sábado, 23 de abril de 2022
Nada Pop

Ratos de Porão 40 anos: Discografia comentada da maior banda de hardcore da América Latina

Ratos de Porão – Foto: divulgação

Por Fred Di Giacomo
jornalista e escritor

Não existe disco do Ratos de Porão ruim. A banda de crossover/hardcore criada na Vila Piauí, periferia de São Paulo, em 1981, conseguiu mesmo em seus momentos menos memoráveis registrar canções muito acima da mediocridade geral do rock nacional.

Fundada no auge do movimento punk paulista pelo guitarrista Jão, seu primo Betinho (que batizou a banda) e o baixista Jabá a banda ganharia status de clássico da América do Sul com a entrada do carismático e genial vocalista e letrista João Gordo, responsável pela aproximação do RDP com o heavy metal e sua transformação em uma máquina de crossover que influenciou do Sepultura (e as demais bandas da cena metal de BH) aos discípulos do crossover como Surra, DFC e Mukeka Di Rato. O Ratos já ganhou dois tributos, onde suas músicas foram gravadas, inclusive, por bandas gringas como os finlandeses do Força Macabra e os alemães do Accion Mutante. Suas músicas rápidas e agressivas tornaram-se ainda conhecidas fora do país através de covers do Sepultura (“Crucificados Pelo Sistema”) e do Soulfly (“Caos”)

No meio do caminho foram citados em letras dos Raimundos no auge da popularidade (“Pintando no Kombão”) , rodaram o mundo em turnês underground, tocaram no programa da Angélica, fizeram parte da trilha sonora do filme “Carandiru” e viraram documentário (“Guidable”).

Se a pandemia de coronavírus temperada pelo governo autoritário de Bolsonaro e a crise econômico que massacra os brasileiros não parecem o melhor momento para se comemorar nada, não deixa de ser icônico que uma banda que sempre apontou o absurdo distópico do país em que vivemos comemore sua quarta década de existência no pior ano do país que retrataram com perfeição em seu grande clássico “Brasil” (1989).

Nessa ranking de discos do RDP foram considerados todos discos de estúdio que registraram músicas nunca antes gravadas, ficando de fora, portanto, a regravação “Sistemados pelo Crucifa”, os bônus de “No money, no English” e os ao vivos “RDP Vivo” (um dos melhores álbuns da banda), “Ao vivo no Lira Paulistana” e “Ratos de Porão ao vivo o CBGB”.

15. Descanse em Paz, 1986

Depois do lançamento do clássico “Crucificados pelo sistema”, João Gordo cansou das tretas entre punks, “virou metaleiro” e saiu do RDP. O guitarrista Mingau “virou new wave” e fez o mesmo.

Pouco depois, quando Gordo voltou para a banda — já influenciado pela fase metal de English Dogs e Discharge, mas também por Venom — voltou disposto a transformar o grupo de hardcore em uma banda metal punk. Para isso, recrutou o baterista Spaghetti (ex-Ruídos Absurdos) que tocava muito rápido, dominava o d-beat do Discharge e tinha (fato raro entre os punks) uma batera completa.

“Descanse em Paz” mescla tentativas de metal, como “Sofrimento Real” com hardcores ultra-rápidos, como “Cérebros Atômicos” e “Paranóia Nuclear”. Seu grande clássico é a “homenagem” ao ex-presidente Jânio Quadros “Velhus Decreptus” que traz uma mostra da habilidade de caricaturista que João Gordo tem para compor letras trágicas e engraçadas sobre a política nacional. O disco traz, ainda, o primeiro solo “de verdade” feito por Jão em “Juventude Perdida”, que tem uma pegada mais rock n’ roll.

É considerada o pior disco do Ratos pela própria banda, especialmente por sua gravação precária (mas as letras ingênuas caminhando para um imaginário metal também não ajudam muito). Algumas exceções são a faixa título que Gordo fez para o próprio pai, Seu Milton, um policial militar abusivo com quem tinha uma péssima relação. Apesar disso, é o primeiro disco de metal punk da América do Sul e influenciou muito as bandas da cena death-thrash de Belo Horizonte. Já falaram sobre “Descanse em Paz” não só os integrantes do Sepultura, mas também Vladimir Korg, do Chakal, e Silvio Bibika, do Multilator.

