sábado, 26 de setembro de 2020
Nada Pop

Três tiros simultâneos de resistência: Asfixia Social, Intervenção e Anti-Everything

Acho que podemos dizer que, historicamente, todas às vezes que a catástrofe social avança o primeiro front que se levanta é o de resistência nas artes. Quando o inaceitável se empodera, a insatisfação contra a injustiça floresce e o primeiro lugar que ela se manifesta é pelos gritos nas produções artísticas. A arte é a representação do que acontece por dentro da sociedade, traz a visão microscópica do sentimento das pessoas que nenhum outro campo do conhecimento atinge.

Antes da revolta explodir e se transformar em ação e organização, ela borbulha nas letras das músicas, nos muros, nos quadros, nos livros e na poesia. Como o nosso assunto aqui é música, e é o punk e a cultura de rua que é a parte que tenho mais familiaridade, fica a missão aqui de apresentar três álbuns que saíram quase simultaneamente nesse segundo semestre desse ano macabro.

Não tem nada que comprove minha esperança, mas minha fé de ateu acredita que essa grande quantidade de lançamentos de discos ótimos é um presságio de que a bomba vai explodir em breve e a revolta de toda parte oprimida vai sair com sangue nos olhos pelas ruas desse mundo. Como dizia o Lokaut, “não é tempo de poesia”. É tempo de música de combate!

Anti-Everything – Fowl Fete

No dia 27 de julho recebo a notícia do disco novo dos camaradas de Trinidad e Tobago! O poder do Anti-Everything quando se coloca como “Hardcore Pós-Colonial” e “Caribe Punk” bate forte a nós que estamos acostumados com a injustiça brasileira causada por processos históricos coloniais parecidos.

O disco se chama ‘Fowl Fete’ (festa das Aves) e trata-se de uma resposta da banda ao processo eleitoral do país que acontecerá neste ano de 2020. O nome do disco foi baseado em um ditado caribenho que diz “Baratas não têm direito à Festa das Aves”. Um ditado em que afirma que as classes populares devem reconhecer seu lugar, seu papel social e não devem passar dos limites impostos pelo poder (representado pelas aves).

O disco segue o conceito do nome do começo ao fim. A capa, as letras de cada som são como capítulos de um livro que vai chegar a uma conclusão final. As escolhas estéticas misturam a agressividade do hardcore, com distorções que em certos momentos lembram o post-punk e o reforço da identidade com ritmos caribenhos em diversos momentos. Nada no disco é colocado por acaso, recomendo muito ouvir ele com atenção. Dê o play, aciona o tradutor e preste atenção na capa! Qualquer semelhança como o que vivemos não é mera coincidência.

Intervenção – Ela é de Luta

Um pouco do Mato Grosso do Sul, um pouco de São Paulo, dia 1° de agosto saiu o disco novo do power trio punk Intervenção! Formado pela Binha, Lipe e Wanessa que juntos já tocaram em mil bandas do Brasil só podia sair um disco como o ‘Ela é de Luta’. É o tipo de disco que joga a energia e a autoestima lá em cima! Bota o fone e sai na rua (de máscara e álcool gel) que ele espanta qualquer depressão que essa conjuntura impõe na gente.

É um disco necessário para lavar a alma num momento como esse de pandemia e isolamento. A música de trabalho é “Ela de Luta” é uma homenagem à Dona Damiana, cacica da retomada Apyka’i, liderança na luta dos Guaranis e Kaiowás, situada em Dourados, Mato Grosso do Sul. Fica o destaque para “E se fosse com você?”, com a jogada dos vocais femininos chamando na ideia contra o feminicídio que no Brasil possui números cada vez mais absurdos, e com música “Tempo e Dinheiro”, que faz uma crítica sutil e destruidora ao mesmo tempo ao capitalismo e a subjetividade neoliberal que sobrevoa nossos tempos.

Para quem curte punk rock é o tipo de disco que não vai sair do play por uns bons meses.

Asfixia Social – Sistema de Soma

E direto do ABC Paulista (SP), o Asfixia Social vêm anunciando em pequenas doses o lançamento do seu novo álbum há um tempo. E por uma feliz coincidência, lançou também o disco completo no dia 1° de agosto, junto com Intervenção e o Anti-Everything.

Não é de hoje que considero o Asfixia Social uma das melhores bandas da atualidade. Aprofundando a fórmula do disco anterior ‘Da rua pra rua’, misturando todas as vozes da rua (rap, punk, ska, dub, hardcore, metal, etc) o ‘Sistema de Soma’ traz diversas participações especiais que vão dos clássicos do punk rock (Mao, do Garotos Podres) aos clássicos do rap (GOG), passando por participações internacionais (El Cepe).

O nome “Sistema de Soma” não é a toa. Já tá no ar o clipe da música “Raízes Fortes” recomendo começar por ai!

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Sobre o autor

Suna

Suna é um dos editores do Nada Pop.