sexta-feira, 13 de novembro de 2020
Nada Pop

Nas redes sociais você não é o sujeito, você é o produto

Nas redes sociais você não é o sujeito, você é o produto

A polêmica sempre está no topo dos trend topics – Foto: Reprodução

Ultimamente tenho me perguntado, e acho que muita gente também deve ter a mesma dúvida – nossa geração treta entre si mais por conta das redes sociais ou todo mundo sempre tretou igual com a diferença que agora as brigas ficaram mais visíveis porque são publicadas? Essa dúvida acontece porque o volume de conflitos na internet cada vez mais me parece caótico e nunca para.

Sempre tem alguém xingando alguém nas timelines, e quase sempre as brigas são entre pessoas ou grupos com alguma proximidade (espacial, ideológica cultural, etc). Seja por motivos da vida privada, de grupos que fazemos parte ou por questões de política internacional. Desde a criança síria encontrada morta na praia até uma frase escrita sem pensar, desde a escolha pessoal por um estilo estético até discussões sobre eventos históricos, é muito fácil a internet criar desavenças que nunca mais são resolvidas. Todo mundo tem uma história de familiares que nunca mais se falam depois de uma eleição.

Cheguei a uma conclusão parcial de que é um pouco de cada coisa. Para investigar os conflitos humanos em uma escala reduzida daria um baita trabalho e uma habilidade de pesquisador científico que eu não tenho. Mas para arriscar falando sobre minha percepção sobre o papel das redes sociais nisso é uma missão que dá pra tentar abraçar.

Pegando um pequeno exemplo das culturas de rua, após 3o minutos no facebook basicamente tenho a percepção que todo mundo se odeia, e que estamos divididos em mil fragmentos em que cada grupo sempre tem algo a abominar do outro. De forma prévia, às vezes sem as pessoas nunca terem se visto antes. Em um momento de reflexão notei que quando estamos na rua, no trato pessoal, esse ritmo de conflito frenético e bate-boca paranoico não acontece como nas telas dos aparelhos eletrônicos. Porque isso acontece?

Comecei a pensar que essas respostas podem estar ligadas à natureza do que as redes sociais se tornaram quando passaram a ser dominadas por poucas grandes corporações com bilionários com cada vez mais poder político à frente. Se em um primeiro momento ela ajudou em um maior acesso à informação e ao estímulo de formação de redes de contatos, num momento posterior ela restringiu esse nosso acesso ao conhecimento a pequenos nichos e destruiu essas novas redes que surgiram e também as velhas redes de contatos que já existiam entre as pessoas.

Ou seja, os algoritmos nos fazem acessar sempre o mesmo conteúdo, e a alienação ao nosso próprio mundo faz criarmos conflitos e inimizades que não tínhamos. E depois de refletir e ouvir os críticos, ficou mais nítido que essa característica de desagregação é uma das consequências das estratégias criadas pelas corporações do Vale do Silício que controlam as redes sociais para aumentar seus lucros e construir cada vez mais poder político em escala global. E que estratégias são essas?

Nós, os usuários das redes, não somos como imaginamos, os sujeitos consumidores, mas sim o produto vendido pelas empresas. A engenharia das redes não são criadas para contribuir com as relações sociais, mas sim para colher a maior quantidade de dados de nossas vidas possível para vender a quem queira comprar (políticos, empresas, etc). O nome ideal para essas plataformas não deveria ser “redes sociais” mas sim “colhetora de dados”. Mas é claro que isso não nos seduziria a criar um login, então foi necessário a publicidade fazer a mágica.

O modelo de negócios de Zuckemberg (criador do facebook) e companhia, é nos manter o maior número possível de tempo navegando em suas telas interagindo com o maior número de situações criadas em seu interior. Um exército de psicólogos, linguistas, designers, executivos, etc., são contratados para criar um ambiente que prenda nossa atenção o maior tempo possível. Exploram aspectos da natureza humana e construções sociais como mobilizadores. Por exemplo, condicionam nossas ações com recompensas, utilizam cores, termos, layouts e estimulam nossa interação com polêmicas, teorias da conspiração, notícias sensacionalistas.

Eles sabem que a raiva e o medo engajam as pessoas e isso gera um estado de paranoia e atenção permanente que nos segura grande tempo interagindo. Empresas especialistas da indústria do tabaco e jogos de azar, por exemplo, são contratadas pela experiência em criar métodos que viciam os usuários.

