mesmo pensamento é infantil demais, temos que conviver com as diferenças, pois senão seria um novo fascismo.

Shina – Voto nulo… “Eu não voto em ninguém não sustento parasitas; não apoio esse governo que chamam de democracia”.

NADA POP – Temos acompanhado e escalada da violência e o aumento de crimes cada vez mais brutais e de motivações banais, muitas vezes cometidos por adolescentes. Parte da sociedade pede punições mais duras e até a redução da maioridade penal. Vocês acreditam que a solução para o problema passe por tais medidas?

Eduardo – O dia em que todos tiverem educação de qualidade, saúde de qualidade, diversão de qualidade, emprego e salário digno e uma aposentadoria digna no final da vida, aí sim poderemos conversar em redução da maioridade penal. Hoje o Estado não tem o direito de penalizar o adolescente porque não dá nem condições básicas para o jovem. Quem só apanha a vida inteira, uma hora se cansa.

Waldemar – Não acredito e ai que falta o investimento no social, educação principalmente.

Shina – É um assunto bem louco. Só reduzir a maioridade penal não acho que vai dar algum resultado. Acho que devia começar lá na educação, desde moleque… Crescer vendo tudo que vê hoje em dia onde tudo pode, a mentalidade que pode tudo e nada acontece cresce junto… Ai vira essa zona toda.

NADA POP – Nos protestos que tem se tornado cada vez mais comuns pelo país estão sendo recorrentes os confrontos entre policiais e manifestantes, numa verdadeira luta de ‘pedras contra tanques’, nome de um dos primeiros trabalhos da banda. A imprensa acusa esses manifestantes de vandalismo ao usarem de violência, mesmo quando em resposta à truculência policial. Vocês defendem os protestos sem violência ou acreditam que às vezes o confronto se faz necessário nessa luta por um país mais digno?

Eduardo – Não estive em nenhuma manifestação e para ser bem sincero, acredito que tem muita gente se aproveitando da situação para ajudar à sociedade a continuar chamando de baderneiros os que se manifestam. Quanto à polícia… “Tropa de Choque” diz tudo o que eu penso sobre essa gente.

Waldemar – Toda as vezes que a polícia atua existe violência, eles não veem para dialogar, me preocupo com a integridade física das pessoas, nada justifica uma vida perdida, é preciso prudência nessas horas e inteligência para saber recuar no momento certo.

Shina – Eu estive presente em quase todos os protestos no mês de junho de 2013 contra o aumento da tarifa. O que li de merda por ai de pessoas até próximas não foi pouca! Acredito que pode sim ser feito um protesto sem violência, mas não foi o que rolou. Se não fosse a polícia ter acertado a repórter (da Folha de S. Paulo) no olho, os jornais e meios de comunicação (alienação) estariam até hoje aplaudindo a ação policial contra os manifestantes. Que na grande maioria tava ali sem intenção nenhuma de agredir alguém. Mas aí vem o choque com sua sutileza e acaba com tudo isso e dá início ao caos que todos queriam. Como falam, o gigante acordou, colou figurinha, deu uma mijada e voltou a dormir (hahaha). Vamos ver se vai rolar alguma coisa até outubro de novo.

NADA POP – O Carne Moída prega em algumas letras a união das pessoas para derrubar o poder vigente. Vocês acham que a internet e suas redes sociais tornaram-se um instrumento de união ou um mecanismo de propagação da intolerância?

Eduardo – Eu estava discutindo muito com reaças pela internet, percebi que estava sendo intolerante com reacionários, então percebi que não adianta você tentar provar que política social é bom para o geral a alguém que não quer pensar no coletivo.

Waldemar – Acredito que sim, é melhor maneira de divulgação de ideias e debates, isto pode mudar a maneira de pensar das pessoas, principalmente nas eleições. Acredito na união para algo melhor com respeito mútuo e amizade, não para fazer patrulhamento político nas pessoas que conhecemos, pois como respondi anteriormente não existe uma sociedade homogênea, é preciso saber conviver com as diferenças.

Shina – Acho que as duas coisas. É nas redes sociais que divulgam, organizam protestos, encontros. E da mesma forma tem os revoltados que atrás da tela é tudo, quando na verdade não faz é nada, só reclama!

NADA POP – Para finalizar gostaria de agradecer a entrevista em nome do Coletivo Nada Pop e perguntar: o que as bandas novas precisam fazer para ter uma longevidade e manter sua relevância na cena como o Carne Moída?

Eduardo – Só tenho a agradecer a vocês do Nada Pop, principalmente a você Wagner, que nos deu essa chance de mostrar um pouco de cada integrante da banda para as pessoas que nos acompanham. As bandas novas, façam o que gostam de fazer, não se coloquem rótulos, acreditem no “faça você mesmo”, mas não é por isso que devem fazer meia boca e afinem seus instrumentos, botem para fora toda a raiva em cima do palco e verão o resultado.

Waldemar – Obrigado vocês pelo espaço e respeito, vida longa! muita amizade entre os integrantes da banda.

Shina – Valeu vocês! Wagner, do Mollotov Attack, todos que leram aí.  Espero que saia coisa nova nesse ano ainda! O que posso falar é: tomem muita cerveja e escutem muito punk rock pra aguentar todos esses anos!

****************************************
Para curtir, ouvir e acompanhar a Carne Moída basta acessar o perfil da banda nas redes sociais. Curta a página da banda no Facebook clicando AQUI, ouça a banda no MySpace clicando AQUI e no Soundcloud clicando AQUI.
Entrevista por Wagner Cyco

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Wagner Cyco

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

%d blogueiros gostam disto: