quarta-feira, 16 de junho de 2021
Nada Pop

Bux THB comenta a carreira solo após sair do grupo Loucos d’La Mente

Pega a visão nesse papo por e-mail com Bux THB, rapper da zona sul de São Paulo e também apresentador do programa “Da rua pra rua TV”, que em busca de dias melhores, para os seus e para toda a quebrada, tem chamado atenção com seu novo trabalho, agora sem o suporte dos Loucos d’La Mente, mas rasgando o verbo em cima do velho e bom boom bap com a mesma habilidade. Pandemia, BBB, racismo… Nada escapou à resenha que você confere aqui.

Como o rap surgiu na sua vida?

Foi mais ou menos em meados de 1988, 1989, através dos meus primos mais velhos que ouviam NWA, Public Enemy, Duck Jam e Pepeu. Foi quando me apaixonei pelo bumbo e a caixa do rap, e na sequência fui procurar conhecer o que era aquilo, e assim me envolvi comi a arte do hip hop.

Eu sei que você participa ativamente de alguns projetos sociais. Como essas iniciativas estão fazendo para manter suas ações durante a pandemia?

Continuamos os trabalhos tomando todos os cuidados recomendados pelas autoridades sanitárias, pois com a pandemia as necessidades da quebrada só aumentaram.

Você acha que essa cultura do cancelamento (como temos visto acontecer com os rappers participantes do programa Big Brother Brasil) pode ser atribuída ao fato de, em muitos casos, o discurso não estar alinhado com as atitudes do artista?

Sim. A partir do momento que você tem o dom de compor uma música e levar para milhares de pessoas e essas pessoas se identificam com ela (pois a realidade delas é parecida com o que você fala na letra), ela cria um personagem na cabeça, como se aquele artista fosse uma pessoa exemplar, que representa as emoções que ele transmite na sua música.

Ainda sobre o programa, você acha que a participação de artistas de rap pode agregar algo para o movimento ou no máximo nas carreiras dos próprios artistas?

Os diretores do programa foram malandros. Mas eles não buscaram artistas da raiz do movimento. Se tivessem feito isso eles poderiam ter agregado mais. Alguns exemplos de bons rappers para estarem lá seriam Dexter, Mano Brown, Happin’ Hood…

Criar filhos é por si só uma odisseia. Você, como pai que é, enxerga um desafio ainda maior na criação de crianças pretas em uma sociedade com o racismo tão enraizado?

Sim, é difícil. Mas temos que incentivá-los a viver tudo aquilo que sonham. Apesar das dificuldades temos que mostrar pra eles que precisam se capacitar. A nossa história, que foi escondida no passado, hoje se faz presente na vida deles como um apoio. Precisa ser o alicerce para que eles tenham a força para exercer um ótimo desempenho em suas vidas.

Você fez parte do grupo Loucos d’La Mente por muito tempo. Houve algum motivo específico que o fez sair do grupo? Quais as maiores diferenças entre o seu novo trabalho e o anterior com os Loucos?

Desde quando eu era dos Louco d’La Mente eu tinha meu trabalho paralelo e recebia convites para fazer músicas com outros grupos e bandas. Conforme os anos foram passando esse trabalho solo foi criando mais força, apesar de eu estar nos Loucos. Naturalmente cada um seguiu o seu caminho.

A diferença entre os Loucos d’La Mente e meu trampo solo Bux THB é que os Loucos era um trampo mais melódico, acústico, com banda e o meu é mais agressivo. Denúncia contra toda injustiça e exploração, em cima do Boom Bap. E fora isso tem a vantagem de você fazer seu corre sozinho, com toda liberdade de criação.

O Brasil parece viver um de seus piores momentos, com crise sanitária, política, social, econômica, batendo recordes de desemprego e de mortes. Você acredita que poderemos tirar algo de positivo desse quadro quando tudo isso passar? Na sua opinião, existe alguém que pode ser considerado responsável direto por essa situação?

Sim, eu acredito. Pois da forma que as coisas estavam acontecendo anteriormente estava como um mundo sem freio. Ninguém ligando pra nada. Essa doença veio para tirar vidas de ricos e pobres, mostrar que vale mais a pena você dar valor para a família, os seus próximos e as pessoas que realmente te amam do que você valorizar o mundo, pois a qualquer momento você pode perder aquela forma de vida fútil.
O desgoverno é responsável direto. Se tivesse levado mais a sério desde o início, hoje poderíamos estar bem melhor.

Você apresentou ao lado do Kaneda (Asfixia Social) o programa ‘Da rua pra rua TV’, transmitido pela TVT. Conte um pouco sobre essa experiência. Teve algum episódio que você destacaria? Por quê?

Mano, o ‘Da rua pra rua TV’ foi um programa que foi me surpreendendo a cada episódio, porque tínhamos que ir até as famílias que tinham sofrido a perda de filhos e netos, vidas que foram ceifadas por policiais sujos, e isso é uma parada muito delicada de lidar. Mesmo com toda essa tristeza soubemos conversar com cada família, que aceitou fazer as entrevistas porque nós víamos aqueles jovens como filhos, sobrinhos, bem próximo de nós, pelo fato da identificação. Porque somos da quebrada.

Mas apesar de toda essa injustiça, também mostrávamos o lado bom de cada bairro. A música, a arte, o esporte, a cultura, a poesia e os coletivos que atuam em cada região e como eles se organizam para enfrentar os problemas do bairro. E isso tomou uma proporção tão satisfatória. Primeiro por conta de toda a equipe de produção que era sensacional. Marco, Bajul, Kaneda, Daniel Irponi, Nicolas e Cria. Todos unidos para fazer o melhor. Deu no que deu!

Seria injusto eu dizer qual episódio que se destacou, mais creio que todos foram essenciais para o crescimento do programa e que fomos rigorosos em trazer a verdade. Sou muito grato em fazer parte de tudo isso.

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Sobre o autor

Wagner Cyco é guitarrista das bandas Mollotov Attack e Irmã Talitha, além de exímio guitarrista reconhecido pelo seu trabalho.

2 Comentários

  1. Manu disse:

    Bux THB é um dos grandes exemplos como artista. A sua conexão com a quebrada e luta em prol não só da igualdade mas também dignidade das famílias esquecidas pelo sistema é algo esplêndido. Parabéns por trazer essa figura importante do nosso cenário Hip Hop NadaPop é que venham mais matérias com personalidades fortes e importantes com Bux.

  2. Jonas dos santos Sertório disse:

    Salve thb tmj é nois

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