domingo, 25 de agosto de 2019
Nada Pop

A resistência em forma de música no single “Crimeia” da banda Tuíra

E o que me tira
Todas as lágrimas dos olhos
É poder buscar em mim
Um respirar de calma e força

Qual foi a última vez que você sentiu medo em sua vida? Não me refiro ao medo de perder horário, de se atrasar para um compromisso, ou qualquer outro medo banal que você seja capaz de pensar.

O medo real, o medo pela sua vida, pela vida de um amigo ou familiar. O medo de não estar ao lado de alguém que você ama quando ela mais precisar, já sentiu esse medo? É um medo tão profundo que podemos ter – geralmente – duas reações: uma completa paralisia ou a sensação de urgência. Se você nunca teve esse medo, talvez você seja alguém de sorte ou mais privilegiado do que pensa.

Existe um eu
De calma e força
Persistente entre entranhas
De agonia e medo

Tuíra é uma banda queer carioca com o nome escolhido em homenagem à indígena Kayapó, que com seu facão barrou a construção da barragem de Belo Monte na década de 1980. Sua imagem se tornou símbolo de luta.

E o que fazer
Se meu passado aterroriza
Até o fim da linha
É uma ideia que destrói

Com referências de pop punk, hardcore melódico e até no indie, a banda possui em suas composições o protagonismo das mulheres em suas diferentes formas. Letras fortes, que navegam por temas políticos e afetivos, como Crimeia, o single que será lançado nesta segunda-feira e que, de acordo com a banda, “é um grito urgente por resistência, mas também uma evocação ao acalento e força que encontramos nas nossas relações leais, em quem nos dá gás e nos inspira perseverança pra continuar reagindo as violações do cotidiano e realizando nossos projetos”.

Quem vai dizer
Ou julgar
Não sabe de nada
Não quer dizer nada

Formada em 2017 e atualmente com Amanda Azevedo (voz e guitarra), Hanna Halm (baixo e voz), Juliana Marques (bateria) e Thaís Catão (guitarra), Tuíra terá o seu EP Calma e Força lançado durante o segundo semestre de 2019 pelo selo Efusiva Records. Crimeia será uma das faixas que irão integrar o álbum. O título da música faz referência a Crimeia de Almeida, militante política e ex-guerrilheira no Araguaia, presa e torturada pela ditadura militar brasileira quando estava grávida de sete meses, em 1972.

Tem força o braço que acalma
Incêndio que respira e acaba

Segundo a banda, a música é uma faixa urgente e catártica que se impõe como um desabafo e questiona julgamentos ao mesmo tempo que contrasta com a voz interna, fazendo da agitação temperança. O instrumental intenso reflete essa força, mas também a calma de quem não irá derrubar “nem mais uma lágrima”.

Capa do single Crimeia – Arte por Hanna Halm.

Quem vai dizer
Ou julgar
Não sabe de nada
Não quer dizer nada

Quem vocês querem que essa música toque de verdade? Questionei ao grupo essa semana. Em resposta, explicaram que o lado político da música, com a referência a Crimeia de Almeida, é importante e necessário nessa nossa ditadura “passiva-agressiva” atual. “Mas muitas pessoas vão ouvi-la sem saber desse pano de fundo – para quem dentro delas, especialmente corpos dissidentes, que sofrem com tantas formas reais de opressão, começando com misoginia, racismo e lgbtfobia, e se sentem sozinhos e assombrados. A gente acredita que essa música funciona como uma expressão de força e equilíbrio, e pode representar apoio para quem, assim como nós, se sente angustiado com os terrores e violências diários”.

E o respirar que me tira o medo
É o mesmo a não me permitir derrubar
Nem mais uma lágrima
Nem mais uma lágrima

Não pude parar de pensar nessa música como um acalento para todas as pessoas que se sentem tão ou mais angustiadas nesse momento, com um representante máximo da República estimulando cada vez mais o ódio, a ignorância. Qual o nosso papel nessa sociedade?

Tuíra me responde que talvez essa seja uma questão a se pensar recorrentemente, já que vivemos um tempo de múltiplas instabilidades. “Nós acreditamos que, independente das violações e agressões diárias aos nossos direitos e corpos, o poder e capacidade de resistência da nossa comunidade, da nossa manada, é imensurável. Se pensamos em uma responsabilidade, olhar para os nossos iguais e tentar ser um ponto de fortalecimento, escuta e articulação, deve fazer diferença. Então, se você consegue se manter firme e resiliente diante as adversidades, tentar servir de apoio pra quem não anda tão bem assim na luta do dia a dia, tentar ser combustível de calma e força para um amigo, para um aliado, pode ser um movimento muito potente até que tudo isso passe”, ressaltam.

Crimeia foi gravada, mixada e masterizada por Ernesto Sena. A arte de capa do single é de Hanna Halm.

Links da banda: Facebook | YouTube | Bandcamp | Instagram | Efusiva Records

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, pai da Maria Stella, fã de quadrinhos e ficção científica. Aficionado por música, especialmente pelo punk e hardcore. Também é idealizador e editor do Nada Pop.

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