“Descanse em Paz” foi produzido pela própria banda, como contou o guitarrista Jão ao “Sounds Like Us”: “O Descanse em Paz mesmo a gente gravou aqui, na Alves Guimarães [Pinheiros]. Trouxeram um cara e diziam “eh, ele trabalhou em Manhatan”. Aí chegou um gordinho com uma cara de metido, a gente ligou dois pedais lá e ele falou: “Que porra é essa? Vocês acham que a gente vai gravar assim?”. Eu falei “pô, tenho certeza de que a gente vai gravar assim. Vai embora que a gente vai gravar sem você” [risos].

14. Ratos de Porão / Looking For An Answer (Split), 2010

O baixista Juninho entrou para o Ratos em 2004, uma época em que os integrantes da banda não estavam mais “no rolê” juntos, tiveram filhos e passaram a compor menos. Consequentemente, a produção de músicas inéditas da banda caiu bastante. Para o split com a banda de grindcore espanhola Looking For An Answer o RDP registrou só 3 faixas novas: “Paradoxo da Soberba”, “Martelo dos Hereges” e a ótima”Exército de Zumbis”. Para completar sua metade na bolacha, resgataram “Guerrear” e “Políticos em nome do Povo” (ambas da fase do RDP pré-Gordo), além de “La Matanza” do Looking for An Answer. São seis faixas, na pegada grind-crust, em 9 minutos e 44 segundos.

13. Periferia – 1982/83, 1999

Para os velhos punks que tacharam os integrantes do Ratos de Porão de “traidores do movimento”, primeiro por fazerem hardcore e depois por passarem ao crossover, essa é a melhor fase da banda. Trata-se de um compilado de todas gravações feitas antes da entrada de Gordo nos vocais, quando o grupo era liderado pelo guitarrista/baterista/vocalista/fundador Jão.

Da precária primeira demo com Chiquinho nos vocais, registrada em 1981, na Serra Cantareira, até as excelentes gravações para a coletânea SUB, já com Mingau na guitarra, temos uma banda pioneira em fazer hardcore no Brasil tocando suas canções curtas e rápidas com letras ingênuas e politizadas que retratam o caos econômico e social do final da ditadura militar.

Os diferenciais dessa primeira encarnação do Ratos eram a rapidez e as influências de hardcore americano, especialmente da cena de Washington formada por bandas como Teen Idles. Havia também uma admiração pelo Olho Seco, a banda brasileira mais rápida até então. São dessa fase iniciada pelo trio Jão (guitarra), Betinho (bateria e criador do nome da banda) e Jabá (baixista), clássicos como “Vida Ruim” (regravada posteriormente pelo Gangrensa Gasosa), “Corrupção” e o hino “Periferia”.

Existem algumas versões diferentes desta antologia, a mais completa é a lançada em vinil pela Nada Nada Records em 2021. A maior parte das gravações é tosca e serve mais como registro histórico, mas as faixas do SUB revelam uma banda boa e afiadíssima, que poderia ter gravado um álbum clássico à altura do “Crucificados Pelo Sistema”, ainda antes da chegada de João Gordo.

12. Feijoada Acidente? – Internacional, 1995

É o disco que Slayer e Guns n’ Roses tentaram fazer, mas não conseguiram. Uma das melhores e mais breves formações do Ratos (Gordo, Jão, Boka e o ótimo baixista Pica-Pau) faz um tributo às grandes bandas do punk internacional e foi lançado pela RoadRunner. Fugindo das obviedades, eles reverenciam o hardcore britânico, finlandês e americano e ainda resgatam bandas australianas (The Saints e Radio Birdman) e italianas (Eu’s Arse); entre outras. A produção de R.H. Jackson conseguiu ótimos timbres para os instrumentos e um som mais “limpo” do que o habitual quando se pensa em RDP, inclusive nos vocais do Gordo.

Não é exagero dizer que muitas das gravações aqui são melhores que as originais. Destaque para o hino “Mucha Policia”, originalmente gravada pelos bascos do Eskorbuto. Até hoje as versões desse disco são tocadas em shows do Ratos.

