domingo, 22 de setembro de 2019
Nada Pop

Diário póstumo da tour pela Europa do Desacato Civil

Imagens das tour pela Europa da banda paulista Desacato Civil – Créditos: arquivo pessoal da banda.

O relato abaixo foi realizado pelo Por Suna, baixista do Desacato Civil, sobre a tour realizada pela banda na Europa. Os shows foram realizados entre julho e agosto de 2019.

1° Parte – O início da tour

Há um tempo que pensávamos em viabilizar uma tour pela Europa. A gente sempre via a banda dos amigos indo, os amigos europeus ou brasileiros que estão morando lá sempre falarem para a gente que era uma coisa possível e viável para realizar. Embora todo mundo dissesse isso para a gente, na prática parecia algo muito distante; na real a impressão que dava é que era uma coisa de outro mundo! No final das contas fomos convencidos – começamos a levar a sério e pensar meios de viabilizar isso. Ficamos uns dois anos nesse namoro, conversando, analisando, etc.

Na verdade, quem estava mais engajado nisso era o Xande (vocal), eu particularmente fiquei off-line dessa construção, só trocava ideia informal mesmo, mas sem me inteirar muito. O que sei é que em meados de 2018 nós sentamos no boteco com a proposta: “Vai rolar um festival antifascista chamado Tuscia Hardcore na Itália e a Paola (nossa amiga italiana que morou no Brasil) mandou nosso som e a galera curtiu, vamos?”. Inicialmente eu confesso que se fosse por mim não teríamos ido pelo meu receio com a grana, mas a banda acabou me convencendo e a partir disso começamos a viabilizar de fato a viagem. Meses economizando grana, deixando rolês de lado, cumprindo horas a mais no trampo, cada um com seu esforço na vida pessoal.

Tudo isso passou meio rápido e de repente, pronto! Faltava um mês para viajarmos! Tudo foi montado a partir do festival Tuscia no final do mês de julho e o torneio de futebol alternativo na Antuérpia que seria no começo do mês. Com essas informações, as lacunas foram sendo preenchidas através de contato de amigos, centenas de contatos por e-mail para picos e coletivos, etc. Montada a tour, nosso primeiro show seria em Liége na Bélgica, cidade próxima a Antuérpia, o local do torneio. Esse era o planejado, mas ainda teve uma alteração. O Xande colou uma semana antes da tour começar na cidade de Alenquer em Portugal para trombar nosso camarada, o Diego que está morando por lá, e em frente da casa onde estava hospedado tinha um bar de rock. Na cara de pau, em meio a uma visita, foi trocada uma ideia com o dono e ele aceitou de cara que fizéssemos um show lá. Pronto, uma semana antes conseguimos um show em Portugal, na cidade de Alenquer. Toda banda ia entrar na Europa por Lisboa então foi suave fechar mais um som! Um país a mais para tocar.

Alenquer – Portugal

Eu fui o último a chegar à Europa. Já tava a semana inteira com o cu na mão de ir sozinho por nunca ter viajado para tão longe e para completar não falar nenhum idioma a não ser o português. O voo faria escala em Marrocos e qualquer coisa errada eu ia passar uma boa dor de cabeça para conseguir me desenrolar, tudo seria na base do aplicativo de tradução e por gestos. No final das contas tudo deu certo, o máximo de problema que deu foi o policial do aeroporto abrindo minhas malas e achando que Desacato Civil era um grupo de samba. Como eu sei isso? Eu não sei, foi somente livre associação dos fatos. Só sei que ele viu meu passaporte brasileiro com vários CDs iguais e com um gesto como se tivesse tocando pandeiro perguntou empolgado: “Samba?!” Só respondi que era, não é uma boa ideia contrariar um policial marroquino logo de cara, então sim, somos samba, forró o som que você quiser, só me deixa passar!

