domingo, 25 de agosto de 2019
Nada Pop

Documentário da banda Hayz é a arte como urgência de viver

Assistindo ao minidocumentário divulgado nesta terça-feira (16), sobre o lançamento do EP “Não Estamos Mais em Casa”, da banda HAYZ, pude perceber que não se trata apenas de um registro sobre um show, mas de todo um contexto histórico sócio-político no qual se mistura a origem da banda, os anseios pelo futuro político do país e, ao mesmo tempo, a luta pela continuação de sua própria arte com todas as barreiras enfrentadas no dia a dia. Importante citar que o documentário foi gravado no dia 4 de maio de 2019, na Smoke Lounge, no bairro da Tijuca (RJ), sede da Efusiva Records, gravadora responsável pelo lançamento do EP em conjunto com a Howlin’ Records.

Como bem canta a Josie, guitarra e vocal da banda, “não se trata de desistir”, ao contrário. A banda grita sobre a importância da sua existência e de como a junção de três personalidades diferentes se torna tão especial na criação de algo que as represente como um todo.

É necessário que uma mulher, negra, guitarra e vocal de uma banda de punk rock nos faça lembrar das diferenças existentes dentro do próprio punk/ hardcore, formado – como bem diz a Josie em determinado momento do vídeo –  por homens brancos, heterossexuais e de classe média. A pergunta que fica nas entrelinhas dessa frase é: até que ponto nós, que cantamos sobre igualdade e liberdade, somos tão iguais assim ou entendemos de verdade as diferenças entre nós?

O documentário, que mistura trechos dos shows com a entrevista do trio que, além da Josie Lucas conta com a Bruna Provazi, no baixo e backing vocal, e Roberta Bergami, na bateria, demonstra com muita clareza os anseios da banda – na época da gravação do EP – com a eleição de 2018, algo que para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso também foi algo angustiante. A eleição do Bolsonaro não só aumentou o nível da ansiedade como se tornou inviável pensar em algo muito otimista para o futuro.

Nesse sentido, foi como se a banda transmitisse a urgência do registro do EP, pois as incertezas do futuro transformaram tudo imprevisível, uma catástrofe iminente estivesse ainda mais perto de nós, dividindo a nossa sociedade de uma forma ainda mais clara, onde qualquer pessoa que fugisse um pouco do padrão eleito corresse um risco, não digo de morte, mas sobre a sua própria existência. Por isso a importância desse minidocumentário além da própria música em si.

O documentário se encerra com uma nova música da banda, falando exatamente sobre os medos existentes, mas do ponto de vista feminino. Para nós, homens, é difícil compreender com exatidão um dos medos mencionados na música, como o de apenas sair na rua sozinha. Imagine viver em uma situação onde todas as pessoas do sexo oposto se tornam potenciais agressores? Pode parecer paranoia dessas mulheres, mas basta observar as notícias diariamente nos jornais para que essa realidade se confirme. E a realidade é ainda mais cruel do que a arte é capaz de reproduzir.

Por isso a importância social desse documentário para, quem sabe no futuro da banda, com um novo material e novos sons, seja possível olhar novamente esse registro e perceber que melhoramos, não só como seres humanos, mas reforçando o nosso próprio otimismo por um mundo (ou Brasil) melhor.

Ficha técnica do documentário

Câmera: Leticia Lopes e Vita Parente
Captação de Som: Hanna Halm e Vita Parente
Edição e finalização: Vita Parente
Direção e Roteiro: Leticia Lopes e Vita Parente

Materiais de consulta sobre a banda HAYZ

Nada Pop – Resenha do EP “Não Estamos Mais em Casa”
Rarozine – Entrevista com a banda Hayz

Acesse o Facebook da banda clicando AQUI, ouça o EP clicando AQUI. O EP “Não Estamos Mais em Casa”, da banda HAYZ, é um lançamento da Efusiva Records em parceria com a gravadora Howlin’ Records.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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