domingo, 21 de abril de 2019
Nada Pop

Brenda Resende: Personalidade forte é um jeito torto de dizer que eu sou chata pra caralho, mas o mundo é idiota também

“Meus amigos claramente diriam que chegou o meu momento blogueirinha e que eu ia esconder meu passado de tretas e brigas do mundo.” Foi assim que começou a minha conversa com a Brenda Resende, uma personalidade do underground paulista, às vezes amada, em outras odiada. Ela faz parte do Piadinhas do Hardcore, uma página do Facebook capaz de provocar diferentes sentimentos em muitos fãs do gênero. Além disso, é estudante de Engenharia Ambiental pela FMU e mora em Franco da Rocha, na Região Metropolitana de São Paulo.

Com quase 30 mil seguidores, Brenda explica que a Piadinhas é uma página derivada do Dead Fish da Depressão. “Conforme o tempo foi passando, a DFD foi perdendo conteúdo porque era uma página direcionada apenas para uma banda, então o Lucas Carmo, autor de ambas as páginas, e também o gênio por trás dessa, fez a Piadinhas.” Nas palavras da própria Brenda, Piadinhas é uma página de memes com bandas do cenário emo/hardcore, dirigida por um bando de jovens com tempo livre o suficiente para pensar em memes improváveis.

Brenda Resende – Foto: arquivo pessoal

No Facebook, a sua outra página Let Me Go, começou há menos de quatro meses e busca ser um blog sobre música em geral, não necessariamente só falando de hardcore. “Brenda é uma personalidade muito amada/odiada no underground. É bem informada sobre o que acontece nos bastidores da música, conhece muitas pessoas e, pelo menos comigo, sempre foi uma pessoa maravilhosa. Daria uma ótima jornalista/resenhista, tem talento para isso”, comenta o ruivinho (piada interna) Rodolfo Marga, pai da Valentina, cinegrafista e fotógrafo que atua com diversas bandas, além de amigo particular da futura engenheira ambiental.

Sobre a Piadinhas do Hardcore, Brenda assume que a página é sua “paixão e xodó”, e que a sua principal função por lá é basicamente não se meter em confusão com mais ninguém hoje em dia e “tentar não jogar o nome da página ainda mais na lama”. Conta ainda que, para ela, durante um certo período, a página serviu de palco para mostrar os bastidores da cena e mostrar que nem todos seguiam as canções que cantavam. No entanto, diz que isso mudou.

“Não me arrependo de metade das brigas na qual eu me envolvi, mas acho que teve umas que eu poderia ter ficado quieta e/ou resolvido só, não precisava levar a público. Esses últimos anos eu me desgastei com muita coisa desnecessária, mas ao mesmo tempo me fortaleceu, hoje eu sei com quem lidar, sei o que a pessoa/banda fez ou faz que não me agrada, sei onde sou bem-vinda e onde as pessoas fingem me tratar bem por conveniência e, principalmente, entendi onde é meu lugar”, diz.

As inimizades da Brenda podem até dizer que o intuito disso tudo envolve carência por atenção, mas para o Lucas Carmo, um dos fundadores das páginas Dead Fish da Depressão e Piadinhas do Hardcore, essa é uma versão da qual não compartilha. “A Brenda foi uma pessoa essencial em muitos aspectos do meu crescimento, porque eu acabei a conhecendo bem cedo. Ela já me ajudou e me aguentou nos melhores e piores momentos, além de ser minha mãezona companheira de rolê, uma pessoa muito incrível, de verdade”, diz.

Confira abaixo a nossa conversa com a Brenda.

NADA POP – Antes da gente começar, que som você indicaria para quem for ler essa entrevista e por quê?

BRENDA RESENDE – Dezesseis, do Zander. Porque é minha música favorita da minha banda favorita, brincadeira (risos). Mas é porque essa música carrega uma energia bem pesada e isso não é ruim.

Mas depois de ter passado por uma situação semelhante na música, ela obteve um significado ainda maior. A gente fala bastante sobre aborto, que tem que legalizar e tal, em contrapartida tem uma galera que diz que “se legalizar vai virar open aborto, todo mundo vai fazer”.

Mas a questão é que somente uma mulher sabe o quão difícil é passar por isso e a ferida que causa, pode passar o tempo que for, mas essa ferida nunca vai cicatrizar.

Eu sei, os dias agora parecem bem mais longos/ e eu sei que os braços dela se sentem mais pesados/ Não dá mais pra ser como era antes

Tem mais alguém/ mais forte que tudo que você sonhou/ mais forte que tudo que ela já sentiu/ mais forte do que qualquer explicação

Esse trecho já é o suficiente pra gente colocar a mãozinha na cabeça e refletir.

