segunda-feira, 19 de julho de 2021
Nada Pop

Um brinde ao novo lançamento de Alvaro Dutra: o EP “2020 foi um ano ruim”

Alvaro Dutra - Foto: Raquel Campos

Recebo um link no whatsapp na manhã de Natal, abro o Spotify, abro uma nova página no word, formato para times new roman, centralizado, 1,5.

Na noite do dia 24 ganhei chocolate, all star e café; passei dos 25 e tenho os mesmos interesses da adolescência e quando dei play nas músicas voltei direto pro ensino médio. Hoje escuto as músicas em alta qualidade em um serviço de streaming no meu fone sem fio, naquela época baixava as musicas no MySpace e passava pro meu mp3 preto que não tinha nem 1gb.

Alvaro me manda mais algumas mensagens e começamos a conversar sobre a pandemia, família, São Paulo, Brasília, cachorros. Em 2017 fizemos um documentário sobre a gravação do ultimo EP de sua antiga banda (Dissonicos), ao longo dos anos brincamos com audiovisual e música, fizemos videoclipes, alguns péssimos e outros incríveis.

Foi em um show do Dissonicos que eu vi pela primeira vez uma música do Ramones ser tocada ao vivo, minha jornada na música (punk, rock, hardcore, “underground”) começou ali.

Em 2018 começaram a surgir algumas imagens do Alvaro no 1234 (estúdio do Pedrok – Nada em Vão) e em janeiro de 2019 ele começou a lançar musicas nas plataformas, no ritmo dele, um single ali , um EP aqui, uma playlist sobre isso ou aquilo.

Músicas que falam sobre ele mesmo e ao mesmo tempo sobre todos nós, músicas muito mais maduras que aquelas que eu ouvia no meu mp3, com uma variação instrumental (violoncelo, banjo, violino, sax), com letras de um veterano no universo musical (ele escreve letras pra essas bandas famosas que você deve gostar como Dead Fish e outras mais).

Alvaro Dutra - Foto: Divulgação

Alvaro Dutra – Foto: Divulgação

O Alvaro juntou sua biblioteca beatnik e cheia de Nietzsche e literatura russa com os Derridas, Deleuzes e poesias difíceis de entender da Raquel, ele é o cara que conhece 1 milhão de bandas esquisitas, mas ao mesmo tempo não é o chato que fala “esse power chord que você tocou parece aquela banda finlandesa que fez um split com a banda do interior da Alemanha”. Não, isso não é uma ode ao Alvaro, ele não é um gênio (apesar de ter lançado Bulimia), ele não é melhor que ninguém (apesar de eu já ter ouvido isso), mas as horas de leitura, as pesquisas musicais, as conversas pseudo intelectuais refletem no que ele faz.

Esse presente de Natal pandêmico, uma releitura de músicas que foram lançadas pelo Dissonicos, agora com instrumentos orquestrais, num ritmo mais lento refletem o nosso ritmo atual nesse ano que não acaba, o ano que os dias parecem todos iguais e a ideia que temos que quando der meia-noite e 1 minuto todos os problemas vão acabar.

Na retrospectiva de 2020, do Spotify, Alvaro foi o terceiro artista mais ouvido, como teria sido na época da escola, ouvindo músicas punk no ônibus depois da aula sonhando em montar uma banda. O tempo passou, melhorei a qualidade do café que tomo, montei uma empresa, estudei, montei e acabei bandas, saí das redes sociais, parei de ir pra shows e agora a nova versão de “Brinde” volta a me dar esperanças.

Alvaro tem isso, manda uma mensagem do nada e te chama pra fazer um projeto, pra lembrar das épocas de loucura, adolescência, punk rock. Talvez com 20 e poucos eu ainda deveria estar fazendo merda, sinto que lembrar as loucuras de um rockeiro é lembrar as loucuras de todas os rockeiros. Essas 3 músicas dele (e todos os projetos que estamos desenvolvendo) nos levam de volta pra uma época sem tantas preocupações, boletos e contas pra pagar e as próximas músicas falam da vida do adulto, como ela é.

Sinto que esse texto não é exatamente uma resenha, mas o que quer que seja não escrevo pra falar para você, leitor, ir direto no link e ouvir o EP, seguir o jovem (kk) nas redes sociais e gerar um grande engajamento; não me importo com isso, mas sinto que tem que ser dito que ser punk, rockeiro, etc é uma fase sim, a gente amadurece e vê que a vida é muito mais que se limitar aos 4 acordes e que na verdade ser isso tudo é muito maleável e que você pode continuar sendo rockeiro e ouvir um pagode, funk, etc.

Se você já passou da fase de fugir de casa pra ir em show, se drogar todo fim de semana pra se enturmar, beber corote, misturar cachaça com iogurte, correr pelado na rua ou que prefere ficar em casa ao invés de ir em todos os shows pela cidade, não é que você traiu a cena, é que você tá adulto mesmo e se você estiver afim de lembrar de como eram esses dias você pode sempre ouvir as músicas do Alvaro.

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Sobre o autor

Passou a adolescência organizando shows, zines e fazendo festas barulhentas em casa. Hoje em dia com 20 e poucos anos fica em casa ouvindo e lendo coisas estranhas como se tivesse 80 anos.

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