terça-feira, 13 de abril de 2021
Nada Pop

Dez músicas que envelheceram muito mal (muito mesmo!)

Em 2018, um funk que naturalizava o abuso sexual causou polêmica e foi banido de plataformas de streaming. O MC, autor da música, alterou sua letra, mas a original ainda se encontrava no YouTube até pouco tempo, tanto que em junho deste ano, a Justiça Federal condenou o Google a excluir os 22 vídeos que ainda continham a letra original e, em outubro, o TRF2 manteve a decisão.

Esse episódio foi marcado por diversas discussões a respeito do machismo e misoginia presentes na música, e sempre que algo relacionado a esse fato vem à tona, essas discussões voltam, já que aqueles que odeiam funk são os primeiros a se levantar quando algo desse tipo acontece, afirmando que só esse gênero é equivocado nesse nível, quando, na verdade, todos os gêneros musicais (até o k-pop, acredite se quiser) já estiveram envolvidos em polêmicas relacionadas a machismo, racismo, homofobia entre outros.

E pra provar esse ponto, a gente listou aqui 10 músicas que envelheceram muito mal e como seus autores lidaram com as críticas.

1. Raimundos – Me Lambe (1999) /Esporrei na Manivela (1995)

Cena do clipe “Me Lambe”, dos Raimundos – Crédito: reprodução

Já começamos com uma dobradinha de uma das bandas mais controversas do rock brasileiro. O sucesso dos Raimundos se deu justamente pelas letras que eram consideradas divertidas nos anos 90, mas atualmente o que antes era “engraçado” é visto como bem problemático (ainda bem, né?). Enquanto “Me Lambe” naturaliza um homem mais velho se relacionando com uma garota de 17 anos, “Esporrei na manivela” é uma ode ao assédio no transporte público (crime enquadrado na Lei de Importunação Sexual, de 2018).

“No coletivo o que manda é a lei do pau / Quem tem esfrega nos outros / Quem não tem só se dá mal”

Citamos apenas duas aqui, mas a discografia do Raimundos é recheada de músicas assim, e que não ficaram presas aos anos 90, já que em 2015 a banda lançou “Gordelícia”, que era pra ser uma homenagem às mulheres gordas, mas é bem equivocada.

Sobre o assunto, em uma entrevista de 2017, Canisso, baixista da banda, afirmou que as letras antigas foram escritas em outro contexto, mas Digão, vocalista, diz que os Raimundos são uma banda de ficção e que escrevem músicas pra rir e fantasiar e que eles não fazem na prática o que cantam.

2. Gabriel Pensador – Lôraburra (1993)

Cena do clipe Lôraburra, do Gabriel Pensador – Crédito: reprodução

“Existem mulheres que são uma beleza, mas quando abrem a boca, que tristeza!/ Não é o seu hálito que apodrece o ar, o problema é o que elas falam que não dá pra aguentar/ Nada na cabeça/ Personalidade fraca/ Tem a feminilidade e a sensualidade de uma vaca”

Sim, esses versos também foram hit nos anos 90, quando Gabriel O Pensador despontou no mainstream do rap brasileiro.

É preciso contextualizar que os anos 90 no Brasil foram um período de extrema objetificação do corpo feminino nos programas de TV e nos grupos de axé, que faziam muito sucesso na época, e as dançarinas, tanto dos programas quanto dos grupos musicais, eram majoritariamente loiras. Isso tudo, atrelado ao já famoso estereótipo de que mulheres loiras são burras, pode ter levado Gabriel a ter feito essa música pra lá de machista e ultrapassada, mas os anos passam e Gabriel percebeu que algumas coisas deveriam mudar.

Em uma entrevista para a revista Marie Claire, no ano de 2019, o rapper falou sobre a letra: “Ela foi feita para chocar, mas não combinava com a minha personalidade. Por isso, decidi retirá-la das apresentações. Acredito que há várias outras maneiras de passar uma mensagem sem ser agressivo, principalmente com as mulheres”. A entrevista foi feita na época em que Gabriel, junto da cantora Jade Baraldo, gravou uma nova versão de “Lôraburra” para o comercial de uma famosa marca de perfumes, transformando o famoso grito machista em “Evolua”.

3. Emicida – Trepadeira (2012)

Cena do clipe “Trepadeira”, do Emicida – Crédito: reprodução

Quando lançou seu primeiro álbum de estúdio, ‘O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui’, Emicida escrevia mais um capítulo de sua já grande trajetória no hip hop nacional, mas talvez o músico não esperasse que a faixa 8 do disco, com participação de Wilson das Neves, fosse lhe trazer problemas.