A polêmica sempre está no topo dos trend topics, e essa paranoia constante traz a impressão de que estamos perdendo algo muito importante e constantemente temos que reagir à alguma urgência. Perdemos a capacidade de julgar o que é urgente ou não, e criamos a constante ansiedade de rodar a timeline.

As redes buscam esse tipo de reação para manter a atenção e engajamento. Vídeos histéricos, teorias da conspiração, palavras de ordem polêmicas são mais interessantes e constroem mais interação do que discussões sérias e bem elaboradas sobre algum assunto. Conteúdos que dão conta da complexidade e das contradições do mundo não são populares, e cria-se uma cultura de simplificação da vida por frases curtas. Ideologia construída por frases curtas gera a intolerância tendo em vista nenhum grupo social ou individuo consegue se encaixar totalmente em enxutas palavras de ordem.

Reações emocionais trazem mais interações do que experiências racionais. A raiva mobiliza as pessoas a se manterem na internet. O ódio amplifica a mensagem. A raiva descontrolada e desorganizada destrói nossa saúde mental e as relações sociais, e ao mesmo tempo ajuda nos lucros dos acionistas das redes sociais e na manipulação política. A prioridade das empresas não é o bem estar coletivo ou individual, mas sim o tempo que o usuário passa no lugar.

A raiva organizada é transformadora, mas a raiva desorganizada nos deixa impotentes, isolados e com medo do “outro”. O individualismo nos leva a clamar por alguém que resolva nossos problemas delegando a terceiros a tarefa de resolver as contradições do mundo (nem que seja eliminando elas a força), a coletividade nos move a agir e construir nossas vidas com as próprias mãos e nos colocar em contato direto com a complexidade do mundo. As redes sociais estão fomentando o individualismo e alimentando cada vez mais o autoritarismo.

O objetivo das empresas que controlam as redes sociais não é colocar grupos em rede, construir organização, disseminar conteúdos ou fazer você reencontrar pessoas do passado. O modelo é te viciar e te manter distribuindo seus dados o maior número de tempo visando vender estatísticas e espaço publicitário para outras empresas utilizarem, seja pra vender produtos, seja para disseminar ideias. Aquela ansiedade que achamos estar perdendo algo, aquele post que fazemos polêmico que nos faz ficar horas acompanhando e respondendo, a fragmentação cada vez maior de grupos organizados não são meras reações individuais, são reações manipuladas por equipes contratadas e a consequência que esse projeto gera na gente e nos ambientes sociais.

Por isso, cheguei à conclusão de que as redes sociais são grandes responsáveis pela fragmentação e autodestruição de diversos setores independentes, populares, ou qualquer outra coisa por fora do mainstream. Cada vez mais interagimos apenas com nossos pequenos nichos, e nos distanciamos constantemente de quem é diferente perdendo a capacidade de diálogo e síntese. Com isso, o papel que as redes acabam cumprindo é o de engajar e mobilizar guetos somente entre si, cada vez menores e isolados, os colocando em conflito com outros pequenos grupos de modo que eles não interajam perdendo assim a capacidade de fortalecimento de qualquer coisa maior que se coloque contra o poder dominante.

Não é uma mera impressão lembrar da década passada e perceber que muito mais grupos se conversavam, que produzíamos bem mais ideias que slogans de efeito e que nos nossos rolês comportavam uma diversidade bem maior de ideias. Quem não tem muito dinheiro para patrocinar a abertura dos algoritmos, não divulga nada além do que poderia divulgar na rua.

A pandemia nos deu uma overdose de redes sociais, espero que quando isso passar voltemos a interagir nas ruas e consigamos sair das armadilhas que caímos e não conseguimos sair tão fácil.

Faço a crítica, tento entender, mas faço parte de tudo isso pois para abandonar vícios ter consciência dele é apenas o primeiro passo, os próximos são praticar o abandono e essa é a pior parte para a nossa geração. Não digo que não tenham usos positivos possíveis, mas para usá-los da melhor forma temos que ter em mente que os negativos são muito poderosos. Sempre que surgir aquela paranoia e ansiedade, pare, respire e verifique o mundo real para ver se realmente existe alguma urgência.

Referências para artigo e sugestões:

Gostou desse Post? Compartilhe!

Sobre o autor

Suna

Suna é um dos editores do Nada Pop.