segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Nada Pop

Black Days e o cyberpunk em um ano que não terá fim

Black Days - Foto: Felipe Vieira

Black Days – Foto: Felipe Vieira

O jornalista Zuenir Ventura é autor de um dos livros mais importantes da história nacional. Na obra “1968: o Ano que não Terminou“, Zuenir retrata os fatos mais marcantes e conturbados daquele ano no país e no mundo, bem como suas consequências e impactos na sociedade.

O livro, em tom narrativo, transcorre em momentos políticos e culturais, mas principalmente o horror de uma das tragédias de nossa história com a ditatura militar e a promulgação do AI-5. Naquela época, muitos jovens foram às ruas e boa parte, como sabemos, nunca mais retornou para as suas famílias. Muitos artistas também são referenciados, principalmente pelo seu combate ao regime militar.

Mais de meio século depois, ainda vivemos resquícios daquela época. Resquícios que se tornam cada vez maiores nos últimos anos, onde a guerra da desinformação, tomada de poder por grupos conservadores de extrema direita e até o surgimento de uma pandemia estão criando uma sensação de terror constante na sociedade. Nada é realmente verdade e todas as bases científicas são alvo de contestação diametralmente opostas as questões já provadas há séculos.

Podemos dizer que 2020 será um ano que não terá fim, ainda vamos vivenciar a falta de uma cura para a Covid-19, armações eleitoreiras com possibilidades de vacina serão usadas como arma política e as fake news serão criadas de forma ainda mais afrontosas a realidade. Visto o deepfake, colocando rostos e vozes em momentos inexistentes e nos fazendo duvidar da realidade de forma ainda mais intensa. E nem precisa ser alguém com habilidades técnicas, aplicativos em lojas virtuais de celulares já oferecem essas “brincadeiras” de forma simples e barata.

Com tudo isso, a arte se transforma em um refúgio mental e cultural, enfrentando de peito aberto as aberrações sociais ampliadas pela confusão, raiva, inveja e ondas de angústia e medo. São ensaios sobre a cegueira, parafraseando Saramago, que artistas como a Black Days realizam. Músicas que trazem um sentido amplo sobre o significado de distopia, usando tecnologias como synths e programações para manter a sanidade no meio do caos.

No single “Sangue e Alma”, que fará parte de um EP com quatro faixas, a banda se utiliza do cyberpunk e busca aferir o peso dos excessos de informação, além de colocar em perspectiva as frustrações e desejos, sendo a música o catarse de todas essas percepções. O interessante nesse novo projeto da banda é que cada single virá acompanhado de um clipe.

A experiência no audiovisual de “Sangue e Alma” também traz uma experiência interessante. A impressão é que hieróglifos estilizados foram criados para simular a morte da comunicação como a conhecemos, pois no antigo Egito esse tipo de escrita era utilizada – muitas vezes – para marcações em túmulos. Não temos como saber ao certo se foi realmente esse o intuito da banda em conjunto com Felipe Vieira e Daniel W., respectivamente diretor do clipe e diretor de arte. As luzes de neon com as roupas protetoras e máscaras podem simbolizar não só o nosso momento atual, mas a sociedade tóxica que vem se envenenando mais e mais com a desinformação, tentando enxergar e sem saber o quanto estamos todos cegos.

São apenas interpretações, mas de de acordo com a banda o “plano original era tentar fazer um som de festa, cheio de positividade e prospectando um futuro cheio de possibilidades infinitas rumo a nossa evolução musical, tentando chegar nos lugares que ainda não passamos. Porém, com o advento da covid-19 e todas as consequências da pandemia, tornou todo esse cenário que parecia favorável em uma realidade distópica, cheia de incertezas e inseguranças”.

Agora ouça a banda e tire as suas próprias conclusões. Todos os links do grupo estão linkados nesse texto. Aproveitando, o Nada Pop está com uma campanha no Apoia-se, contamos com o seu apoio para continuar esse trabalho. É possível contribuir com qualquer valor a partir de R$ 1 real. Junte-se a nós: https://apoia.se/nadapop.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop