segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
Nada Pop

As dez coisas que uma banda deve fazer na hora da gravação

Anderson Kabula no seu Home Estúdio – Crédito: divulgação

Nos últimos anos, muito tem se falado dentro do cenário independente sobre produção, gravação e lançamentos de álbuns com mais qualidade no Brasil. Os problemas relacionados ao tema, como bons equipamentos, tempo e investimento financeiro são alguns dos principais obstáculos para diversas bandas no País. Não são problemas novos, ao contrário. Desde o surgimento do rock no mundo.

Mas o termo “profissionalismo” no cenário indie, hardcore – e até no punk – tem ganhado contornos diferentes. Alguns enxergam o termo como exagero, algo que causa incômodo e até protestos – como se o rock fosse algo feito única e exclusivamente de energia e emoção, longe de técnicas que prejudiquem a originalidade e sentimentos. Outros, veem como uma necessidade, que favorece a divulgação e propagação da própria arte, sendo capaz de diferenciá-la (ou igualá-la, de acordo com os seus detratores) ao público.

“Costumo dizer que nós brasileiros não temos um perfil de profissionalismo com a música. É claro que isso é um assunto mais complexo, que envolve investimentos financeiros e valorização de mercado, que não é a questão aqui. Mas tem sua parcela de culpa. Os erros básicos encontrados, costumo destacar o compromisso dos profissionais do áudio e do artista na hora de começar a sua produção”, ressalta Anderson Kabula, músico e produtor de Aracaju (SE).

Kabula Home Estúdio – Foto: divulgação

Convidamos o Anderson a debater um pouco mais sobre o profissionalismo na música e como isso afeta o trabalho de uma banda, seja de forma positiva ou negativa. Sua trajetória musical começou cedo, quando ouvia o pai tocando violão. Aos sete anos de idade, foi matriculado pela mãe em uma escola de música e aí os seus primeiros passos na área começaram.

“Montei a minha primeira banda de rock, um ‘power trio’ da escola de punk-rock. Gravava com poucos recursos minhas musicas para a minha banda e outras brincadeiras em fita K7 e mostrava para os integrantes e em roda de amigos. Foi então, a partir desse momento com a interação na cena de rock da minha cidade, que comecei a perceber que havia certa ‘carência’ em boas produções e gravações”, diz.

Atualmente, Anderson é vocalista e guitarrista da banda Ordinals, de post hardcore. Com a ajuda de um amigo, chamado Alex Prado (um grande irmão, como conta), começou a aprender sobre produção, mixagem e masterização. No seu home estúdio, tem desempenhado muitos projetos de finalização de trabalho musicais, seja de álbuns, EPs ou singles, ou apenas edição de instrumento.

Entre os seus trabalhos com produção, Anderson destaca alguns artistas independentes da cena local de Aracaju, entre outras regiões do Brasil. “Cada um de uma forma, seja somente na captação, edição, mixagem ou até masterização”, explica.

Entre as bandas que vem trabalhando hoje no registro de captação é a banda Maua, de Trash-Metal. O grupo está gravando um novo disco, com o lançamento de um single ainda neste semestre. Todos os instrumentos estão sendo gravados sob os cuidados do Anderson, no estúdio DR5 (Douglas Reis), com a etapa final na coleta de baixos e vozes. A mixagem e a masterização serão feitas por Raphael Ferreira. Assista abaixo o clipe de “Warhead”, da Maua.

Dicas primordiais para mais qualidade

Anderson dispara: “Nada feito às pressas consegue ter um resultado satisfatório”. Sua afirmação está baseada na experiência. “O tempo quem dita são os próprios músicos se seguirem bem os passos de pré-produção e pós-produção à risca. É tudo uma questão de costume, pode parecer difícil ou cansativo, mas no fim das contas o resultado sairá melhor do que o esperado”, reforça.

Um exemplo da junção entre “profissionalismo e sentimento” pode ser a banda Taco de Golfe, com quem Anderson atuou na captação ao vivo da banda para dois singles, mais a mixagem e masterização. O grupo, de estilo math-rock, fez um projeto de audiovisual visual com poucos recursos. “Tínhamos um número limitado de canais para a captação ao vivo, mas queríamos extrair o feeling e o som proporcionado pelo espaço local”, explica. Utilizando-se de uma técnica dos anos 70, onde poucos canais eram utilizados, o resultado alcançado pode impressionar. Assista o vídeo abaixo.

