domingo, 2 de maio de 2021
Nada Pop

Com nova formação, Acionistas Vienenses lançam álbum sobre verdades e abrigos

Em alguns momentos, quando estou ouvindo um disco, me pego pensando nas ideias que a banda está desenvolvendo. Pode ser a história retratada ou em frases, existe sempre algo que se pode guardar, pensar e refletir a respeito. Aquele papo de que “gosto da banda apenas pelo som” não cola comigo. Saber o que a banda está cantando é importante e necessário, não só pela identificação, mas pelo que ela consegue representar e traduzir de sua realidade.

Quando ouvi ‘Panos Limpos’, primeira faixa do álbum Todo Mal Se Acaba (2021), dos Acionistas Vienenses, pensei comigo: “Isso poderia ser a história do meu último relacionamento”. Pois é, é como se um filme estivesse passando na minha cabeça. “Não me peça pra pensar em tudo que vivemos, em tudo que passamos. Nada foi em vão, mas também não irá voltar”, cantam. Sem entrar em muitos detalhes, de certa forma todos nós compartilhamos histórias que se tornam um aprendizado. Tanto dos erros que cometemos, dos erros que cometeram com a gente e de tudo aquilo que acabamos nos libertando em busca de paz.

Os Acionistas Vienenses surgiram em 2013, em São Paulo. O grupo possui influências de hardcore melódico e seguem um pouco a linha do Garage Fuzz e da saudosa Noção de Nada. Com o lançamento de Todo Mal Se Acaba, a discografia da banda conta agora com 1 EP e 2 álbuns. Aliás, o penúltimo trabalho dos Acionistas saiu em 2016 e possui as participações de Farofa (Garage Fuzz) e Sandro Turco (Cannon of Hate). Esse último trabalho é uma parceria com o selo Lucha Records.

Mas voltando o disco, depois da primeira faixa temos a música ‘Bucólico’. “Não há, não há processos de mudanças, apenas fuga momentânea. Pois já não há mais como deixar aqui, prédios e asfalto já se tornaram parte de mim.”

Quantas vezes já me senti assim? Querendo sair da cidade, fugir dos prédios e dessa cidade cinza, buscar algo mais tranquilo e ficar distante de tudo? Só uma fuga, sem interesse em mudar a própria vida. A vida tem nos deixado mais cansados ou será o peso das nossas ilusões que carregamos por tantos anos que agora cobram suas decisões? Talvez a gente nunca saiba. São as nossas verdades e abrigos.

Em seguida, o álbum surge com ‘Identificação’, parece uma resposta para a faixa anterior. De como ainda parece existir esperança em nossos sonhos. Eles só precisam se tornar atitudes, criando novos significados e razões. A música seguinte, ‘Onde me Convém’, segue a mesma proposta, traçando um paralelo sobre as mudanças de pensamentos que se refletem em novas atitudes e destinos. Algumas delas internas, sobre o que resolvemos mudar, como os pensamentos que se tornam falas e, essas falas, que se tornam ações.

Depois temos a faixa ‘Todo Mal se Acaba Quando a Verdade se Torna o Seu Abrigo’. O melhor trecho da música diz que é “inexplicável essa necessidade que nunca passa de tentar provar pra você que amanhã posso ser bem melhor. Mesmo não encontrando nenhum sentido nisso, me da forças pra continuar. Não há nada estranho em tentar se redimir e mostrar que com os erros nos podemos aprender. Sinceridade, falar a verdade, isso me faz tão bem. Todo mal se acaba quando a verdade se torna o seu abrigo”.

Existe uma frase do escrito e filósofo Albert Camus que pode representar um pouco do que acredito que seja essa faixa: “Sempre acabamos adquirindo o rosto das nossas verdades”. As nossas verdades irão nos guiar, nos proteger ou nos fazer culpados de tudo o que somos, bons ou ruins. Mas sem verdades estaremos sozinhos, desprotegidos e sem futuro.

Uma das poucas críticas que considero relevante citar é que o tema na penúltima música chamada ‘Estoico’ parece se repetir um pouco com as faixas anteriores. No entanto, ‘Discurso de Ódio’ encerra o álbum com um debate importante e necessário sobre o atual momento político que vivemos. Nós estamos “cegos” em uma sociedade repleta de informação, reproduzindo discursos histéricos, além de baseados em opressão e discriminação. A música diz muito, é rápida e intensa. Recomendo ouvir diversas vezes em alto e bom som.

Acredito que a nova formação dos Acionistas, com Gabriel (vocal), Diego (baixo), Raul (bateria), Madruga e Fernando (guitarras) possam continuar desenvolvendo mensagens importantes e inspirando cada vez novas reflexões sobre temas necessários ao coletivo. Que seus ouvidos possam abrigar a banda.

Links da banda: Spotify | Deezer | Amazon Music | itunes | Tidal | Instagram

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop

2 Comentários

  1. Avatar Gustavo Woltmann disse:

    “Aquele papo de que “gosto da banda apenas pelo som” não cola comigo.” Concordo plenamente, na minha opinião a letra e a mensagem são aspectos muito importantes!

  2. Avatar Tiago Henrique Ferreira(madruga do acionistas vienenses) disse:

    Obrigado pela análise,fico demais,conseguiu captar muito bem a mensagem q queríamos expressar…
    Obrigado msm.

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