quarta-feira, 26 de junho de 2019
Nada Pop

“Contrariedade”, lançamento da banda O Inimigo, é mais do que um álbum, é uma aula de hardcore

O Inimigo – Foto: Victor Balde

“Contrariedade” é o novo álbum da banda O Inimigo, lançado na última sexta-feira (17) pela gravadora Hearts Bleed Blue, disponibilizado em diversas plataformas digitais e que recebe as versões físicas em CD, vinil e K7. São 10 faixas de punk/hardcore do início ao fim. O álbum marca a entrada do vocalista Wellington Marcelo, que substituiu Alexandre Fanucchi em 2016. Além de Wellington, a banda conta com Juninho (guitarra), que toca baixo no Ratos de Porão, Alexandre Cacciatore (baixo) e Gian Coppola (bateria), além do Fernando Sanches, também baixista no CPM 22. Ou seja, a banda não conta com novatos e isso acaba sendo outro fator para esse disco (chego lá em breve).

“Nossa postura vai bem ao contrário do pensamento tradicional brasileiro que acabou de ganhar a última eleição”, diz o guitarrista Juninho Sangiorgio ao explicar o viés político e o título do terceiro álbum da banda.

A primeira faixa do disco se chama Ritual, que deveria ser a música obrigatória para todas as bandas que desejam viver uma vida de estrada. Propagar a mensagem, se sentir em casa em qualquer lugar, “mais estrada mais aprendizado”. Acordar e seguir em frente, mas ao mesmo tempo, o ensinamento obtido é o que você nunca deve deixar para trás. Músicos com muitos anos de estrada abrindo um álbum com essa faixa já mostra que os caras tem muito a dizer.

A faixa seguinte, Câncer na Terra, é uma observação sobre privilégios e consumismo. A crítica para aqueles que desconhecem o sacrifícios, se tornando alguém corrompido por uma verdade fictícia. Aquela velha história: você prefere ter ou ser? Mas aqui, a banda não caí na armadilha de acreditar que só ser é o que importa, reconhece que que podemos ter e ser.

“Somos contrários ao pensamento de gente que acha que mais polícia na rua irá diminuir a violência, gente que acha que devemos trabalhar a vida inteira sem reclamar. Pessoas que não conseguem refletir o real problema do país e estão completamente controladas pela mídia, que jogam as notícias da forma mais covarde possível pra cima do povo. O resultado disso é assombroso, sentimos na pele essa força de controle de massas”, explica Juninho.

Sangue Nordestino é a terceira faixa. São Paulo talvez seja uma das maiores cidades no país construída com o sangue e suor de gente honesta, que veio de longe para tentar a sorte em uma terra infértil de esperança. Quantos de nós temos sangue nordestino e quantos de nós temos orgulho de falar disso? Lembro de um ex-amiga que vivia se gabando por sua família ser de descendência européia. Quando perguntei que diferença isso fazia em sua vida, sua arrogância estampada na face insinuou ser de uma Terra superior. Dá para imaginar porque a amizade acabou, certo?

A faixa que está entre as minhas preferidas da banda, O próprio ar fala sobre se apropriar dos espaços, das ruas, de ocupar a cidade como de fato sendo nossa, o nosso direito como cidadão. Desapropriações como desculpas para retirar pessoas de imóveis abandonados para devolver aos seus donos que sequer sabem o que fazer com esses imóveis e só veem o lucro como resultado final e um governo e justiça que mais atrapalha do que resolve alguma coisa. A cidade é nossa, respire, sobreviva! 

Outra faixa que gostei muito foi a Nova segregação, que coloca o dedo na ferida e cita os crimes de ódio, racismo e critica toda essa segregação disfarçada – ou nem tão disfarçada assim. Sugere a pensar sobre o tema e que os fatores históricos não aboliram de verdade a escravidão.

Alzheimer é a sexta faixa do disco. Começa devagar e depois fica um pouco mais rápida, mesmo assim é a faixa que considero mais lenta do álbum. É uma história de luta, força e de uma caminhada de dedicação de alguém que vê o tempo levar suas lembranças. Essa é uma doença degenerativa do cérebro que junto com o parkinson atinge centenas de pessoas. Falar sobre esse assunto mostra que a banda está atenta a algumas questões da saúde pública no país.

Em seguida, Choque térmico é uma faixa que pode nos levar para diversas interpretações, cada um de nós possui vivências que de alguma forma nos impactaram. Situações que fogem do nosso controle, mas que demonstram a importância da nossa insistência como afirmação, inclusive, para o que fazemos e somos.

“Nós viemos do underground, então ali sempre foi mostrado formas alternativas de ver as coisas, e somos muito gratos por tudo isso, mas ao mesmo tempo é complicado ficar o tempo todo vendo que estamos remando do lado contrário. Estamos lidando com algo muito poderoso e sujo, precisamos manter a cabeça no lugar, fazer nosso papel e fazer valer a pena cada realização na vida”, completa Juninho.

Sempre perigosa sem piedade é a faixa dedica para a cidade de São Paulo, uma relação de amor e ódio, onde o cinza nos sufoca e ao mesmo tempo possui locais de acolhimento. Nos perguntamos o motivo de te amar, se as suas garoas são de tristeza, mas continuamos em seus braços, não confiando e não resistindo as teus olhos e insistindo. Faixa que pode ser muito bem encaixada com outras cidades por aí. Qual seria a sua?

A penúltima faixa do disco é um apelo, um arrepio na alma mais do que necessário. Apelo (Mães de Maio) é a música que traz o depoimento de Débora Maria da Silva, que faz parte do Movimento Mães de Maio, fundado depois da morte de 564 pessoas durante 10 dias em 2006. Pesquise sobre o movimento, ele não pode e nem deve ser esquecido. Aqui a banda mostra o seu respeito e ao invés de se colocar como porta-voz, colocou a voz do próprio movimento na música. “Eles não irão viver alimentados do meu medo”, frase capaz de nos fazer pensar no sofrimento de todas essas mulheres, no descaso do Estado e na ferramenta brutal que são os órgãos de segurança pública.

Encerrando o álbum, Relembrar é morrer, faixa que continua a música anterior, é exatamente o questionamento que todos nós deveríamos fazer, a saudade transformada em luta. Para essas mulheres, o ano possui 12 meses e todos eles são maio.

A experiência da banda, tanto musicalmente quanto de estrada, transforma Contrariedade em um álbum fundamental para todos aqueles que veem no hardcore uma mensagem de luta, de transformação. Tenha esse material em mente, se tornará um clássico pela sua importância e relevância.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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