NADA POP – Brenda, se você fosse fazer uma lista de três coisas principais que você gosta no hardcore, e das três coisas que você mais detesta, por onde começaria?

BRENDA – Difícil. Coisas que eu gosto: Acolhimento, apesar de tudo é um local onde me sinto confortável para ser eu mesma. Quebra do paradigma onde o pessoal de banda são deuses, exceto o Bill (Gabriel Zander), ele e deus mesmo (risos), mas você consegue enxergar e ter contato com a galera. É um movimento que ainda tem muito o que evoluir, mas começou a entender aos poucos o espaço das minas e que elas podem sim ter bandas tão boas quanto os homens e podem entender de bandas e instrumentos tanto quanto.

Coisas que não gosto, poderia passar o dia inteiro citando, mas é basicamente: Esquerdomacho. homem querendo ensinar como as mulheres devem tocar e disputa de quem “lacra” mais na internet.

Homens querendo ensinar como as mulheres devem tocar e sempre testar os conhecimentos delas em bandas. “Tu curte mesmo x banda? Então me diz o nome do cachorro da baba do vizinho do tio avo da mãe do baterista.”

Flyer do evento “Minas à Frente Fest”

NADA POP – De todos os momentos que você já teve dentro do hardcore, quais foram os mais marcantes que você poderia citar?

BRENDA – Um dos mais marcantes foi poder fazer o primeiro Minas à Frente Fest com duas amigas.

Mariana, Sirlene e eu demos a cara a tapa pra fazer um festival só com bandas ditas “bandas de mina” quase que na mesma época da lendária treta com os produtores do Oxigênio de “poxa, nenhuma banda com mulher?”.

O evento foi pensando que uma banda feminina só não traz público porque as grandes produtoras não dão visibilidade e oportunidade e digo por mim, não esperava mais que 10 pessoas e conseguimos encher a 339 na Augusta (espaço para eventos). Mesmo que seja um lugar pequeno, aquilo foi gratificante.

E o maior fruto disso foi um grupo de garotas formadas em comunicação social ter nos procurado pra entrevistar e usar como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) não somente o nosso evento, mas a função da mulher na cena underground e para uma garota que só vivia de meme e treta, aquilo foi mágico. E óbvio, minhas tretas me seguem onde quer que eu vá (risos).

Ainda sobre o evento, teve ainda uma roda de conversa onde as mulheres poderiam desabafar e dizer o que achavam sobre a cena. Foi um momento exclusivo para que as mulheres brilhassem e mostrassem que “ainda estamos aqui, resistindo”.

NADA POP – E de todas as bandas da nossa “cena”, qual delas você possui um grande apreço e que desde sempre você curte e acompanha o trabalho, e por qual motivo?

BRENDA – Sugar Kane é minha banda favorita desde criança e quando digo criança é desde pequena mesmo. Meu irmão chegou com o CD deles em casa e me obrigava a ouvir todos os dias, foi a banda que mais me fez ir ao hangar 110 e no auge dos meus 15 anos e fã emocionada eles não me trataram mal, eles entendiam que eu era uma super fã e foram bem receptivos, hoje tenho um pouco de vergonha das atitudes, mas já foi.

Dead Fish também é responsável pela minha inserção no hardcore e por grande parte da minha formação como pessoa. Mas atualmente meu amorzinho é o Zander. Eles vieram numa época de adolescente apaixonada triste, aqueles amores não correspondidos e as letras pareciam ter sido feitas pra mim e mesmo tendo me distanciado deles por um tempo é uma banda de grande significado, não só no passado como nos dias de hoje.

E Aditive, mesmo que eu não acredite no vocalista e que ele tenha mudado as atitudes erradas que ele teve no passado, foi uma banda que eu amei e venerei por muito  tempo, mas hoje em dia não iria em show.

NADA POP – Como suas experiências avaliam o espaço que nós, homens, dividimos com as mulheres dentro do cenário hardcore? É algo positivo, por mais que se fale em igualdade e direitos, vocês se veem respeitadas?

BRENDA – É positivo e não é ainda, bastante homem querendo que a mulher prove que gosta da banda, querendo ensiná-las a tocar instrumentos e a frase que eu mais odeio “você toca bem, parece um homem tocando”. Não meu amigo, ela toca bem igual uma guitarrista, baterista, baixista e afim, INSTRUMENTO MUSICAL NÃO TEM GÊNERO.

