sexta-feira, 19 de abril de 2019
Nada Pop

Cenas itinerantes de Fragmentos Urbanos

Conheci o Rafael Garga no estúdio Subway, durante uma entrevista que fazia com a banda Blear. Ele estava no estúdio para ensaiar com um outra banda da qual era integrante na época. Como chegou um pouco mais cedo para o ensaio, acabou ficando ali, trocando ideia junto com a gente. Por meio do Garga acabei conhecendo o Daniel, do Centro Cultural Zapata, e o David, do estúdio Davox. Os três, junto com o Rodrigo Alvares, formam o Desgraciado, que foi a primeira banda a participar do nosso podcast logo depois desse papo no Subway. Ou seja, uma coisa levou a outra e novas amizades.

Há pouco mais de dois meses tenho observado algumas publicações do Garga em sua timeline no Facebook. Uma série de imagens com o título de “Fragmentos Urbanos”, que registra de forma simples certos momentos do cotidiano do Garga, que são os mesmos ou que poderiam ser de outras pessoas que vivem e moram em grandes centros urbanos.

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Foto por Rafael Garga

Compartilhadas em seu Instagram, as imagens apresentam muita sensibilidade mesmo quando provoca algum desconforto. Os registros terminam por guardar significados interessantes sobre a miséria, harmonia, sobrevivência, religião, entre outros. São aquelas imagens que falam por si, que não precisam de legenda ou qualquer outra coisa que nos faça compreender sua razão. Fotos que conseguem transmitir a sutileza de um Bresson, como também um pouco do impacto de um Capa.

Para saber sobre a proposta do Fragmentos Urbanos, conversamos com o Garga que também nos autorizou a publicar algumas de suas imagens. A série pode ser acompanhada pelo seu Instagram, basta cessar este endereço: instagram.com/rafaelgarga.

ENTREVISTA COM RAFAEL GARGA – FRAGMENTOS URBANOS

NADA POP – Há muita futilidade numa rede social como o Instagram. Seu registro foge dessa futilidade e é capaz de causa até uma reflexão. Foi dessa forma que surgiu a ideia de fazer imagens com o título de “Fragmentos Urbanos”. O que elas representavam para você no início e se houve alguma inspiração para a realização das imagens.

RAFAEL GARGA – Quando você diz que o projeto pode causar alguma reflexão, é uma boa forma de começarmos uma entrevista sobre um trabalho autoral. É bom saber que o objetivo do projeto é alcançado todo dia. Moro em Sao Paulo há apenas cinco anos. A realidade da capital é bem diferente de cidades do interior do Estado. O ritmo é outro, os relacionamentos são outros, o tempo passa diferente, a movimentação é outra. A arquitetura muda, se multiplica e diversifica. Os cenários são mutantes. Um Porsche passa ao lado de um morador de rua que dorme ao lado do seu cachorro e de algum resto de alimento que provavelmente alguém cedeu, uma sombra passa pelos seus pés e leva sua atenção para uma casinha de mil novecentos e alguma coisa que resiste em meio à dezenas, centenas de edifícios que venceram pela fadiga para estarem ali. Todas essas nuances e diferenças “gritam” pra mim, estão sempre em primeiro plano enquanto sou atingido pela cidade, que é viva e pulsante.

A ideia inicial do projeto foi registrar estes fragmentos, enquanto eu estava à deriva nesse mar de concerto (que depois se estendeu para outros espaços/cidades, maiores ou não). Usar o dispositivo móvel para fotografar foi a única regra que me impus. A inspiração foi mostrar para quem não estava ali no momento, o que me atingia, e mais do que isso, mostrar o que há lá fora quando saímos da nossa zona de conforto e círculos de amizade. Provocar uma reflexão à respeito do cotidiano que nos circunda. A inspiração são as próprias cidades, as cenas, os acontecimentos e vidas que presencio.

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Foto por Rafael Garga

NADA POP – E o que elas representam para você hoje? Ha quanto tempo você faz esse registro com o título “fragmentos urbanos”? Já são mais de 50 imagens publicadas em seu Instagram, há chances de virar uma exposição ou até livro?