Eu não sei se é uma brisa particular minha ou se mais alguém pensa nisso, mas quando chegava a um país novo sempre me dava a impressão que cada lugar tem uma espécie de película de filme com uma cor específica vista de cima no avião. Marrocos é totalmente amarelo visto de cima, e Portugal vista de cima é verde e cinza. Os motivos são meio óbvios, mas depois entrei nessa brisa em todo lugar. Alenquer parece à cidade do rótulo do azeite misturada com os jardins de casa de bacana paulistano – tudo calmo, castelinhos, pontes, riachos. É um cenário que nunca tinha visto de perto!

Sobre o show, Alenquer foi uma espécie de aquecimento, um show extra. Por alguns motivos, esperávamos que íamos tocar para nós mesmos e isso para a gente tava ok. Não deu para divulgar muito por termos marcado em cima da hora e no dia tinha um show grande do Slipknot, em Lisboa, e uma galera da cidade foi pro pra lá. Outro fator era que nesse som não tínhamos contato com a cena punk portuguesa como nos outros lugares. Para nossa surpresa, no dia colou um pessoal que curte punk e hardcore que viram os cartazes na cidade e na internet e nossos velhos e novos amigos de Portugal. Uma coisa que aprendemos na tour é que, em situações desconhecidas, a melhor coisa é sempre ter uma dose de pessimismo. Não dá para ser realista, pois quando você não conhece o lugar, não dá para fazer uma estimativa da realidade e ter expectativas muito altas, e otimistas não é muito prudente nessa situação. Esperando o pior, tudo o que vier é lucro e, no geral, isso acabou dando certo, pelo menos pra mim, porque tudo acabava sendo melhor do que eu imaginava!

Esse show foi muito legal para a gente tirar a ansiedade e, especialmente, porque colou a família dos nossos amigos brasileiros de longa data e angolanos que conhecemos por lá. Foi bem legal tocar para as crianças que colaram no som, aparentemente elas curtiram o barulho! Foi um ótimo começo.

Bélgica – Liége

Às quatro da manhã já estávamos em pé com nossas várias malas (várias mesmo!) para pegar o busão e ir para aeroporto rumo à Bélgica. Essa nossa tour pode-se se dizer que foi bastante porra louca em relação a deslocamentos! A lógica usada não foi logística e proximidade espacial. A lógica foi marcar onde tivesse amigos ou que alguém marcasse show. A tour foi meio zigue-zague e conhecemos a maioria dos meios de transporte (van, trem, metrô, busão, caminhada, avião, etc). Dava pra fazermos um canal sobre isso no youtube.

Chegando em Liége trombamos a nossa amiga/babá/manager Paola e o Ítalo (Lomba Raivosa) nos esperando! A primeira para ficar com a gente até o final do mês e o segundo para acompanhar pela Bélgica. Depois disso conhecemos nossa primeira motorista de van, a Ines! Ela levou a gente pela Bélgica. Essa tour tem muitos personagens que nem um diretor de filmes conseguiria construir e a Ines é uma dessas personagens impar! A Ines é uma punk belga que está nessa há umas décadas já, o bom humor dela já fez a gente se dar muito bem! A van muito bem decorada com vários quadros do Baphomet, bandas de grind e uma mesinha fofa para alimentação. Partimos para o pico e o lugar é um terreno dos fundos de um cemitério ocupado pelos punks da cidade de Liége, o nome é Tunhell! Logo que chegamos conhecemos os camaradas do Anti-Everithing, banda punk de Trinidad e Tobago.

Os latino-americanos se trombaram com os caribenhos e a amizade bateu na hora! O som dos caras e a apresentação deles na minha cabeça é uma mistura de Bad Brains e Rage Against the Machine. Som poderoso, muita presença de palco e várias cutucadas ao colonialismo europeu nos discursos. Afinal, a banda se apresenta como “Hardcore Post-Colonial” e “Caribean Punk”. No final do rolê a banda Tcheca Beastien, depois de ter sido parada pela alfandega (pelo menos foi isso que entendi) chegou mais tarde e mandaram um crust pra fechar a noite! Na prática, foi o primeiro som da banda que as pessoas não falavam português e isso pessoalmente foi bastante estranho pra mim. Meu inglês inexiste e ficava perambulando fazendo gestos e se sentindo mal-educado por não conseguir responder! Eu tava meio Tazmania do rolê só me comunicava por grunhidos e gestos.