“Trepadeira” conta a história de um homem que ao ser abandonado, desabafa sobre a ex-namorada e faz trocadilhos com nomes de plantas e flores, porém, a letra foi considerada machista por julgar o comportamento sexual de uma mulher e ainda fazer apologia à violência:

“Minha tulipa, a fama dela na favela enquanto eu dava uma ripa/ Tru, azeda o caruru/ E os mano me falava que essa mina dava mais do que chuchu/ (…)/ Merece era uma surra de espada de São Jorge, um chá de comigo ninguém pode”

Aos responder os questionamentos dos movimentos feministas à música, Emicida aproveitou para citar suas outras produções que falavam sobre as mulheres e seu real pensamento, dizendo que “Trepadeira” contava uma história ficcional.

4. Camisa de Vênus – Silvia (1986)*

Camisa de Vênus – Crédito: reprodução

As “Jennifers” dos anos 2000 que se incomodaram com o hit do Tinder, deveriam agradecer aos deuses por não se chamarem Silvia e terem vivido nos anos 1980, aguentando o refrão “Silvia! Piranha!” cantado pelo Camisa de Vênus depois de versos como esses:

“Vive dizendo que tá numa boa, mas veio pra São Paulo dar massagem em coroa/ (…)/ Você jura e repete que me tem amor, mas eu lhe flagrei com um vibrador/ (…)/ Todo homem que sabe o que quer, Pega o pau pra bater na mulher”.

Na época, a música já gerou controvérsia, mas a banda não pareceu se importar muito, pois no disco ao vivo de 1986, ‘Viva!’, que foi gravado no Dia Internacional da Mulher, Marcelo Nova, vocalista do Camisa, introduz a música com o seguinte discurso: “Hoje tem um monte de mulher na plateia. Hoje é o Dia Internacional da Mulher e nós queremos aproveitar a oportunidade… porque o Camisa de Vênus tem sido acusado de ser uma banda machista, mas não é nada disso. Na verdade, o Camisa de Vênus é a única banda heterossexual do planeta… e então a gente não podia deixar de dizer que nós amamos as mulheres. Sem vocês, nós não viveríamos em hipótese alguma. Inclusive, eu acho que o mundo só vai consertar o dia que a mulher tomar o poder, tem mais tato, sensibilidade, tem mais carinho. Bem, agora que eu já enchi o ego de vocês, podem arriar as ‘calçolinhas’ e vamos lá”.

*ano de lançamento do disco Viva!

5. Os Cascavelletes – Nega BomBom (1987)/ Estupro Com Carinho (1987)

Os Cascavelletes – Crédito: divulgação

A banda gaúcha Cascavelletes “causou” entre o fim dos anos 80 e o começo dos 90 pelas letras polêmicas que falavam abertamente de sexo, porém uma coisa é falar de sexo como Madonna fazia abertamente nos anos 80 e outra é ser extremamente machista e, porque não dizer, criminoso, já que a música Nega Bombom é machista e racista e a música “Estupro com carinho”, bom… eu nem preciso dizer mais nada.

Mesmo assim, como prova de que os anos 80/90 eram uma insanidade no Brasil (não que tenha mudado muito de lá pra cá), a banda apresentou a música “Eu Quis Comer Você” no programa Clube da Criança, apresentado pela Angélica.

6. Faichecleres – Aninha sem tesão (2005)

Faichecleres – Crédito: reprodução

“Cansei de me humilhar/ E agora nem que seja a força, nem que chore sem parar/ Ninguém vai te ouvir gritar/ Aninha sem tesão, não vejo condição/ É superficial/ E a minha intenção é te dar meu coração”

Entre o fim dos anos 90 e começo dos 2000, os Faichecleres fizeram um certo barulho na cena rock brasileira com seu som fortemente inspirado pelos Beatles, e por anos a música ‘Aninha sem Tesão’ foi cantada por jovens sem que esses se dessem conta de que, assim como o funk que citamos no início da nossa matéria, é uma música que normaliza o estupro.

A página Arrumando Letras, no Facebook, fez até um post sobre o assunto. Clique AQUI para ler.

