segunda-feira, 19 de julho de 2021
Nada Pop

Ao revisitar o “7 songs”, The Bombers traz a nostalgia de um Brasil sem bolsonarismo

The Bombers - Foto: Bruno Polengo

Banda santista disponibilizou álbum que revisita o 7 Songs, disco de estreia do grupo e lançado em 1998.

É provável que o ano de 1998 seja mais lembrado pelo fiasco da Copa do Mundo, no qual a seleção brasileira de futebol deixou de conquistar o título de pentacampeão em uma derrota para os franceses em um jogo bastante estranho. Houve um mal súbito do jogador Ronaldo horas antes do jogo que… Bom, todo mundo já sabe.

O Brasil também enfrentava uma crise econômica gigantesca causada por fatores externos. No mesmo ano, o País chegou a registrar uma taxa de juros de 42,12% e que fez o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, naquela época, Stefan Salej, soltar uma frase cômica se não fosse trágica. “Nem a prostituição tem retorno maior que a taxa de juros”, reclamava.

O presidente Fernando Henrique Cardoso, vulgo FHC, conseguiu se reeleger ainda no primeiro turno com 53,06% dos votos válidos contra 31,71% do Lula. Outra tragédia, além da Copa e reeleição do FHC, foi a morte de oito pessoas com o desabamento de uma parte do Edifício Palace II, no Rio de Janeiro. O prédio tinha sido construído pela Sersan, de propriedade do deputado Sérgio Naya, que após fugir para Miami, com medo de ser preso, teve o mandato cassado em abril do mesmo ano.

Em 1998 surgia a plataforma de pesquisa mais popular do mundo: Google

Em 1998 surgia a plataforma de pesquisa mais popular do mundo: Google – Crédito: divulgação

O Google, ferramenta quase que indispensável na vida de qualquer pessoa com acesso à internet hoje em dia, nasceu em 1998. Surgiu também o iMac, computador revolucionário da Apple e que eliminava o disquete e investia no CD-ROM como mídia preferencial. Se até o momento tudo isso parece ser notícia muito velha, estamos falando apenas de 23 anos atrás, uma época que apesar dos pesares, e com o Brasil dando passos de tartaruga para o futuro (como sempre), sequer existia o bolsonarismo. Convenhamos, deu saudade, né?

E olha só, poderíamos ainda falar de várias outras coisas, mas para essa introdução não ficar ainda mais longa, em 1998 foi lançado um dos discos clássicos do punk/hardcore nacional: “7 Songs (and two bonus tracks)”, disco de estreia do grupo santista The Bombers. Logo de cara o grupo trazia uma mistura de ska, punk, reggae e hardcore que se transformou em um DNA sonoro do grupo ao longo de sua carreira.

“Era uma época maravilhosa. O dólar era cotado a R$ 1,00 e tínhamos cada vez mais acesso à internet. Graças a isso, podíamos consumir o que era produzido nos EUA e na Europa sem delays. Encomendávamos discos e recebíamos eles sem sustos”, relembra Matheus Krempel, guitarra e vocalista da The Bombers.

Matheus acrescentar que as bandas que eles estavam curtindo e descobrindo na época começavam a fazer shows no Brasil com frequência. “Shelter, NOFX, Bad Religion, 999, The Lurkers, Biohazard, entre outras. Isso nos dava a sensação de realmente estar vivendo e fazendo parte daquele ‘boom’ da cena neopunk”.

Revirando o baú das memórias

Recentemente a banda disponibilizou no Bandcamp o álbum “7 Songs (and 2 Bonus Trax) Revisited (LIVE)”, que como o próprio título já da entender, revisita o primeiro disco da The Bombers, sendo gravado ao vivo no Studio G, em Santos, no mesmo lugar onde foi gravado originalmente o disco de estreia do grupo.

A surpresa bacana deste trabalho é que na compra desse álbum completo, ou de qualquer música do disco, será disponibilizado um link privado para uma apresentação desse registro em vídeo com exclusividade. Como o Nada Pop teve acesso a esse trabalho, podemos dizer que, além da qualidade técnica audiovisual, a apresentação conta com registros da época de lançamento do 7 songs.

“Em 1998, eu e uns amigos tivemos uma epifania. Como podíamos nos considerar punks e querer uma mudança no mundo se não sabíamos escrever sobre política e problemas sociais? Então decidimos fazer algo que pudesse ajudar a trazer alguma mudança para a nossa realidade. Assim, organizamos uma campanha do agasalho”, lembra Matheus sobre um dos shows de lançamento do álbum na época.

Apresentação gravada ao vivo da The Bombers revisita o disco “7 songs”. Vídeo disponível apenas para apoiadores no Bandcamp. Foto: reprodução

O evento solidário que o vocalista da Bombers conta foi realizado no extinto Banana Grogue, um dos principais espaços para bandas independentes no litoral. Além do Bombers, tocaram nesse evento os grupos Imperpheitos, Make Your Choice, Sui Generis e Gritos do Subúrbio.