Kabula Home Estúdio

Durante a conversa, Anderson apresentou a banda Mantre, de rock psicodélico. Recentemente, todas as etapas do álbum, desde a pré-produção até a finalização do trabalho, foram realizadas em sua maior parte no Kabula Home Estúdio. “Captamos as baterias no estúdio Waves (Kelvin Farias), guitarras e baixos no meu home estúdio e as vozes no estúdio Usina. O novo disco sairá ainda neste ano e já tem um single chamado ‘Lobo’ em todas as plataformas de streaming”. O primeiro disco da banda, chamado “Introspecto”, teve a captação feita por Fabrício Rossini e a mixagem e master feita no Kabula Estúdio.

Para alguém que trabalha com produção, a realização do próprio álbum acaba sendo mais fácil. Mas existe a mesma necessidade de cuidado e atenção, mesmo ao pular alguns processos. “Algumas etapas pulamos por já fazermos ela de forma tão natural nos ensaios, na hora de compor as músicas. Isso torna o processo mais rápido e ágil. A captação das baterias e guitarras foram feitas no estúdio DR5 (Douglas Reis), e baixos e vozes no meu estúdio. A mixagem e masterização também foram feitas por mim”, conta sobre o terceiro EP “Gravidade”, lançado pela Ordinals.

As dez coisas que uma banda deve fazer na hora da gravação

“São simples etapas que fazem toda a diferença”, menciona Anderson. Como exemplo, o produtor conta que o estudo do instrumento, domínio, afinação, conhecer bem a música (pré-produção) e manter o seu equipamento com boa procedência (regulado e pronto para uso) é o que difere de bandas que estão à frente das demais. “Já gravei muitas bandas que os músicos nem sabiam corretamente o tom ou até mesmo as notas do verso, refrão e etc. Isso sem contar a pegada (leve) do musico, devido à tensão na hora do REC”.

Anderson Kabula – Foto: divulgação

No caso dos profissionais de áudio, Anderson também esclarece que mesmo assim alguns erros básicos surgem na captação, entre eles o excesso de ganho, posicionamento incorreto dos microfones, ou até mesmo coisas simples como cabos com mau contato. “São falhas ainda básicas para um profissional de gravação que precisam sempre ser vistos e revistos. Tudo isso compromete o resultado final da produção do artista, pois tempo é dinheiro não é mesmo?”, conclui. Abaixo algumas dicas do Anderson para um resultado com mais qualidade.

1 – A pré-produção é uma parte importante do processo de gravação. Definir bem a sua música, todas as partes, métricas das letras e BPMs são fundamentais para uma coesão da sua música;

2 – Antes de gravar profissionalmente grave de forma caseira. O celular hoje em dia ajuda para observar como está soando o contexto geral;

3 – Fazer guias e ensaiar com elas é sempre bom, principalmente para manter a constância entre os músicos;

4 – Pratique com metrônomo sempre! Isso ajuda na coesão da música e no processo de edição, mixagem e masterização;

5 – Ensaie muito, mas muito antes de gravar. Uma banda bem ensaiada e sabendo o que cada um tem que fazer se diferencia do amadorismo para o profissionalismo;

6 – Reúna a banda, mostre as opções e escolha o estúdio de gravação ideal para o álbum;

7 – Entre em contato com um produtor musical para dar início ao processo de gravação. Por isso, é importante contar com profissionais de confiança e sempre trocar uma ideia com eles sobre a sua visão do trabalho;

8 – Na hora da gravação, evitem distrações com outros assuntos que não forem da gravação da sua música. Isso atrapalha o raciocínio artístico de todos os envolvidos na gravação. Foco é tudo!;

9 – Hora do REC! O musico precisa se doar por completo, fazer o melhor take da vida. O produtor deve estar sempre atento, anotando e percebendo tudo aquilo que está sendo feito e pontuado e direcionando a gravação;

10 – Depois de gravado, mixado e masterizado, vem a parte da promoção! É uma parte importante do processo. É ela que vai abrir novas portas – tanto para o produtor, que irá atrair novas bandas, quanto para os artistas ganharem público tocarem em mais festivais e mostrarem seu trabalho para as pessoas!

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Aficionado por música, também é facilmente encontrado em lojas de quadrinhos e bares do centro de SP. Siga no Instagram: @sky_ufo82 e @nxdapop