quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Nada Pop

Em novo single, Pata experimenta, propõe e avança em direção às trocas, ainda que em solidão

Banda pata - Foto por Priscila Santos

Banda Pata – Foto por Priscila Santos

Artigo assinado por Bruna Vilela

Com três anos de estrada e encerrando o ciclo de divulgação do elogiado disco de estreia, “Shit & Blood”, o trio formado por Lúcia Vulcano (guitarra e voz), Beatriz Moura (bateria) e Luis Friche (baixo) apresenta o lastro de uma produção urgente e consistente e, mais do que isso, ilustra uma pulsão de movimento.

Sabemos que é um baita clichê falar de “mudança de sonoridade”, “exploração de novas estéticas” enquanto grandes passos disruptivos e propulsores no caminho produtivo de qualquer banda. Essa não é – e não deveria ser – uma grande questão para a banda sobre a qual já escrevi aqui no Nada Pop.

Mas o que é válido de pontuação, a despeito dos clichês gerais na música independente e nas redundâncias em torno da narrativa da banda, é sua coragem em emprestar registros explícitos a questões tidas como angustiantes/íntimas, em experimentar sonoramente e fielmente com o que deseja e a sua consistência enquanto aposta nesses movimentos.

Sem a necessidade de firmar etiquetas do que constitui o grupo ou seus próximos passos, a Pata tem mantido uma frequência estável de ritmo criativo com diferentes produções desde 2019. Após o lançamento de “Shit & Blood” e de seus clipes de divulgação no ano passado, em que a sonoridade da banda teve seu debute delineado pelo punk, o hardcore e o grunge, o trio recentemente lançou o single satírico “blsnr pnt mrch”, que se divide entre as batidas de funk e as guitarras ruidosas em meio às colagens de frases do Presidente Jair Bolsonaro.

Agora, a banda apresenta, em premiere pelo Nada Pop, o novo single “Casa de Gelo”, que conta com colaboração do artista Sentidor.

Capa do single “Casa de Gelo”, assinada pela artista Hanna Halm.

Com uma bela arte de capa assinada pela artista Hanna Halm e produção conjunta de Pata e Sentidor, “Casa de Gelo” é lançada hoje pelos selos Geração Perdida de Minas Gerais e Efusiva Records e já está disponível em todas as plataformas de streaming.

Percorrendo o campo sonoro indie e se aproximando um pouco mais do rock triste que marca muitas das produções da Geração Perdida de Minas Gerais, o novo single é uma faixa concisa e introspectiva que, ainda que perpasse as experimentações eletrônicas, não abandona as guitarras imponentes já características da Pata.

Com uma letra simultaneamente densa e direta, sem rodeios sobre o que se deseja dizer – uma das marcas já características da Pata -, a composição foi feita há alguns anos pela vocalista Lúcia Vulcano, e se encaixa na proposta atual da banda de colaborar com diferentes artistas e deixar se levar instintivamente em produções pontuais que explorem novos caminhos estéticos, sem diretrizes lineares ou pré-definidas.

Conversando com a Lúcia, com quem já dividi o palco algumas boas vezes, ela me explicou o processo de gestação da faixa:

“Não foi pensado que seria uma virada estética ou introdução de uma nova sonoridade. Com tudo o que vem acontecendo, estamos nos deixando levar por produções pontuais e sem pretensão de ser um momento de definir como será o som da Pata a partir de agora. Essa música é bem antiga, eu compus ela quando eu tinha uns 23 anos e em um certo momento esqueci dela. Revisitando meus arquivos, me lembrei que ela existia e quis experimentar tocá-la. Mostrei pra Bê e o Lulu, e eles acharam uma boa ideia. Achamos que iria se encaixar perfeitamente com o trabalho do Sentidor e chamamos ele para fazer uma participação especial.”

Sentidor, artista também mineiro e já conhecido por suas narrativas experimentais em camadas de beats e ambiências eletrônicas, realmente assinou na faixa – além da mixagem e masterização – elementos que complementam com relevância a estrutura e ampliam o espaço dessa Casa de Gelo.

A montagem rítmica torta do beat congrui seu caminho com as guitarras que preenchem gradualmente – limpas ou sujas – a vereda instrumental em consonância com a letra. E, mesmo que o pulso rítmico não convencional, que é cama para os versos, nos dê a impressão de uma métrica também não convencional, a melodia vocal se mantém pegajosa, acessível – um chiclete que a Pata já mostrou outras vezes fazer tão bem.

Lúcia brinca que poderia chamar a música de “punk triste”. O single, gravado de forma caseira, chega acompanhado de um lyric vídeo produzido pela própria vocalista e compositora e não tem a pretensão de ser a chamada para um próximo álbum de estúdio completo. Distante do que os integrantes do grupo já entregaram em EP ou disco, “Casa de Gelo” celebra e simboliza a exploração de novas sonoridades e o chamado para o contato, para as trocas.

O lyric vídeo você confere logo abaixo:

Às vezes se você viesse, não seria tão frio aqui/ Se sua pele queimar com o gelo, não se preocupe, eu cuido de você

Em uma letra que assume de forma tão direta a solidão e a angústia, a sua premissa, nos versos finais, se mostra não como uma proposta de deletar esses sentimentos, mas de encontrar novos confortos mesmo vivendo com eles. Não se trata de uma saída da casa de gelo, mas de estabelecer e cultivar afeto ainda que em meio a – e enxergando de frente – paredes friorentas.

E a Pata concretiza isso não só na sua narrativa musical como nos processos práticos que envolvem a sua produção, como é o caso da parceria com Sentidor e das outras colaborações que estão em planejamento do grupo.

Um novo single também com participação especial já está em fase de produção e pode ser esperado para os próximos meses. Além disso, ainda para o mês de Setembro, está previsto o lançamento de um cover de Nina Simone que irá integrar a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”.

No primeiro semestre de 2020, o grupo já havia gravado uma versão de “Bactéria Filha da Puta”, de MC Ray Ban, para a coletânea, mas o fonograma teve que ser retirado do Bandcamp do projeto solidário a pedido do empresário do artista em questão.

A despeito disso, a Pata continua mostrando na prática a famosa ~correria~ com uma gaveta cheia de passos concretos a serem dados e que emprestam calor aos nossos sentimentos mais difíceis guardados em casa em qualquer cotidiano.

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Redação Nada Pop

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