“Ter 580 pessoas ‘pogando’ e cantando nossas músicas em um calor infernal foi a melhor sensação que eu poderia ter no auge dos meus 19 anos. Sem contar a sensação de saber que poderia fazer algo pelo mundo usando nossa música como desculpa”, conta Matheus.

Questionado sobre a crise econômica naquele período de 1998, em uma comparação com o ano de 2021, o vocalista é direto ao dizer que aquilo (a crise) não estava nos planos de ninguém. Mas da forma que está sendo (hoje), trata-se muito mais do que uma questão financeira. “Estamos vivendo uma crise mundial em todos os sentidos. Crise política, social e de saúde. Hoje é, verdadeiramente, uma questão de sobrevivência”.

Nostalgia

Sem parecer saudosista, Matheus lembra da cena santista antes e depois do surgimento do The Bombers. Isso é algo bastante interessante se colocado em uma linha tempo cronológica do underground. “Antes do Bombers lembro de bandas como IHZ, White Frogs, Safari Hamburguers, Garage Fuzz, Psychic Possessor, Primal Therapy e Sociedade Armada. Na mesma época que a gente tínhamos os Imperpheitos, Altered Mind, Overjoyed, Sonic Sex Panic, Rubbermade Ducks, Turn Away, Punk Hyenas, Plano Cohen e Anti-Fashion. Depois os Soldados do Asfalto, Big Nitrons, Riot 99, Gas Burner e Febre Mental”, lembra. Já em uma época mais recente, Matheus cita bandas como Like a Texas Murder, Surra, Bayside Kings, Thirteen Brotherhood, Depois da Tempestade e Blackjaw.

Claro que não é possível falar do cenário rock de Santos sem lembrar do Charlie Brown Jr., porém como o CBJR não é o foco dessa matéria deixamos apenas uma curiosidade. O baterista Graveto, que tocou no Charlie Brown Jr. entre 2008 e 2013, também chegou a tocar no The Bombers no período de 2001 até 2004.

Mesmo com uma discografia de alto nível e elogiada por críticos e público, o The Bombers não esconde (e nem teria motivos para isso) o carinho e orgulho do 7 songs. Enquanto outras bandas ignoraram os primeiros discos da carreira e até reconhecem que não estavam preparados para o lançamento de certos discos, Bombers já se mostrava bastante afiada e com muita coisa a dizer.

Foto: Acervo da banda (show em São Paulo no Black Jack em 2007)

“Eu, particularmente, tinha acabado de me formar no colegial, comecei a namorar (algo que eu achava impossível de acontecer), consegui meu primeiro emprego, tinha gravado com a banda e o nosso tipo de som estava ficando cada vez mais popular no mundo e a minha família ainda não tinha entrado na grande crise financeira. Tudo parecia possível em um sentido positivo”, lembra Matheus.

Vinte e três anos depois de 7 songs muita coisa mudou no País, outras continuam iguais. Já a cena de Santos também teve diversos momentos, altos e baixos. Em entrevista ao Nada Pop, o baterista do Surra, Victor Miranda, declarou que o cenário atual da cidade é um pouco triste comparado com o que já foi. “Santos virou, basicamente, uma cidade de idosos endinheirados que acumularam grana a vida toda em São Paulo e foram se aposentar no litoral. Todos os ‘jovens’ em algum momento se veem tendo que sair da cidade para conseguir alguma coisa. Apesar de tudo, ainda tem os que resistem por lá”, disse.

O bolsonarismo que atingiu o Brasil com a eleição de 2018 trouxe à tona a extrema-direita, que assumiu o poder junto com o seu radicalismo decadente, porém semelhante a ascensão do nazismo na Alemanha, em 1919. Guardadas as devidas proporções, vemos diariamente o risco à democracia no País e a sensação de que vivemos dias sombrios cada vez mais intensos. Bandas como os Bombers, felizmente, ainda encontram bases artísticas e sociais para continuarem construindo sua arte, nem que seja para manter a própria saúde mental.

“Hoje, a gente segue por esforços próprios. A banda é a chave para mantermos um pingo de sanidade. É graças a ela que tratamos nossas questões mentais de uma forma mais amena. Acho que hoje nossa maior preocupação é a saúde mental. Esse é o nosso maior propósito. Esse é o diálogo que queremos ter. Essa conexão com os ouvintes. É uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que tratamos dos nossos medos, inseguranças e fraquezas, buscamos com nossa música fazer essa troca de experiências com o ouvinte. Algo do tipo, você não está sozinho. Acho que esse é um bom propósito para se manter uma banda e ser relevante nos tempos atuais”, finaliza Matheus.

Não à toa que a música “Smilling”, que integra o disco 7 songs, seja uma das mais queridas do público. “Fight for your Rights, get up stand up. Don’t give up the fight”, cantam. Assim como o Bombers, continue sorrindo para os seus amigos.

*************

Além da campanha no Apoia-se, no qual você pode contribuir com o Nada Pop com qualquer valor a partir de R$ 1 real, nós também voltamos com as camisetas do site. Adquira a sua no site da Peita Preta. Uma porcentagem das vendas será revertida para o site. Compartilhe essa ideia!

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop

Deixe seu comentário