7. Frejat – Mais do que Tudo (2016)

Frejat – Crédito: Leo Aversa

Você provavelmente já se deparou com prints de usuários masculinos do Tinder e outros aplicativos de relacionamento que colocam tantas exigências para se relacionar com uma mulher que faz as pessoas se questionarem se aquele homem quer uma mulher de fato ou uma boneca de plástico. E esse é o caso do eu-lírico da música ‘Mais do que Tudo’, do Frejat.

Eu quero que ela fale línguas e seja viajada/ Eu quero que ela tenha tudo e nunca ligue pra nada/ Uma princesa na mesa e uma fera na cama/ E mais do que tudo, eu quero que ela diga que me ama

Uma das mais recentes da lista, a música lançada em 2016 despertou críticas ao cantor, que rebateu-as dizendo que faltava interpretação de texto e senso de humor ao público. Em entrevista ao Portal G1, Frejat disse: “Eu queria saber qual mulher quer uma fera na mesa e um príncipe na cama. Acho que ela vai querer o mesmo que eu quero (…) As pessoas levam ao pé da letra. O mundo que estamos vivendo é cheio de cobrança. Eu não estou fazendo nenhuma pregação machista. Eu não estou falando que toda mulher tem que ser submissa. É o ideal tanto para um, quanto para o outro”.

8. Criolo – Vasilhame (2006)

Se há um artista da lista que aprendeu bem com os erros do passado, é Criolo, que não só aboliu a letra antiga dos shows, como fez questão de mudar a letra na regravação do disco ‘Ainda Há Tempo’, de 2006.

Na comemoração dos dez anos do disco, o rapper pegou nove faixas (a gravação original, de 2006, tinha 22) e relançou-as com novas produções. A letra original de ‘Vasilhame’ dizia “os traveco tão aí, ó! Alguém vai se iludir” e foi alterada para “o universo tá aí, ó! Alguém vai se iludir”. O rapper afirmou que usou o xingamento transfóbico na primeira composição por preconceito e desinformação.

Anos depois, em 2019, Criolo lançou o single “Etérea”, que como o próprio site do artista diz, é “uma ode à arte queer em todas as suas expressões e homenageia os artistas e intérpretes que diariamente lutam contra o preconceito e a ignorância”.

9. Racionais – Mulheres vulgares (1990) /Estilo cachorro (2002)

Outros que se desconstruíram com o tempo foram os Racionais MCs, que nos primeiros álbuns da carreira eram bem críticos ao comportamento das mulheres. Em ‘Mulheres Vulgares’ e ‘Estilo Cachorro’, os rappers colocam as mulheres como pessoas interesseiras que usam o corpo para subir na vida, pensamento que norteia muito o machismo estrutural da nossa sociedade até hoje.

“Fale o que quiser, o que é, é/ Verme ou sangue-bom tanto faz pra mulher/ Não importa de onde vem nem pra quê, se o que ela quer mesmo é sensação de poder” – Estilo Cachorro

“Seu jeito vulgar, suas ideias são repugnantes/ É uma cretina que se mostra nua como objeto/ É uma inútil que ganha dinheiro fazendo sexo/ No quarto, motel, ou tela de cinema, ela é mais uma figura vil, obscena/ Luta por um lugar ao sol, fama e dinheiro com rei de futebol!” – Mulheres Vulgares

Anos depois, os MCs do maior grupo de rap do Brasil baniu as músicas do repertório dos shows, por entenderem que não cabe mais esse tipo de discurso em hipótese nenhuma, muito menos na cena do hip hop que é tão inclusiva e que ganha a cada dia novos nomes femininos de peso.

Racionais MCs – Crédito: divulgação

10. Raul Seixas – O Rock das Aranha (1980)

Primeiramente, não estamos questionando a importância de Raul Seixas para a música, assim como não questionamos a de ninguém dessa lista, mas que o rockeiro sofreria um “cancelamento” por conta de sua letra em ‘O Rock das Aranha’ se esta fosse lançada hoje, isso é um fato.

E ainda bem, né? Já que apesar de parecer divertida, a letra é um tanto quanto homofóbica ao julgar o sexo entre mulheres como fetiche e/ou falta de homem.

Raul Seixas – Crédito: divulgação

O fato é que separamos aqui 10 apenas, mas a lista parece infinita, pois a história da música está recheada de letras ultrapassadas por serem preconceituosas demais. Qual faltou aqui? Você concorda com o posicionamento de alguns artistas sobre suas letras? Deixe aqui nos comentários!

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