domingo, 22 de setembro de 2019
Nada Pop

Bambix no Brasil em 2020?

Foto no Ozz, em Campinas no ano 2000 – Paul, André, Willia e Peter – Foto: Arquivo pessoal (detalhe para alguns dos cartazes feitos pelo Daniel, do Muzzarelas, ao fundo). 

Por André Alves

A primeira vez que ouvi o Bambix eu surtei. Era uma coletânea Italiana chamada “No time to Panic”, não acreditei. Eu era fanzineiro e mandei uma entrevista pra elas responderem, meses depois chegou a resposta. Um amigo milagrosamente tinha o disco Crossing Common Borders, eu tinha uma K7 e não parava de ouvir.

Uma das perguntas era se elas queriam vir ao Brasil. Maniet, a baixista, me respondeu “não, obrigado, não queremos”. Isso era, sei lá, 97 ou 98, meu fanzine chamava Hang the Pope (isso assusta, mas os holandeses são muito sinceros, aprendi com o tempo).

Foi uma puta frustração na época, mas eu publiquei e foda-se. Qual o problema de não querer vir pra essa merda aqui? Enfim… mas nos idos dos anos 90 a Barulho Records de CWB tinha lançado o disco delas, o Leitmotiv e, paralelo ao zine, no meu trampo eu comecei uma distro e o Nitrominds já começava a despontar por aí.

Foto ar livre no ano 2000 em Caçapava, no Posso! Bar. Lalo, André, Edu, Willia, Peter e Marieena – Foto: Arquivo pessoal

Como toda distro da época eu comprei milhares de CDs da Barulho e fui na Galeria do Rock, em São Paulo, e ofereci para todos os lojistas com toda a minha lábia de vendedor. Aliás, eu sou bom nessa merda, não vendi nenhum. A justificativa na época era que ninguém gostava de banda com mulher no vocal. Enfiei os CDs debaixo do braço e comecei a empurrar pra todo o ser vivo e provar o que eu pensava, mas mesmo assim não deu muito certo.

Porém, um amigo (que infelizmente não vou dizer o nome, porque não posso) de um amigo, Laudo, que morava na Holanda na época, conheceu elas. Não era só eu aqui no Brasil que já gostava da banda, já tinha arrebatado alguns por minhas andanças de tanto falar delas, talvez eu era um patsa chato. Esse brother, sei lá como, convenceu elas a virem no Brasil. O Nitrominds, em 2000, estava no segundo disco e a gente fazia show pra caralho… porra! Porque não fazer juntos? Eu e esses caras começamos a arquitetar alguma coisa.

Nitrominds na van durante Eurotour 2000. Na frente: Willia, Peter, Janneke. Atrás: Lalo e Edu – Foto: Arquivo pessoal

Usando minha influência na época, consegui vários programas de TV, zine e no começo da internet também levei eles no Turma da Cultura, no Musikaos etc,etc etc. e com o Nitrominds no comando fizemos São Paulo, interior, Belo Horizonte (Lalo perdeu o baixo lá aliás), Curitiba talvez.

O lance deu muito certo, a amizade que fizemos foi um negócio que não sei explicar. Já se passaram quase 20 anos e nos vemos todos os anos na Europa, hoje com o Statues on Fire, mas antes com o Nitrominds, sendo que a primeira vez que o Nitrominds foi pra Europa foi a convite deles.

Aprendemos muito lá, trouxemos muitos ensinamentos, mas como a cultura tupiniquim é muito confusa, na época fomos chamados de playboys, cuzões, mas isso não é sobre o Nitrominds e sim o Bambix.

A banda continuou vindo pra cá e a popularidade só cresceu, das lojas que não queriam os CDs, começaram a comprar aos montes. Dos shows com 50 pessoas passaram a ter 500, 1000 pessoas. Virou um negócio depois de um tempo, onde a coleção de inimigos e oportunistas também aumentou vertiginosamente.

André e Willia em Nijemegen, na Holanda – Foto: Arquivo pessoal

Eu mesmo lancei um disco ao vivo deles e mais um que chama Club Matucheck. O ao vivo foi muito bem nas vendas, mas o “Club” pegou a fase do download, aí já viu…

A única coisa que ficou pra mim desde o primeiro momento em que eu cruzei com essa galera foi a enorme amizade quem mantemos até hoje. Nos falamos todas as semanas ainda, trocamos fotos dos filhos, bebemos até cair no chão quando nos encontramos e choramos quando temos que nos despedir.

Willia, a vocalista, é lésbica, casada. Hoje tem dois filhos e pode parecer cool, mas na época era motivo de piada, pra nós brasileiros, óbvio. Porém, acho que o impacto de ver essa mulher enorme (1,50m) é porque ela é uma gigante no palco, em atitude na sua vida, nas coisas que diz, no que canta, como se porta, como pensa. Creio que incentivou várias meninas na época de formar a sua própria banda, a palavra feminismo ainda bem sem voz começou a fervilhar na cabeça de várias pessoas como um pensamento intenso e isso foi muito positivo.

Peter, Lalo, Janneke e André, em Nijemegen, na Holada em 2018. Foto: Arquivo pessoal

O Bambix no Brasil foi um fenômeno, não apenas uma banda Holandesa de Punk Rock, mas um fenômeno cultural, que quando veio pegou todo mundo de surpresa. Creio que talvez, pelo enorme tempo de sua última tour no Brasil, a banda possa ter caído no esquecimento de muitos, mas quem vivenciou esses shows, nunca esqueceu.

A banda parou por um tempo suas atividades ano passado, fico muito orgulhoso em dizer que o último show foi com o Statues on Fire, em Koln, na Alemanha. Choramos muito, pra variar… Para todo mundo que pensa que a banda se sustenta, como todas as que conheço, americanas ou europeias, que lotam as casas por aqui, todo mundo trabalha e vem um momento em que a idade chega, filhos chegam… Nada é para sempre, hoje alguns shows pontuais aparecem e eles se reúnem, como um que será na Escandinávia.

Uma produtora de São Paulo andou sondando a banda e como somos muito amigos, esse e-mail caiu em nossas mãos. Eu Pergunto a você, nós merecemos essa honra? Conto com vocês.

Postal após tour de 2000 no Brasil – Foto: Arquivo pessoal

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