11. Guerra Civil Canibal, 2000

As três primeiras faixas deste EP, produzido pelos integrantes do Korzus Héros Trench e Marcelo Pompeu, são excelentes e se tivessem sido inclusas no “Onisciente Coletivo” (2003) teriam feito daquele disco um clássico sem defeitos. Estamos falando de “Obesidade Mórbida Constitucional”, que versa sobre as internações de João Gordo e sua quase morte de forma crua, “Toma Trouxa” e “Guerra Civil Canibal”. Todas apresentam um instrumental sólido e criativo, dando sequência à fase grind/crust de “Carniceria Tropical”. Aqui, as letras de Gordo tem um tom mais pessoal e menos focado nas mazelas do país.

A coisa desanda um pouco nas músicas seguintes. São dois covers corretos (“Biotech is Godzilla” e “Fire To Burn”) e duas “zoeiras” (“Kill The Varukers” e “A Cola”). É uma pena. Na época, o Ratos divulgou bastante o disco, que foi lançado pelo selo Pecúlio, de Boka, em programas de tv, como Musikaos e Turma da Cultura.

10. Homem Inimigo do Homem, 2006

“Não gosto muito da gravação, do resultado final. Acho que tem umas quatro músicas bem legais ali”, disse o guitarrista Jão sobre o disco “Homem Inimigo do Homem”, ao Sounds Like Us. “Não gosto muito de umas letras, do encaixe vocal, de uns solos. Acho que era mais complexo do que a gente pensava, e tinha que ter ensaiado mais. Ter dado uma lapidada melhor. O Lado A é legal, o Lado B eu acho que dá uma pesada.”, completa o guitarrista.

Na época os integrantes da banda estavam se trombando pouco, Juninho tinha acabado de assumir o baixo no lugar do Fralda e as composições passaram a ser feitas de forma menos “orgânica” pela dupla criativa Jão e Gordo.

O lado A do disco, realmente, tem ótimas composições que acabaram se tornando clássicos, caso de “Pedofilia Santa”, “Covardia de Platão” (que ganhou um clipe gore do mesmo diretor do documentário “Guidable”) e a excelente “Expresso da Escravidão”, que está no top 3 de músicas mais ouvidas do RDP no Spotify. No lado B destacam-se “Testemunhas do Apocalipse” (tocada até hoje nos shows da banda) e “Quem te viu…” que tem letra e vocais de Jão e faz uma crítica à “mudança de lado” do presidente Lula (chamado de “pelego cuzão” na delicada canção). Há músicas menos inspiradas, no entanto.

A produção seria novamente do gringo Billy Anderson (Melvins, Eyehategod), mas ele pulou fora e o rojão acabou ficando com Daniel Ganjaman, famoso pelos trabalhos com rappers como Criolo e Sabotage. O disco saiu originalmente pela gravadora Deckdisc.

9. Onisciente Coletivo, 2003

Em 2003, João Gordo era um popular apresentador da Mtv o que garantiu uma gama de jovens fãs para o Ratos de Porão. Neste período, um clipe de animação tosco e engraçado para a grudenta “Próximo Alvo” (uma das músicas mais “acessíveis” do Ratos) passava muito na emissora dando repercussão ao disco “Onisciente Coletivo”, que ainda inclui a ultra-rápida “Engrenagem” e as inspiradas “Problemão” (puxada mais pro crossover), “Terror Declarado” e “Fragments of Conquest”, que remete à sonoridade da fase “Brasil”. A faixa título, com participação de Rappin Hood e Munari (Pavilhão 9), é o melhor “rap-metal” gravado pelo RDP e tem um refrão simples e agressivo. As letras do disco tem um humor ácido marcante, como se percebe em “Playbaloser”.

Lançado pela gravadora Century Media, especializada em metal, o disco traz, em diversas faixas, um retorno do crossover thrash abandonado nos álbuns anteriores. A produção ficou à cargo de Alex Newport (Fudge Tunnel, Nailbomb), que já havia produzido “Just Another Crime… in Massacreland”

Sobre o álbum, o guitarrista Jão diz: “Nele tem muita coisa que só eu o Boka fizemos. O Gordo já tava trampando na MTV, a gente marcava ensaio e ia só eu o Boka. O Fralda nunca foi muito de compor, e aí ficava eu e o Boka fazendo as músicas. O Gordo, apesar de não saber tocar, sabe compor.”

