terça-feira, 23 de novembro de 2021
Nada Pop

Por que desenterrei meu baú “caipira punk” pra retratar o Brasil de Bozo no disco “Cramunhão” do Praga de Mãe

Fred Di Giacomo

Penápolis, no final dos anos 1990, tinha muito calor, muita igreja evangélica, muita cana de açúcar e muito sertanejo. O que não tinha era um pico massa pra uma banda de punk/hardcore tocar, um estúdio pra gente gravar, uma rádio que tocasse qualquer coisa que não fosse a monocultura da indústria cultural, que, praticamente, se resumia a sertanejo.

Ah, claro, a cidade não tinha, ainda, revelado a Sabrina Sato, sua maior estrela.

Era uma cidade pequena, com cerca de 60 mil habitantes, e longe 500 km da capital paulista. Culturalmente estava muito mais próxima do Mato Grosso do Sul e da região centro-oeste do que da grande região metropolitana que pariu o punk rock no Brasil nos anos 1980.

Mas Penápolis tinha uma matéria-prima de sobra: tédio, o principal combustível para jovens desajustados e pouco populares a inventarem bandas, zines e festivais. E foi isso que me levou, junto com meu irmão Gabeza e um primo, a “inventarmos” uma banda de brincadeira, quando tínhamos entre 13 e 12 anos, no quintal de casa.

O nome da banda seria Praga de Mãe, inspirado em uma personagem da MAD, uma revista de humor escrachado que influenciou muito o humor tosco da nossa banda. Gostávamos de Sepultura e Ratos de Porão, mas não tínhamos instrumentos, só uma bateria de latas e um violão sem cordas. Tecnicamente, não dava pra sonhar em tocar crossover-thrash, nem pra tirar onda como as bandas de cover de pop/rock que tocavam nos poucos lugares que não era dominados pelo sertanejo.

Por isso, eu e meu irmão nos empolgamos quando descobrimos, via “Feijoada Acidente? – Brasil”, do RDP, o punk nacional, especialmente Garotos Podres, Inocentes e Olho Seco. Era possível fazer protesto e música com poucos acordes. O punk nos deu uma identidade alternativa aos agroboys da cidade, nos ensinou a filosofia do “faço você mesmo”, nos encheu de ideias sobre religião, capitalismo e machismo.

Quer escrever em uma revista, mas mora no cu do judas? Invente um zine xerocado, e o distribua pela cidade. Não se identifica com as mesmas oligarquias se revezando sempre no poder? Pesquise o anarquismo e forme alternativas de organização. O punk também nos deu uma turma, já que começamos a “inventar” uma cena na cidade que resultou em dezenas de festivais, festas e encontros, sempre tocando em qualquer buraco que aparecesse inclusive em outras cidades. Nossos grandes companheiros de jornada foram os Militantes, banda do escritor marginal Gilvan Eleutério, que tocou algumas vezes em Araçatuba, a “cidade grande” da nossa região.

Ouça “Cramunhão” no YouTube. Basta clicar na imagem.

Acredito que o punk me influencie até hoje, mesmo quando estou fazendo trabalhos mais “coxinhas”. Em 2006, eu migrei pra capital, descolei trampo de jornalista, publiquei um romance (“Desamparo”) por uma editora independente, que foi finalista de um prêmio importante. Sempre alternei trabalhos em veículos mais tradicionais, como o UOL, com trampos em ONGs de comunicação com foco nas periferias, como o datalabe.

Por volta de 2018, eu vi o produtor da nossa primeira demo caseira (o baterista penapolense André Gubolin) postando no Facebook que tinha descoberto que estava com Parkinson precoce, aos 36 anos de idade. Apoiei e divulguei o projeto dele, e fui resgatar as gravações que ele tinha produzido pro Praga de Mãe, em 2001. Achei várias bases perdidas que permaneciam inéditas. Comecei a mexer nesse material, e passei a pensar que seria legal que as bandas da nossa região (Restos, Menstraution, Desnutrição, Academic Worms, Dikusteen) fossem conhecidas pelo resto do país. Por isso passei a escrever artigos sobre algumas delas em lugares como o Nada Pop. E, paralelo a isso, fui regravando minhas velhas músicas e fazendo novas, numa mistura que resultou no disco “Cramunhão”.

“Cramunhão” é um retrato triste do Brasil de Bolsonaro, mas, também, o resultado desta viagem de 24 anos pelo hardcore-metal caipira do Praga de Mãe. Nele você ouve músicas compostas de 1997 (“Cem anos a pão e água”) a 2020 (“O agro é morte”) por moleques de 12 a 15 anos. Infelizmente o Brasil que idolatra a ditadura, o sertanejo e a repressão mudou muito pouco nesses anos todos.

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