segunda-feira, 5 de abril de 2021
Nada Pop

Em Tropical Melancolia, Zander e Menores Atos lançam um EP sobre seguir em frente

Tropical Melancolia poderia ser uma expressão para definir o sentimento de um país tropical que passou 2020 assistindo a pronunciamentos bizarros de um governo negacionista em meio a uma pandemia, mas, além de todo o caos sociopolítico, cada pessoa aqui tem sua própria batalha interna pra travar todos os dias, com angústias, medos e frustrações. E são essas batalhas que estão presentes nas letras das composições de Cyro Sampaio e Gabriel Zander no EP Tropical Melancolia, resultado da parceria entre as bandas Zander e menores atos.

Lançado pelo selo Flecha Discos, o EP contém seis faixas, incluindo os singles “Arpoador 83’” e “Caos Efeito”, que saíram nas últimas semanas, e é resultado de uma colaboração que não deixou de lado nenhuma característica das bandas. O peso das melodias do menores atos somado ao vocal intenso de Zander era o encontro que a gente precisava pra extravasar e não sabia (ou sabia?).

Aproveitando o lançamento do EP, conversamos com Gabriel Zander para sabermos como surgiu essa ideia da junção entre as bandas e se vem mais parceria no futuro.

Quando surgiu a ideia de gravar um disco em conjunto?

No ano passado, a gente já estava com vontade de armar uma tour em conjunto, dar uma rodada com as duas bandas. Daí, pensamos em gravar um split com coisas novas de cada uma e alguma faixa colaborativa no meio, pra gente poder ir pra estrada divulgar isso juntos, mas, nesse processo, a gente acabou trabalhando primeiro nessa parte colaborativa e as ideias começaram a fluir muito. Então, quando vimos, já tínhamos várias músicas e surgiu a sugestão de fazermos um EP inteiro assim. Todo mundo adorou, achou que fazia sentido, e assim fizemos!

Ouvindo as músicas, dá pra ver que todas têm a cara do menores atos e do Zander. Como funcionou o processo de criação de cada uma delas?

Algumas ideias vieram do menores atos e acrescentamos em cima e vice-versa. Já outras, eu e o Cyro começamos sozinhos, durante o período em que ele morou aqui em casa, então a gente compôs muita coisa juntos que ficou na gaveta e acabou indo pro estúdio depois, pra trabalhar com o resto da galera. O Caíque, que tinha entrado recentemente na Zander, trouxe várias ideias também, mas em todas as seis músicas todos os integrantes participaram e deram suas caras de alguma forma, então, realmente, são as duas bandas o tempo inteiro.

E a gravação a distância foi mais difícil? Se sim, quais foram as maiores dificuldades? Você acha que essa será uma realidade adotada pelos músicos mesmo depois da pandemia?

Na verdade, a gente conseguiu gravar todo o instrumental antes e, quando a pandemia veio, a gente engavetou. Mas depois de um tempo, eu e o Cyro resolvemos tentar compor as letras através de sessões no Zoom e, incrivelmente, acabou rolando super bem. A gente já tem uma química e uma parceria forte pra escrever junto e acho que esse processo e esse EP vieram para solidificar isso de vez. Gravamos as vozes cada um de uma vez, em casa mesmo, mas antes a gente já definia onde cada um ia entrar em cada música. Geralmente, o Cyro gravava uma demo com as duas vozes já pensando nisso; outras eu mandei inteiras e depois a gente foi definindo onde ele poderia encaixar melhor…. Foi bem tranquilo e prazeroso, ainda mais num período em que a gente estava precisando muito produzir, nos ajudou muito.

Acredito que muitas bandas se equiparam e aprenderam a fazer gravações em casa, sendo que bandas em que os integrantes moram em países diferentes acabaram voltando a lançar músicas devido a essa realidade de, mesmo sem shows, poder continuar existindo e trabalhando em lançamentos a distância. Isso eu vejo como uma coisa positiva, para que as pessoas não deixem de fazer música, e também enxergo como uma realidade daqui pra frente.

Há planos de mais projetos em conjunto ou até mesmo de uma turnê do Tropical Melancolia quando for possível?

Sim. A ideia da turnê já existia antes, foi o embrião de tudo. A gente chegou a pensar em teatros, lugares com palcos maiores pra poder montar toda a estrutura e realizar esse show, mas, por enquanto, isso está em stand by, obviamente. Projetos em conjunto a gente sempre irá fazer, afinal somos muito amigos e bandas irmãs, mas torço e não descarto a possibilidade de um Tropical Melancolia vol. 2 no futuro. Quem sabe?

O disco se chama Tropical Melancolia e a frase que o inaugura é “eu não estou bem”… bom, a gente sabe que nesse país tropical só está bem quem é muito otimista ou não se informa. Como vocês esperam que esse disco ajude as pessoas a superarem esse momento complicado e ficarem bem?

Não dá pra saber, mas terminar e lançar esse disco nesse período tão sombrio e assustador nos ajudou muito a seguir em frente. Então espero que, de alguma forma, ele ajude, por meio das melodias, dos riffs e, principalmente, das letras, as pessoas que gostam não só das bandas, mas de música nova em geral, a ter um espelho de que é possível criar e resistir na arte para seguir em frente.

**********

Aproveitando, o Nada Pop está com uma campanha no Apoia-se, contamos com o seu apoio para continuar esse trabalho. É possível contribuir com qualquer valor a partir de R$ 1 real. Junte-se a nós: https://apoia.se/nadapop.

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Letícia Pataquine

Formada em Letras, fala sobre livros no Instagram, reclama no Twitter e faz listas e resenhas como editora do Nada Pop.