Apesar de uma ou outra faixa mais irregular, é um disco que fez menos barulho do que poderia. Se contasse com as três faixas de abertura do EP “Guerra Civil Canibal” no lugar das músicas mais fraquinhas estaria no top 5 da banda.

8.Just Another Crime in Massacreland…, 1994

“Just another crime…” é o disco mais experimental (e também o mais injustiçado) do Ratos de Porão. Com contrato assinado com a Roadrunner (a mesma gravadora do Sepultura) que insistia para que a banda cantasse em inglês, o RDP passava por uma situação paradoxal. De um lado, passavam por seu ápice criativo (haviam lançado na sequência os clássicos “Cada dia mais sujo e agressivo”, “Brasil” e “Anarkophobia”), tinham contrato com uma gravadora grande e a entrada do baterista Maurício Boka havia elevado a banda a um novo patamar técnico. Por outro lado, Jão e Jabá, fundadores da banda, estavam afundados no vício em crack. Pressionado por Boka e Gordo, Jão demitiu Jabá e abandonou o vício. No lugar do baixista fundador, entrou Walter Bart (Não Religião), que definitivamente não era a melhor escolha para a banda.

Partindo desse cenário e em parceria com o produtor Alex Newport (que havia gravado o disco do Nailbomb com Max Cavalera), o RDP faria um disco que está para sua carreira como o “Chaos A.D.” está para o Sepultura. É curioso que, depois deste lançamento, as duas bandas seguiriam rumos musicais completamente diferentes, com o Sepultura mergulhando nos ritmos brasileiros e o RDP radicalizando seu barulho na onda do grindcore.

Influenciados por groove metal, metal industrial e bandas grunge (os caras ouviam muito Helmet, Nirvana e Soundgarden, na época, além de João Gordo ter dado rolês junkies com Courtney Love e Kurt Cobain no Brasil), o Ratos experimentou com riffs mais lentos e misturados a ruídos (“Money”), ritmos brasileiros (“Videomacumba”) e riffs rock n’ roll (“Diet Paranoid”) além de cravar alguns clássicos do crossover guidable (“Suposicollor” e ““Quando Ci Vuole, Ci Vuole!). Há ainda a presença de dois covers inspirados: as versões punk rock para “Breaking All The Rules” (Peter Frampton), principal colaboração de Bart para o disco, e “Ultra Seven no Uta”, tema do seriado japonês Ultra Seven, grande influência de João Gordo, um notório viciado em tv e cultura pop.

Cerca de metade das faixas haviam sido compostas como Jabá ainda na banda, na formação que gravou o clássico “RDP Vivo” (1992). Essas versões podem ser ouvidas na compilação “No Money, No English”. Destaque para as baterias (e os timbres de bateria) de Boka que chegou na banda metendo o pé na porta e para as experimentações dissonantes da guitarra de Jão, que se tornariam sua marca registrada, influência do disco “Dimension Hatröss” do Voivod, amplificada pela escuta das música do Helmet.

Sobre o disco, Jão afirmou: “Na época fiquei feliz com a gravação. É meio o que eu queria fazer também, porque na época do Anarkophobia começou a ficar muito metal extremo e cheguei à conclusão de que não tava me divertindo muito. Eu ficava balançando o cabelo ali, mas cara, era um bagulho muito milimétrico e que se alguém fizesse alguma merda, ia dar aquela cagada monstro. Então acho que depois daquele lance, bagulho com pedra, Jabá saiu da banda, o lance pegou um outro rumo. Deu uma aliviada naquela paranoia de tudo – não que a gente era uns careta, nada disso, mas ninguém ficava fumando pedra oito horas por dia, então o bagulho começou a fluir. Deu uma soltada necessária porque depois do Anarkophobia a gente ficou “putz, será que esgotou as bases?”. Naquele ano a gente só fez seis músicas e não conseguia sair daquilo. A gente tocava as mesmas seis e ia fumar pedra. Isso antes do Jabá sair. Eu tava me sentindo um inútil fudido, fora um monte de problema, família, namorada, financeiro. Sei lá, encaro o Just Another Crime… como uma vitória. Eu saí daquela merda e tô vivo, tá ligado?”

