quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

Nietts: Muitas vezes é o nada que nos faz sentir muito

Nietts – Foto: Fernanda Gamarano

Caos, medo e solidão. Pegue esses ingredientes e acrescente frustrações, discos de Joy Division, Siouxsie and the Banshees com xícaras de chá da Cabaret Voltaire. Pegue o filme “Senhoras e Senhores: As Fabulosas Manchas”, despeje ao menos 1,5 litro de álcool em sonhos tristes, unte a forma com rímel borrado, jaquetas cheias de rebite prata e use a poluição das chaminés de polos petroquímicos de regiões metropolitanas para criar tudo o que você precisa ouvir em manhãs cinzas: Nietts.

Mas a pergunta que eu gostaria de fazer é a seguinte: e se toda essa ausência de sentido pudesse se tornar arte? E se descobríssemos um jeito de evitar a tristeza e correr contra a maré, mas sem se sentir deslocado e em constante confusão? E se pudéssemos fechar os olhos e ouvir o barulho de nossas almas? Provavelmente estaríamos dançando com a noite e usurpando a vida para o nosso bel-prazer. Ouviríamos faixas como “Bad Times” e “Fire In Your Eyes” e instintivamente pularíamos de nosso precipício particular, caindo em fossas abissais de fogo e fúria.

Allan – Foto: Fernanda Gamarano

Ou, talvez, nos tranquilizaríamos em uma camisa de força mental, curtindo a sonância de “Soy Lo Que Soy”, bebendo vinho barato em copo americano (ou soviético, se preferir), sentindo o passar de nossas vidas escorrendo pelas nossas mãos sujas de incertezas.

Ainda sim, talvez, de qualquer forma, seríamos uma flare no meio da noite, exalando desejos e dançando como loucos. Um “Antihero” de mentira, buscando verdades impossíveis em um inferno de lugar, para um inferno de vida que transformamos ao logo de nossa existência no único ambiente possível que conseguiríamos viver: arte.

É na arte que muitas vezes nos encontramos, para muitos é um reencontro. Como disse, ou como entendi, de André Guimarães.

“Há 4 ou 5 anos eu tive um dos piores momentos da minha vida, com uma depressão profunda. Eu lembro que fui demitido da minha antiga escravidão, ou trabalho, se preferir. Eu não fiquei em depressão porque fui demitido, mas a demissão foi decorrência de uma vivência de trabalho, junto com outras coisas que eu vivi na época. O que eu quero dizer é que em decorrência disso eu fiquei 5 meses sem fazer nada, por opção, mas também necessidade. Consumindo arte, tristeza e reflexão. E me apego na arte, sabe? Porque a arte é feita pra falar com você. É feita pra falar sobre aquele pensamento que às vezes você não expõe explicitamente. Uma expressão que tem conectividade com o outro lado, do artista para o consumidor. E isso é maravilhoso porque preenche a identidade do artista e ampara quem consome a sua arte. É encontro”.

“Então não põe nada”

Conheci o André em um desses rolês de shows, ainda com a banda Muff Burn Grace. Sei lá, nunca fomos tão próximos, mas o admirava como um ótimo guitarrista. Mas a música é assim, nos conecta de um jeito meio doido, sem muito sentido ou explicação.

Mas voltando a Nietts, que se pronuncia “níts”, o trio formado por Allan (bateria), André (guitarra) e Luiz “Zezito” (baixo e backing vocal), nasceu em fevereiro de 2019, com influências do pós-punk, rock alternativo e “músicas de pista”, como disseram. Dessa união surge o EP Disco Inferno.

“A Nietts é algo que eu queria fazer há muito tempo. Essa sonoridade de pista, com umas pitadas de tudo mais diverso que eu já ouvi. A sonoridade de pista não tem um gênero específico, mas uma vibe que pode variar em muita coisa. Disco e Punk. É como eu falo da música triste, que varia entre Cartola e Silverchair. Isso representa muito pra mim, porque eu gosto de música triste e de pista. Eu gosto de dançar e ouvir a tristeza lírica dos Smiths, ao mesmo tempo. Eu queria Tim Maia e Jeff Buckley na mesma coisa”.

Luiz “Zezito” – Foto: Fernanda Gamarano

O Disco Inferno foi gravado em janeiro de 2020, no Caffeine Sound Studio, com produção de Kleber Mariano e Andre Leal, ambos do Estúdio Jukebox, lá de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Além do EP, lançado no mês de julho, a banda lançou um clipe para a música “Bad Times”, produzido pelo Allan (batera).

Sobre o nome da banda, André conta que depois de dias procurando, sem sucesso, porque todos os nomes que você pode imaginar já tem alguma banda no mundo usando, o Allan virou e disse: “então não põe nada”. Mas não pense que foi fácil assim depois disso. “Nada já existe, para variar. Aí procuramos em outras línguas. Niets é ‘Nada’ em holandês. Também já existe. Para não desistir de ter um nome pra banda, estilizamos com mais um T, então ficou Nietts”, diz André.

O sentido da vida

No clipe de “Bad Times”, o grupo conta que a ideia é passar para as pessoas algo que quase todo mundo viveu na pandemia, assistindo seus próprios demônios e mergulhando em seus pensamentos mais obscuros.

A Nietts chegou a fazer dois shows, ambos no 74 Club, em Santo André (SP). Um em dezembro de 2019 e, outro, em fevereiro de 2020. O segundo (e último) show foi a despedida do Zezito, que se mudou para Rio do Sul, em Santa Catarina. A banda chegou a ter uma baixista substituta, mas devido ao momento da pandemia, não ocorreram ensaios ou sequer uma reunião com ela. Por este motivo, o Zezito ainda segue como o baixista da Nietts, até que haja perspectiva de ensaios ou shows.

“Minha trajetória musical vem de Breeding (Grunge/Punk), Buzz Factory (Proto Muff Burn Grace, com veia mais “Forgotten Boys”) e Muff Burn Grace (Stoner/Garage Rock). Tive outros projetos, mas nem vem ao caso. E com isso, em passado distante, bandas cover de Nirvana e Alice In Chains. Com 15 anos eu entrei na Led Slay, e eu lembro como se fosse hoje, a sensação de ‘minha vida é isso aqui’. Eu entendi que eu queria arte, que eu queria música. E ao mesmo tempo a sensação de encontro com certa rebeldia. O Rock se perdeu no conservadorismo, mas a veia é essa, o encontro com a inconformidade social que vem de você. Eu continuo com isso porque é o sentido da minha vida. O sentido da vida não é financeiro. Eu tenho um trabalho “ganha pão”, mas quantas pessoas são felizes fazendo algo ‘artístico’ e ganhando pão? Aí elas têm que fazer outras coisas, que geralmente não gostam, pra pagar as contas, morar, comer…”, encerra André.

Para ouvir Nietts, recomendo que o faça no volume mais alto que puder, de preferência em um lugar seguro, para evitar acidentes físicos. Se puder, dá uma lida nisso aqui depois: “Os três tipos de rock“.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop