quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Nada Pop

O punk nasceu Preto! Entrevista com a banda punk Punho de Mahin

Punho de Mahin no Hangar 110 – foto Lucca Miranda

Punho de Mahin, formada em 2019, e que atualmente conta com Natalia Matos no vocal, Camila Araújo na guitarra, o baixista Dú Costa e Paulo Tertuliano na bateria, é uma das bandas mais atuantes na luta contra o racismo no cenário musical. Como já exposto em suas redes sociais, o foco é “Resgatar a ancestralidade para mostrar a existência da resistência!”

Desde o início da banda, música, letra e posicionamento político permanecem unidos e de punhos cerrados. O que não deixa de ser uma característica já conhecida no meio punk, mas a banda não deixa de chamar atenção para esse recorte racial pois afinal, como Thaís Catão (guitarrista das bandas Tuíra e Kinderwhores) lembrou aqui numa outra entrevista para o portal, “é um estilo criado por negros, o Rock é Negro. E foi mais um estilo roubado, apropriado por brancos. Esse rock embranquecido, misógino, elitista pra cacete, não nos interessa. A gente quer o Rock que a gente criou e que temos o direito de fazer”, e você pode acessar a entrevista completa aqui.

Com o primeiro lançamento a caminho, é possivel conferir o trabalho da banda no Youtube. Atenção especial para os vídeos de Navio Negreiro e Dandara.

Recentemente a Natalia participou de uma das faixas do projeto Sangue preto. A faixa intro foi composta e gravada com participação coletiva entre ela, Bah Lutz (Bertha lutz), Josie Lucas (HAYZ) e instrumental da banda Derrota.

Sangue preto – Nossa luta contra o racismo, é uma iniciativa coletiva em formato de coletânea que contou com a contribuição de bandas, artistas, fotógrafos, selos independentes e pessoas envolvidas no meio hardcore punk, que de acordo com o release no bandcamp, “estão unidas na proposta de passar uma mensagem reflexiva sobre questões raciais, violência policial, homofobia e desigualdades sociais.”

Enviei umas perguntas para a banda, e fiquei com aquela sensação de que a gente ainda vai se esbarrar depois da pandemia. Pela urgência das pautas, pela vontade e necessidade de fortalecer laços e a ansiedade do disco novo.

Conta um pouco de como rolou o encontro de vocês para a formação atual. Fiquei pensando no quanto que o resultado das últimas eleições pôde ter sido um dos motivadores para a fundação da banda. Isso faz sentido?

Natália: A primeira vez que nos reunimos foi em novembro de 2018, logo percebemos que éramos quatro pessoas pretas querendo falar sobre as mazelas que a sociedade nos proporciona.
Para essa formação a escolha do Dú foi unânime. Ele já nos acompanhava em alguns shows e entrou em Novembro de 2019. A primeira formação foi composta por André no baixo.
Todos já faziam parte de outras bandas em que a contestação era arraigada. Com este desgoverno só aumentou a vontade de gritar.

Falem sobre a referência escolhida para o nome da banda

Natália: Na primeira vez que nos encontramos, todos vieram com a mesma idéia de referência para um nome. Tinha que ser algo que fizesse referência a uma mulher, uma revolta quilombola ou alguma revolução. Começamos a estudar diversas revoltas que ocorreram durante o período escravocrata, e encontramos na revolta dos malês e sua liderança: Luiza Mahin.

Na página de vocês no facebook, a frase que consta na apresentação da banda é “Banda punk AFROntando essa sociedade racista, classista e fascista!”. O que significa pra vocês ter uma banda de punk rock em 2020?

Cá: A questão de ter uma banda de punk rock em 2020 é que chegamos em um ponto que é impossível ficar em cima do muro diante de tudo que estamos passando. Se posicionar é o mínimo. A Punho é uma banda de punk rock e ainda por cima, formada por negros falando de sua própria luta e de suas vivências e de nossos ancestrais, temos consciência que assumir esse posicionamento e se expor em um país extremamente racista e elitista, governado por um líder com essas características, é de um peso muito grande.