7. Cada dia mais sujo e agressivo, 1987

“Quando apareceu a oportunidade de gravar em Minas Gerais, era a gente pela primeira vez viajando juntos. Só tínhamos o disco pra pensar. Foi legal, todas as bandas da Cogumelo [gravadora mineira] gravavam lá.”, relembra Jão sobre a época do disco “Cada dia mais sujo e agressivo”, em entrevista ao Sounds Like Us.

Influenciados por SOD e English Dogs, mas também por Metallica, Slayer e Exodus, o Ratos de Porão radicalizou suas influências de heavy metal no disco “Cada dia mais sujo e agressivo”.

Parceiros dos mineiros do Sepultura (que lançaram no mesmo ano o ótimo “Schizophrenia”), o RDP passou a colar sempre em BH misturando-se com a cena que incluía bandas como Holocausto e OverDose. Jão, que passara a treinar escalas e palhetadas, até arrisca um dedilhado na ótima “Não há outras vidas”, quando é acompanhado por um Jabá procurando notas agudas no contrabaixo. “Essa era nossa tentativa de soar como English Dogs” contou Gordo em um show comemorativo dos 40 anos da banda no Iglesia Borraxteria. Outra épica faixa é “Morte e Desespero”, que conta com solo de guitarra de Andreas Kisser e backing vocals de Max Cavalera.

Há ainda os clássicos crossover “Plano Furado” e “Crise Geral” (que costuma fechar os shows da banda). Na linha dos hardcores curtos e rápidos que marcaram os dois primeiros álbuns da banda temos “Assalto na esquina” (de apenas 10 segundos) e “V.C.D.S.M.A”. Se Jão e Jabá evoluíram em seus instrumentos, o mesmo não pode ser dito de Spaghetti que “atravessa” alguns tempos na bateria e tinha dificuldade de adaptar seu d-beat à batida “thrash metal” que seus companheiros de banda exigiam para as novas composições.

“Cada dia mais sujo e agressivo” é um dos grandes discos da história do RDP, mas na opinião de João Gordo poderia ter sido melhor executado. Rodolfo Abrantes, vocalista do Raimundos, escolheu a bolacha como o disco que mudou sua vida, em uma reportagem da revista ShowBizz, publicada na década de 1990.

6. Século Sinistro, 2014

“Século Sinistro” é o melhor disco do RDP desde “Carniceria Tropical” e o grande disco da formação mais estável do Ratos: Jão, Gordo, Boka e Juninho (baixo). Nele as influências de heavy metal são fortes, mas diferentes dos dedilhados e solos de “Anarkophobia” e “Cada dia mais sujos e agressivo”. Essa influências são marcadas por ritmos mais lentos, com timbres graves e um clima “sombrio” — uma novidade no som da banda, que talvez só tenha aparecido em “Money”.

É o caso do excelente riff inicial de “Conflito Violento” (sobre a repressão policial aos protestos populares que começaram em 2013), que se tornou a segunda música mais popular do Ratos no Spotify, além de um hit nos shows da banda. As intros da excelente “Grande Bosta”, “Pra Fazer Pobre Chorar” e “Sangue & Bunda” (que conta com a participação ds guinchos do porco Atum), seguem o mesmo caminho. Esses trechos soam como um Black Sabbath grind.

“Século Sinistro”, eleito o sétimo melhor disco nacional de 2014 pela Rolling Stone Brasil, conta com a participação de Moyses Kolesne (Krisiun) nas guitarras de “Neocanibalismo” e “Progeria Power”, cover da banda crust sueca Anti-Cimex. A produção e o lançamento ficaram por conta da própria banda e a masterização foi feita no “Fantasy Studios“, em San Francisco, Califórnia.

As letras da banda, como “Puta, Viagra e Corrupção”, estão politizadas como nunca, um retrato do Brasil polarizado que emerge após a reeleição da presidenta Dilma Roussef (PT) e que descambaria em um golpe e na eleição de Bolsonaro. Em matéria de letras é quase um volume 2 do disco “Brasil”.

