quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

#052 – Os 10 álbuns caipira punks de Fred Di Giacomo (Bedibê, Praga de Mãe, escritor e jornalista)

Fred Di Giacomo “ao lado” dos Ramones. Crédito: arquivo pessoal

Fred Di Giacomo é escritor, músico, jornalista e game designer entre outras cositas más. Assina a coluna “Arte fora dos centros”, no UOL, onde destaca artistas alternativos fora do eixo Rio – São Paulo. Seu primeiro romance “Desamparo” (Ed. Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Em 2020, Di Giacomo co-organizou a antologia Pandemônio – Nove narrativas entre São Paulo e Berlim.

Caipira punk, ele começou na imprensa alternativa, em 1997, quando tinha 13 anos. Na época editava um fanzine na pequena Penápolis, noroeste paulista. Foi nesse mesmo ano que começou a se interessar por música e a sonhar em montar sua primeira banda de punk/hc, a Praga de Mãe. Entre fanzines, organização de festivais, poemas marginais e um programa de rádio tocou, também, nas bandas Bedibê, Milhouse e Cuecas Rosas.

Hoje, Fred mora em Berlim onde é doutorando em literatura e cultura latino-americana estudando as autoras e autores do interior do Brasil que têm descolonizado nossa literatura.

Para não chover no molhado e citar as bandas que todos amamos (Ratos de Porão, Dead Kennedys, Stooges, Ramones, Garotos Podres, Street Bulldogs, Cólera, Racionais, Nação Zumbi e Sepultura, basicamente), Fred propôs listar suas influências vindas das bandas pouco conhecidas de sua região natal – o noroeste paulista. A maior parte delas, ele ouviu ao vivo entre os anos de 1999 e 2005. A lista serve, também, como um registro da cena alternativa de cidades como Birigui, Penápolis, Araçatuba, Rio Preto, Mirassol e Bauru.

Prontos para uma pequena história punk do velho oeste paulista em 10 discos?

1 – Uma discografia punk DIY, Desnutrição, 2014 – Mirassol/SP

Surgida na pequena Mirassol, a Desnutrição começou sua jornada em 1989 influenciada pelas bandas anarcopunks brasileiras e pelo hardcore escandinavo. Participaram da antologia japonesa No Fate IV, com a música “Mundo Frio”, e tiveram seu clássico “Orgulho Americano” regravado pelos reis do grindcore belga Agathocles. Esse “Uma discografia punk DIY” reúne todas as demos lançadas pela banda ainda com o vocalista e compositor Evandro Locão. A capa do disco é de um dos artistas mais talentosos do underground sertanejo, o grafiteiro e fanzineiro Bylla.

2 – Resistência Anarquista, Restos, 1994 – Birigui/SP

Uma das bandas mais influentes e importantes da cena punk caipira, a Restos fazia parte do G.A.L.O. (Grupo de Ações Libertárias Organizadas), junto às bandas Stupid Patriotismo, Repúdio e Denúncia. A faixa título desta pepita do it yourself tornou-se um hino libertário e é tocada por bandas do oeste paulista até hoje. “Resistência Anarquista” também fez parte da antologia japonesa No Fate IV. Outro destaque é “Cidade Industrial”, retrato da operária Birigui.

3 – Circus Music for clowns like us, Swear – Rio Preto/SP

Liderado pela baixista Marina e pela guitarrista Sara, o trio Swear (que contava, ainda, com Fabio na bateria) era dos mais criativos e competentes da cena de Rio Preto, a Califórnia caipira dos anos 90. A Swear tinha influências de garage rock nas guitarras e de punk melódico nos vocais. A letra de “Meu primeiro amor” (o hit do grupo) é hilária e a melodia de “Mom Says” com sua guitarrinha alegre não desgruda da cabeça. Ao lado de Grito Feminino, Diskusteen e da segunda formação da Menstruation era das poucas bandas locais com mulheres na linha de frente.

4 – Tumulto, Tumulto, 2000 – Birigui/SP

Ser punk no calor de mais de 40 graus do interior paulista, dominado por sertanejo e agronegócio, não era fácil. Ser punk e querer misturar música brasileira e rap no seu som era heresia ainda maior. Formada por ex-membros das seminais Restos e Denuncia, a Tumulto era uma espécie de Nação Zumbi hardcore e, com sua mistura de psicodelia e agressividade, fazia um dos sons mais originais do começo dos anos 2000.