Bélgica – Torneio de Futebol Alternativo na Antuérpia

Saímos de madrugada de Liége e partimos com a van para a Antuérpia para o sítio chamado Ponderosa, onde aconteceria a edição da Copa do Mundo de Futebol Alternativo. O nome de Copa do Mundo foi um batismo nosso, a maioria dos times são europeus, o único time de fora da Europa nessa edição foi o Catadão FCA aqui do Brasil. Eles não nomeiam assim e eu não descobri o nome verdadeiro, mas apesar de o nome ser inapropriado, ele pegou entre a gente! O torneio é composto por times de esquerda com orientação antifascista. Chegando lá, encontramos a galera do Catadão para jogar o final de semana. O Norô (baterista) e o Xande jogaram no Catadão porque jogam regularmente e eu enrolei no FC Vova, time da Lituânia do nosso camarada Paulius que já conhecemos de longa data das aventuras dele aqui no Brasil.

A organização e a estrutura do acampamento eram muito impressionantes para os nossos padrões. Banheiros químicos melhores do que o banheiro da minha casa! A proposito, em todos os lugares da Europa que passamos, uma coisa simples como usar um banheiro era uma dificuldade. As regras mudam. Cada um tem um tipo de registro, de descarte de lixo, ninguém liga muito para trancar a porta, vários lugares o chuveiro é móvel, não é fixo na cabeça. Os banheiros foram uma aventura, por mais esquisito que essa afirmação possa parecer! Vários banhos gelados ou escaldantes, nudes involuntários e descarte de lixo em lugares inapropriados.

A rotina do torneio era os jogos durante a manhã até o final da tarde (na Europa no verão escurece em torno das 22h) e depois rolava bandas e discotecagens para os jogadores jogarem no outro dia prejudicados de ressaca. Vimos o show da banda The Kids, clássica banda de punk rock da Antuérpia e uma banda de Ska foda que esqueci o nome! Foi o fim de semana que tivemos para chapação e ficar loucos. Diferente do que eu imaginava, na tour, em quesito de loucura e chapação, a gente foi muito mais comedidos que o normal em São Paulo.

Para aguentar viagens de metrô cheio de bagagens, 3 van, os 8 aviões que pegamos, ônibus internos a perder de conta que são muito desconfortáveis em comparação com os ônibus de viagem que estamos acostumados no Brasil no estilo Cometão – para não perder a voz e sono o tempo todo, ou você passa a tour inteira chapado para aguentar ou maneira e poupa energia. Optamos maneirar porque não é todo dia que conseguimos viajar pra longe e porque não tínhamos grana para conseguir essa façanha também!

Bélgica – Namur

Chegamos em Namur para tocarmos novamente com o Anti-Everthing. As nossas tours se cruzaram, eles estavam no final e nós no início. A cidade de Namur pareceu bastante silenciosa e com uma população pequena, pois não vimos muita muvuca no centro da cidade, estamos acostumados em São Paulo. Lembrava uma cidade do interior de SP só que com um ar hi-tech, mais moderna e tal. Chegamos na cidade e colamos num castelo que existe há muitos séculos, a cidade vista por cima impressionou porque é um cenário bastante diferente, dava impressão que estávamos em algum filme. Tocamos num pub chamado Petit Bitu. O lugar me lembrava o café do seriado Friends, tudo novo, arrumado. Um lugar menor que com pouca gente parecia que estava cheio, bem do jeito que a gente gosta! Dessa vez conseguimos ficar na casa de um camarada do coletivo organizador do evento que cedeu um cômodo para as duas bandas descansar depois do show para seguir viagem no dia posterior.

A Bélgica e Alenquer dá para considerar que foi a primeira parte. Foi o reconhecimento de campo, não passamos tantos perrengues, tínhamos uma van para nos locomover e trombamos muitos amigos por conta do torneio de futebol. Próxima parada foi Glasgow na Escócia e Inglaterra, as partes mais pauleira da tour!

Continua…

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Sobre o autor

Suna

Suna é colaborador do Nada Pop.

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