Outro destaque é a metralhadora afiada de Jão, em riffs de guitarra inspirados e pequenos arranjos aqui e ali que fazem a diferença na massa sonora da banda. Dessa vez, Juninho também participa mais das composições, assim como Boka. Sobre ele, Jão falou: “Do Século Sinistro eu gosto, viu. Ele é meio com raiva, tipo, tô velho, tá doendo meu joelho (risos).É um disco legal. (…) Como show eu acho essa formação a melhor. Tem o disco ao vivo lá de 92, é um puta disco, é um puta show, mas não era uma apresentação tão solta como a dessa formação aqui.” João Gordo também o considera um dos melhores da banda.

5. Feijoada Acidente? – Brasil, 1995

Acredito que “Feijoada Acidente?” em quinto lugar seja a escolha mais polêmica desta lista. Por que um disco de covers de punk mereceria tanto destaque em uma discografia de banda de crossover cheia de discos com inéditas?

Porque “Feijoada Acidente? – Brasil” é a melhor antologia já feita do punk nacional e a melhor forma de entender a história dos três acordes em nosso país. Excetuando-se a ausência da banda Cólera na seleção (que na época era tretada com João Gordo) está tudo ali: Inocentes, Olho Seco, Garotos Podres, Restos de Nada e ainda faixas que nunca haviam sido lançadas oficialmente e que acabaram se tornando “do Ratos”, como “John Travolta”, do AI-5, primeira banda punk brasileira, e “Câncer”, do Hino Mortal. O RDP também deixa soando como composições Jão/Gordo, o psychobilly divertidíssimo de “O dotadão deve morrer “, do Cascavelletes, e a vanguardista “Tô Tenso”, da Patife Band

De quebra, ressuscitam faixas de sua fase inicial, como “Corrupção”, “Só pensa em matar”, “A Bomba” e “Não podemos falar”. Jão assume os vocais em algumas delas e Boka canta “Capitalismo” da sua banda original, a ótima Psychic Possessor.

De inéditas temos o rock n’ roll sujo e de riffs inspirados de “Direito de Fumar” (que antecipa a pegada de “Carniceria Tropical”) e o hino “Nós somos a turma”, que os punks paulistanos costumavam cantar, ao violão, na estação São Bento do Metrô. É, talvez, a música do RDP mais conhecida pelo “público geral”, que não se interessa por punk e metal. Se o Ratos quisesse ser um novo Raimundos, como sugeriu um executivo da gravadora Roadrunner na época, estaria aí sua melhor oportunidade.

O disco todo é muito bem executado, com destaque para a excelente cozinha formada por Boka e Pica-Pau, talvez a melhor da história do RDP, e marcado por um “bom-humor” mais acentuado que outros trabalhos da banda. Pica-Pau, que tira um lindo timbre grave, distorcido e brilhante de seu baixo Rickenbacker, sola em “O dotadão deve morrer” e “Classe Dominante”. Seu baixão sujo, mas com suingue, também marca as intros de “Tô Tenso” e “Buracos Suburbanos”.

É, sem dúvida nenhuma, o melhor disco de versões do rock nacional, onde cada versão acabou se tornando a definitiva, melhor que as históricas gravações originais. O disco também é importante por mudar os rumos sonoros do Ratos dali pra diante, como lembra o guitarrista Jão: “Na época do Feijoada… a gente começou a tirar aquele monte de punk, não que tenha influenciado no Carniceria Tropical, mas meio que deu mais uma soltada. Deu uma “desmetalzada”. Foi quando ganhei a Les Paul. Coloquei os captadores ativos, minha Yamaha tinha quebrado.”

4. Anarkophobia, 1991

“Anarkophobia” é a sequência espiritual de “Brasil” e o último lançamento da formação clássica do Ratos. Nele, Jão, Gordo, Jabá e Spaghetti fizeram seu disco mais metal, fortemente influenciado pelo thrash de Testament, Vio-lence e Slayer, com músicas longas, cheias de solos e riffs e até um dedilhadinho abrindo “Ódio 3”. As letras equilibram-se entre as críticas políticas de “Brasil” e “Crucificados pelo sistema” e o clima “metal” de “Descanse em Paz” e “Cada dia mais sujo e agressivo”. Assim como seu célebre antecessor, “Anarkophobia” foi gravado em Berlim, produzido por Harris Johns (Helloween, Tankard, Sodom, Voivod, Kreator), tem capa do quadrinista Marcatti e foi lançado pela Eldorado, no Brasil, e pela Roadrunner, no exterior.