RAFAEL GARGA – O primeiro registro, que chamei de Fragmentos Urbanos, foi a mais ou menos 10 meses. Hoje, as fotos representam uma necessidade de criar caminhos para alguma reflexão/contemplação. Necessidade de dialogar, de expor, de provocar. Gosto da ideia de que algumas imagens podem gerar nojo, asco, risada, arrepio, satisfação, apreciação. Quando mexe com nossos sentidos é porque alguma verdade mora ali. Pulsa.

Não me considero artista, mas acredito que a primeira função da arte é o questionamento, a dúvida, é gerar transformação. Tirar as coisas do lugar, saca? Movimentar. Dessa constante movimentação sempre brota vida nova.
Até você me fazer esta pergunta nunca havia pensado na ideia de um livro/exposição, mas agora quem sabe?!?! É uma ideia para ser amadurecida. Alguém interessado em colaborar?

NADA POP – Suas fotos também retratam um pouco do seu dia, certo? Conta um pouco do seu trabalho e como ele influencia ou não neste projeto.

RAFAEL GARGA – As fotos retratam o meu dia a dia porque geralmente fotografo durante meus deslocamentos pela cidade ou em viagens de lazer ou trabalho. Nunca saio de casa com o objetivo de fotografar para o projeto, é sempre a oportunidade que aparece, a cena que acontece. Trabalho com produção audiovisual há 10 anos (videoclipe/tv/publicidade/cinema/etc.). Fotografia, enquadramento, luz, imagens é algo que está bem presente no meu dia a dia profissional. Sempre gostei muito de imagens, tanto estática quanto em movimento. Estudei comunicação e lá tive alguma noção de como produzir/captar imagens. Dentre todas as manifestações artísticas, fotografia é uma das que mais me atinge e chama a atenção. A música é outra. Toco bateria desde os 12 anos e ando pensando em algo para unir as duas paixões. Algo diferente de videoclipe, mas ainda é tudo muito embrionário, não tenho nada formado ainda.

NADA POP – Algumas pessoas são retratadas nas imagens, como moradores de rua, crianças. Já houve algum problema ao tirar fotos de pessoas nessas situações?

RAFAEL GARGA – Ainda não houve problema algum, mas as fotos sempre são tiradas sem autorização prévia das pessoas. Não que isso seja uma regra, mas creio que se avisar antes a foto pode perder a espontaneidade, a cena muda. Teve apenas uma foto que pedi autorização, a número 56 (um garoto de rua), esse achei que valeu a pena postar. Como disseram nos comentários, “tanta coisa dita numa imagem só”.

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Foto por Rafael Garga

NADA POP – Há uma ideia de quanto tempo irá durar esse projeto?

RAFAEL GARGA – Não tenho ideia de quanto tempo durará o projeto. Espero que dure bastante, e só pare quando estiver envolvido em algum outro projeto, desenvolvendo algo autoral que supra esse. É quase uma necessidade invisível. Como falamos “é da movimentação que brota a vida”, ate o Fragmentos Urbanos já ganhou a sua própria. Não dá pra prever se será longa ou curta, é algo que foge do controle.

NADA POP – Se quiser acrescentar algo ou até mesmo deixar algum recado, fique à vontade.

RAFAEL GARGA – Como você disse lá em cima, nas mídias sociais há muita futilidade, a rede é aberta e qualquer pessoa pode gerar conteúdo, seja ele bom ou ruim. Essa democracia já me agrada bastante, ver as pessoas, se movimentar e criar, é algo bastante positivo, cabe ao receptor selecionar o que quer consumir. O que acho muito bacana, em usar as mídias sociais, é o alcance. Ver gente de todo canto comentando as fotos e parabenizando pelo projeto é bem legal. Fazer alguém parar, por um minuto que seja, para analisar algo que você produziu, empolga bastante. Espero que as imagens ajudem a gerar reflexões e que estas façam com que algo mude, pra melhor se possível. Eu me sinto privilegiado em poder registrar estes momentos.

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Conheça o Instagram do Rafael Garga, basta acessa o endereço: instagram.com/rafaelgarga.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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