5 – Roça Elétrica, Mercado de Peixe, 2003 – Bauru/SP

Aqui eu faço uma pausa nas bandas punks do noroeste, para lembrar do excelente “Roça Elétrica” do Mercado de Peixe, banda formada em Bauru, nos anos 90. Puxado pelo hino “Brasil Novo”, o disco misturava viola caipira, catira e batucada, com guitarras pesadas, vocais hip hop e programação eletrônica. Influenciada pela estética do mangue beat, esta bolacha matuta é boa do começo ao fim.

6 – Inverted Hits, Autoboneco+<, 2018

Também de Bauru, a Autoboneco+< foi fundada como Bonequinho, em 1993, pelo herói do underground local Aran Carriel. Na época a trupe incluía também a vocalista e baixista Amandla. Com uma extensa discografia calcada no “faça você mesmo”, o Autoboneco+<, que define-se como “pós-punk de improvisação noise”, já excursionou pela Europa e Argentina. Este disco tem momentos punk, folk, industriais e de agradável anti-música. E, provavelmente, a banda de rock mais importante da cidade.

7 – No Homophobic, Stupid Patriotism/Agathocles, 1998 – Araçatuba/SP

Araçatuba, a calorenta terra do boi gordo, deve muitas de suas iniciativas underground aos irmãos Téo e Válter Alves (este último, nos vocais da banda até hoje). O Stupid Patriotismo é uma performática banda de noisecore que sempre muda de nome, tendo sido fundada como Menstruation. Valter também edita o zine Comando Vermelho, foi membro do G.A.L.O., fundador do espaço cultural Quilombola, um dos poucos squats da região, e edita suas putopoesias de forma independente. “No Homophobic” é um split com os belgas do Agathocles, que inclui “Céu por cobertor” e “Cosmopolita”

8 – Caipiras Punks, Praga de Mãe, 1999 – 2019 – Penápolis/SP

Comecei meu envolvimento com a cena alternativa editando o zine Afrociberdeli@ no mesmo ano em que eu e meu irmão (Gabriel) inventamos uma banda “imaginária” chamada Praga de Mãe, ainda sem nenhum instrumento e influenciados por Sepultura e Ratos de Porão. Em 1999 montamos o Andarilhos, rebatizado, em 2001, como Praga de Mãe e com foco em um punk/hc com humor ácido e influências de rock garageiro. O Praga de Mãe e a cena punk caipira foram minha escola de DIY, de música, de jornalismo, de política,de vida. Foi meu primeiro contato com questões como a luta LGBTQI+ ou o decolonialismo. “Caipiras Punks”, um registro bem rústico, mistura gravações caseiras da época (2001) com regravações que eu fiz em casa. Inclui hardcores ultra rápidos (“Paulo Guedes”) com sons mais “melódicos” (“Não nasci pra essa cidade” e “Caipiras Punks”). Em breve vamos colocar no ar “O DeMo”, um retrato crossover dos anos Bolsonaro.

9 – Consciência & Respeito, Academic Worms, 2012 – Mirassol/SP

Academic Worms é a banda de grindcore do Miro, fundador do Desnutrição. Na ativa desde 1994, o grupo de Mirassol tem raízes no MAISP (Movimento Anarquista do Interior de São Paulo) e já gravou um split com o Agathocles, a mais caipira banda da Bélgica. O interessante de “Consciência & Respeito” é que ela abre com “Canção de amor para @s Guerrilheir@s que partiram I” balada de guerra anarquista, bem diferente das faixas ultra rápidas e agressivas que marcam o trampo dos caras.

10 – Demo, Diskusteen, 2001 – Rio Preto/SP

Liderada pela baixista e vocalista Renata Minami, a Diskusteen deixou sete hardcores rápidos e puxados por musculosos riffs de guitarra registrados em sua única demo. Suas canções melódicas vão do emo chorão de “Só sofro” à crítica porrada de “Menino de Rua” – o hit do grupo. A banda de Rio Preto era contemporânea de uma geração que, entre o final dos 90 e começo dos 2000, incluía Caso Geral (na ativa até hoje), Xios Porks, Delinquentes e Nevrose (a mais popular na cidade)

Documentário Caipiras Punks

O Fred conta um pouco mais sobre as bandas em uma matéria especial em sua coluna no UOL. Para ler basta clicar AQUI. Além disso, é possível assistir depoimentos e cenas raras dessas bandas em um teaser do documentário Caipiras Punks. Assista o teaser abaixo:

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Redação Nada Pop

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