Estão no disco os clássicos “Sofrer”, “Igreja Universal” e “Ascensão e Queda”, além do cover de “Commando”, dos Ramones, um dos poucos respiros punk rock do disco. Além dela, só “Ascensão e Queda” é mais puxado para o hardcore do que para o metal. “Morte ao Rei” tem um refrão forte, marcado pelo riff grudento de Jão e “Mad Society” apresenta a primeira letra escrita em inglês por Gordo. A evolução de Spaghetti na bateria também é brutal, com o músico muito mais confortável para tocar heavy metal do que antes.

Foi uma das fases mais populares do RDP, ainda muitos associados ao ascendente Sepultura (que lançou no mesmo ano o rápido “Arise”), quando a banda foi capa da revista Bizz (que a comparava, em popularidade, aos Titãs) e se apresentou em programas populares como o “Sabadão Sertanejo”, de Gugu, e o Programa da Angélica.

Na época, o quarteto se trancou em um estúdio no sítio do sogro do Spaghetti, em Parelheiros, e ficaram no meio do mato compondo. Spaghetti sairia da banda logo depois da turnê internacional que se sucedeu à gravação de “Anarkophobia”, marcando o fim da era clássica do Ratos e, também, uma mudança do som dos caras que se afastariam do metal tradicional.

3. Crucificados Pelo Sistema, 1984

Eleito pela revista Rolling Stone Brasil o mais importante disco de punk rock já gravado neste país, “Crucificados pelo sistema” foi, também, o primeiro LP de uma banda punk/hc da América Latina. Musicalmente, ele dava sequência ao som hardcore inicial do Ratos registrado nas gravações do “Periferia – 82/83”, mas acrescentando a influência do hc escandinavo (evidente na faixa título) e dos britânicos do Discharge. A banda nacional favorita do RDP seguia sendo o Olho Seco, de quem eles gravaram o cover de “Que vergonha”. Outra diferença brutal na sonoridade do RDP foi a entrada do vocalista/letrista/líder João Gordo.

Em 1983, Betinho, baterista fundador do Ratos, deixou a banda após se casar. Jão assumiu as baquetas em seu lugar e convidou o carismático João Gordo para ser o vocalista. Gordo assumiria aos poucos o cargo de letrista do grupo, melhoraria muito as performances ao vivo da banda (na época, Jão ainda era tímido no palco) e traria influências vanguardistas ao som do grupo, que acabou os diferenciando do resto do punk nacional.

O disco foi gravado e mixado em apenas 6 horas, depois de um grande atraso de Jão para chegar no estúdio. A produção executiva foi do Fabião (Olho Seco), que bancou os custos. A banda não tinha sequer instrumentos e gravaram as 16 faixas com uma guitarra Giannini emprestada pelas Mercenárias, um baixo meio quebrado emprestado pelo pessoal do Lixomania e um pedal de distorção Big Muff, emprestado por Miguel Barella (Voluntários da Pátria). Em meio à tamanha ingenuidade, esqueceram de microfonar os tons da bateria. Apesar das dificuldades, o repertório é clássico de ponta a ponta e inclui músicas com um pé no punk rock , como “Agressão/Repressão”, “F.M.I” e “Não me importo”, junto a hardcores rápidos como Caos (de 16 segundos) e “Pobreza”.

Lançado em meio ao auge das selvagens tretas de gangues que rolavam entre punks, carecas e headbangers, esse marco da cena local, acabou não tendo show de lançamento e, na sequência, Gordo e Mingau (guitarrista do disco) sairiam deixando com Jão e Jabá a responsa de não deixar o RDP morrer. Poderia ter sido uma banda de um só clássico, mas graças à resiliência de Jão, tornou-se um marco com 40 anos de carreira.

2. Carniceria Tropical, 1997

Disco favorito de João Gordo ao lado de “Brasil”, “Carniceria Tropical” marca uma virada no som da banda. Depois de mergulhar no punk rock com a experiência dos dois volumes de “Feijoada Acidente?” e a entrada do baixista Pica-Pau, o RDP de “desmetalizou” e mergulhou nas influências de grindcore e crust, como Wolfpack e Disrupt. Um show da banda norte-americana Rich Kids on LSD também mudaria as performances do RDP, deixando a banda “mais solta”.