Todes integrantes possuem uma extensa bagagem de outros projetos. Olhando para suas histórias dentro do circuito punk/harcore, fazendo um recorte racial e de gênero, vocês conseguem notar alguma mudança?

Acho que o ponto é a representatividade, quanto mais negros montando seus projetos e falando sobre o assunto, mais pessoas se sentirão à vontade para fazer o mesmo e assim iremos ganhando força.

Cá: Notei que de 10 anos pra cá a presença de mulheres no palco aumentou e tem ganhado sim o protagonismo, ainda falta muito, mas notei uma melhora nesse ponto. A questão do negro na cena ainda precisa ser muito discutida e é um assunto muito pouco abordado. Acho que o ponto é a representatividade, quanto mais negros montando seus projetos e falando sobre o assunto, mais pessoas se sentirão à vontade para fazer o mesmo e assim iremos ganhando força.

Vocês tiveram uma agenda de shows movimentada antes da pandemia, existe algum evento que marcou a banda de alguma forma?

Cá: Todos os shows foram muito importantes na trajetória da banda, mas particularmente gosto de mencionar o show no evento “Mulheres Livres ato VI”, na Associação Cultural Cecília, que foi muito inclusivo tanto por parte das apresentações quanto ao público.

A pandemia tem intensificado as desigualdades sociais, e não é diferente quando olhamos para o cenário musical. Apesar disso, bandas e artistas independentes têm conseguido manter suas produções. Como tem sido pra vocês?

Cá: Estamos tentando produzir cada um em suas casas para manter o ritmo, porém é muito mais difícil todo o processo. Moramos cada um em um extremo e temos consciência que o deslocamento agora não é algo favorável diante de uma pandemia. Mas diante disso seguimos expondo e trocando novas idéias para as futuras ações da banda no pós-pandemia.

Eu acompanhei o lançamento dos últimos dois vídeos, intitulados “Navio Negreiro” e “Dandara”.Como foi o processo de produção?

Dú: Logo ao entrar no banda recebi da Natália um áudio com a música Dandara cantada à capela. Uma melodia bem bacana que me surpreendeu, pois foge dos padrões do estilo. Me disse que é uma letra de 2017 e que a imaginava como um “blues”, com sentimento e evolução crescente. É um som com grandes possibilidades, fiz algumas versões, mas todas me remetem à ideia de ancestralidade, cultura regional, terra batida, natureza, percussão, alinhada às distorções da guitarra. Mas o som que você ouviu não é o definitivo, temos mais surpresas pra ela quando conseguirmos voltar aos ensaios.
Natália: navio negreiro escrevi em 2017 com ideia de apenas declamar em saraus, quando formamos a punho enxerguei a possibilidade de musica-lá, então o André (primeiro baixista) criou uma harmonia que encaixou perfeitamente.

Quais são seus planos para esse ano?

Cá: O começo da pandemia barrou o plano principal de gravar o nosso primeiro Full álbum, porém têm surgido várias oportunidades de divulgar nosso trabalho. Gravamos um split que será lançado em breve pelo 1º andar Studio com a banda Sendo Fogo, vamos iniciar a gravação do Full álbum essa semana e por fim, estamos trabalhando no relançamento do zine EMBATE E ANCESTRALIDADE.

Vou finalizar pedindo para vocês indicarem bandas/artistas/projetos que têm dominado suas playlists durante a pandemia.

Cá: Da minha parte o que tenho escutado muito durante a pandemia é Elza Soares, Nação Zumbi e recentemente Betty Davis (indicação do Paulo inclusive). Gostaria de indicar um projeto aqui da minha região chamado Tríade Ori, com certeza merecem destaque.
Natália: a minha playlist é uma curva sinuosa vai de afoxé até hardcore. Tem uma banda de Afrobeat composta de mulheres chamada funmilayo.

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Sobre o autor

Lety Trash

Lety é editora do Nada Pop, além de guitarrista na Trash No Star, fundadora e produtora na Efusiva Records e MOTIM, um centro de cultura feminista no Rio de Janeiro.