Eu não posso dizer por todas, mas eu creio que ainda estamos meio distantes de deixar a mulher confortável no meio hardcore. Me sinto privilegiada, porque EU não tenho problemas, onde eu chego saio cumprimentando todo mundo, se eu posto um meme, faço uma crítica ninguém questiona “hmm foi uma mulher que fez, foi uma mulher que criticou”, mas foi porque eu conquistei isso arrumando briga com muita gente, então as vezes não é nem por respeito e sim por medo/ receio.

Então, ao mesmo tempo que eu me sinto privilegiada por conseguir falar e fazer as coisas eu também me sinto desconfortável, porque independente de ser mulher ou não todos nós erramos e se eu estiver errada eu quero que cheguem em mim e digam isso para que não se repita.

E voltando ao assunto em questão, eu acho que agora temos o novo patamar de homem na cena, o esquerdomacho que finge ser empático com causas feministas e de minorias num geral, mas por trás é abusivo e passa pano para o amigo que faz merda. Na internet um amor na vida real um monstro (chamada do Datena isso).

NADA POP – Brenda, você fala de tretas, que de certa forma isso te cerca, mas como assim? Sua personalidade é forte ou é o mundo que é bastante idiota? (Sim, sei que o mundo é idiota, mas não pensei em um gancho melhor para essa pergunta)

BRENDA – Personalidade forte é um jeito torto de dizer que eu sou chata pra caralho, absolutamente chata (risos). Mas o mundo é idiota também.

Eu vou a shows há mais ou menos 10 anos, mas até 2015 eu não existia para essa galera, ninguém sabia quem era a Brenda, até o Piadinhas do Hardcore me notar. Eu era a fã número um da página, curtia, comentava e compartilhava tudo deles, até que entrei no grupo da patotinha.

Depois disso abriram o grupo do Facebook para mais pessoas e o nome da página e grupo cresceu, éramos os “Nelson’s Rubens HC”, não tinha uma fofoca que a gente não sabia.

Dance of Days, liderada pelo Nenê Altro – Foto: Wander Willian

Consequentemente eu e minha boca grande entrei em vários conflitos, como Nenê Altro sendo mais uma vez babaca, eu ia lá e falava um monte, fazíamos memes e éramos ameaçados de processos que nunca chegaram em casa.

Polêmicas que diziam que x banda tinha integrante abusivo eu ia lá e soltava um “olha só a banda de vocês, é isso que financiam”. Nem sempre estava 100% certa, me aproveitei da minha imagem como “rainha das tretas” e por vezes perdi o controle disso, eu achava que sempre tinha razão e não é assim. Apesar de estar aposentada, não hesitaria em voltar e brigar/lutar pelo que acredito, mas com uma mente completamente aberta às críticas.

A Brenda de 2016/17 era um ícone de treta, a Brenda de 2018/19 só quer paz e um bom risole para comer. Então, basicamente eu dava a minha cara a tapa com toda polêmica que aparecia, não só no Piadinhas, qualquer grupo, teve uma vez no grupo do Dead Fish que alguns amigos chegaram falando “se controla que a gente não consegue mais bloquear as pessoas, dá um tempo aí”.

NADA POP – Como você se imagina daqui a 10 anos? Você tem planos para tão longe assim? Não sei se você já pensou nisso, mas tem em mente qual seria a sua mensagem de epitáfio?

BRENDA – Velha… Não costumo me planejar a longo prazo assim, sempre achei que me formaria e sairia para intercâmbio, então veio o universo e colocou outras prioridades na minha vida. Sobre o epitáfio, sinceramente não, mas coisas do tipo “quem gostou bate palma, quem não gostou paciência”, seria bem a minha cara.

NADA POP – Por fim, se fosse possível, quem você gostaria de trazer de volta para esse mundo e por qual motivo (caso não seja autoexplicativo)?

BRENDA – Até outubro do ano eu diria minha irmã de imediato, mas hoje em dia, ninguém. Acredito que cada um tem um proposito na vida, missão ou sei lá o que as pessoas acreditam, mas a verdade é que as coisas não costumam acontecer por acaso.

Então, a Vitória foi sem sombra de duvidas a pessoa que eu mais amei na vida, ela me ensinou coisas sem ao menos falar e andar e onde quer que ela esteja ela está sendo luz de bem e por mais que eu a ame, eu sei que o mundo não a merecia.

Já diria Cyroca (Menores Atos), “vai doer, mas vai passar…”. E cada dia dói um pouco menos.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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