Com a intenção de gravar um disco de hardcore brutal, os caras chamaram o produtor norte-americano Billy Anderson (Brutal Truth, Cathedral, Fantomas), investiram em afinações mais graves, baixo distorcido, ruídos industriais e samplers do filme “Pixote – a lei do mais fraco”, de Hector Babenco, que permeiam o disco todo. As letras são mais soltas e coloquiais que as músicas anteriores do RDP, trazendo influências de rap, que ficam explícitas no rap-metal “Pedra”, parceria com Rossi (Pavilhão 9) e em “Atitude Zero”. A massa sonora se desenvolve entre o baixo ultra grave de Pica-Pau (que brilha tanto no final de “Atitude Zero”, quanto na ponte de “ Crocodila” e no solo de “Difícil de Entender”) e os agudos dissonantes da Les Pau Fernandes de Jão. Tudo isso no ritmo incansável (e quebrado) das baterias de Boka, que arrancava elogios em resenhas da época sobre os shows da banda que acabaram rendendo uma extensa turnê internacional por squats e clubes europeus, culminando na saída de Pica-Pau por exaustão.

Faixa de trabalho do disco, a roqueira “Difícil de Entender” (irmã de “Direito de Fumar” e “Diet Paranoia”) ganhou clipe com boa rotação na Mtv e a banda apresentou o disco (lançado no Brasil pela Paradoxx e na gringa pela Alternative Tentacles) em programas como “Musikaos” e “Turma da Cultura”. Destacam-se ainda na bolacha “Crocodila” (que ganhou clipe ao vivo na turnê européia da banda), “Outra Vez”, “Colisão” e “Arranca Toco”.

Ao mesmo tempo que exibe influências do rap nas letras e vocais mais falados, como em “Banha”, Gordo desencana de vez de ser compreendido e passa a “sujar” cada vez mais sua voz, experimentando entre registros graves e agudos, como se fosse uma versão crust de Mike Patton. Experiência levada ao extremo na célebre regravação de “Bad Trip” com “bolo Pullman na boca”, que encerra o disco tão experimental quanto “Just Another Crime…”, mas mais bem-recebido e muito mais pesado. Clássico!

1. Brasil, 1989

Há pouco que não tenha sido dito sobre esse clássico do RDP, retrato que nunca envelhece do nosso “Brasil”. Ele traz na capa, desenhada pelo cartunista Marcatti, as mazelas da nação e, no encarte, as letras com layout inspirado no jornal “Notícias Populares”. Entre hinos do crossover latino-americano como “Beber até morrer”, “Aids, Pop, Repressão” e “Plano Furado 2”, Gordo usa humor para destrinchar as desgraças nacionais como a violência policial (“Porcos Sanguinários”), a devastação da Amazônia (“Amazônia Nunca Mais”) e os menores abandonados (“Crianças sem futuro”).

O disco foi gravado em Berlim, em 25 dias morando em um apartamento ao lado do estúdio. O produtor alemão Harris Johns, que havia trabalhado com os maiores ícones do thrash metal teutônico, “profissionalizou” o som dos caras, insistindo para que Gordo, Jão e Spaghetti regravassem ou alterassem trechos das músicas. Spaghetti evoluiu muito de “Cada dia mais sujo e agressivo” para esse disco, finalmente dominando a “batida thrash metal” em músicas como “SOS País Falido”.

Anedota divertida: a composição dos clássicos de “Brasi” foram turbinadas por fartas tragadas de macoha “da lata”, que ficou célebre nos anos 80. “A gente ensaiava todos os dias, o dia inteiro, nos fundos de uma casa meio abandonada, que alugamos de uma mulher lá na Vila Piauí. Enchemos as paredes de bandejas de ovos, para abafar o som. Bem precário”, contou Jão ao portal mineiro Uai.

Entre os diversos riffs matadores criados pelo guitarrista neste disco, há uma curiosidade. Segundo o livro “Sepultura: toda história”, de Silvio Bibika e André Barcinski, “Beber até morrer” surgiu em uma jam de Gordo com Max Cavalera e Andreas Kisser, do Sepultura. Seu riff teria sido criação de Andreas, posteriormente surrupiada por Gordo.

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