sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Nada Pop

Coletânea Rock Triste embala corações e ainda combate a ausência do Estado em regiões carentes

Coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus” – Foto: reprodução

Convenhamos, o ano de 2020 tem sido um desastre em todos os aspectos possíveis. A crise gerada pela pandemia da Covid-19 atingiu profundamente diversos setores e o da cultura, que já era afetado por falta de investimentos, infraestrutura, entre outros problemas, foi jogado ainda mais de lado. Mas, para quem enxerga a cultura como resistência e não se cansa de se reinventar diante das circunstâncias inconvenientes da vida, nem a pandemia é capaz de ser um obstáculo para a arte.

Nesse sentido, a arte também é usada como combate ao desprezo estatal, servindo muitas vezes de alerta para o descaso ou como auxílio à sociedade além do campo emocional, mas como registro no tempo, solidariedade e de possibilidade de intervenção social. Assim é a coletânea “Rock Triste Contra o Coronavírus”, que semanalmente tem trazido artistas de diferentes estilos e que integram de forma colaborativa esse trabalho em prol de comunidades carentes e que também foram atingidas pela pandemia.

Como explicam na página do Bandcamp do projeto, “nenhum artista participante receberá lucro por essa coletânea. Todo o dinheiro que você dá quando compra o disco é enviado diretamente à conta do paypal da coordenação do movimento (após paga a porcentagem do bandcamp). Você também pode transferir ou depositar diretamente para a coordenação do movimento ou participar do crowdfunding que o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas criou”.

O movimento citado pela coletânea tem lutado pela reforma urbana e pelo direito humano de morar dignamente, com atuação em diferentes regiões do país. Além de ajudar na causa comprando o disco, também é possível contribuir financeiramente pela plataforma do site Vakinha, neste link: http://vaka.me/976399. No endereço também está disponível outras informações do Movimento de Luta nos Bairros.

Versões alternativas e românticas

Com início em abril e com previsão de seguir até outubro, os lançamentos musicais da coletânea “Rock Triste” acontecem toda sexta-feira. Na descrição do projeto, a coletânea foi idealizada por Vitor Brauer, integrante das bandas Lupe de Lupe, Desgraça. Xóõ e do movimento Geração Perdida de Minas Gerais. O nome da coletânea teve como origem o gênero conhecido como “rock triste”, intitulado por fãs e que engloba bandas de diferentes gêneros, mas que levam em suas composições os sentimentos de reflexão, pessimismo ou/até de otimismo.

Na coletânea, covers de diferentes bandas e artista são interpretadas em versões bem interessantes e muitas delas trazem um novo significado para músicas de grupos que envolvem desde Black Sabbath até Raça Negra.

As bandas participantes da iniciativa são o Grupo Porco, Soft Porn, Tuyo, Amandinho, Pata, Não Não-Eu, Emerald Hill, Fernando Motta, Bruna Mendez, Celso e Mafius, Eliminadorzinho, Theuzitz, Fogo Caminha Comigo, Coisa Horrorosa, Wagner Almeida e Avenoá, Chico de Barro, Trash No Star, ÁIYÉ, Terno Rei, Tom Gangue, Paola Rodrigues, La Leuca, Born To Freedom, Brvnks e Lupe de Lupe.

Na clássica “Quando Eu Te Encontrei”, do Raça Negra, por exemplo, ganhou uma roupagem alternativa pela banda Trash No Star. Na balada, trazida de forma à queima roupa pelo trio carioca, a bela voz de Letícia é capaz de nos conduzir ao romântico, mas sem se tornar uma paródia da versão original.

Em outra faixa, “Problema Seu”, da Pabllo Vittar, a cantora Bruna Mendez reinventou a música em uma estilo que leva a sutileza para a harmonia, no que poderia citar o jazz e com uma pequena dose de eletrônico. É uma dessas pérolas no trabalho que deve ser observada com atenção por ouvidos que não se deixem levar por preconceitos ao artista original da música.

Já na música “Até Que Durou”, do cantor de samba Péricles, e trazida em uma versão pop pela Tuyo, o resultado acabou surpreendendo pela forma como o grupo conseguiu manter a força emotiva da letra e sua qualidade na produção da faixa.

A banda Eliminadorzinho realmente foi ainda mais longe nas versões românticas e trouxe para a coletânea a faixa “Sálvame”, do grupo RBD (Rebeldes), do álbum de mesmo nome do sexteto mexicano e lançado em 2004. A curiosidade é que a Eliminadorzinho manteve a versão mexicana da música, ao invés da brasileira, em português. Neste caso, ficou difícil para a banda se igualar na voz em comparação com a cantora Anahí, mesmo assim, é capaz de embalar casais e corações nostálgicos. Vou deixar aqui o link da versão original (em espanhol mexicano), clique AQUI.

Outras versões musicais de artistas como Gal Costa, Alceu Valença, Beach Boys, Arnado Baptista, LCD Soundsystem, Arnaldo Antunes, Facada, Black Sabbath, Wilco, além de outras que ainda estão por surgir, serão encontradas neste trabalho e que com certeza vale a pena acompanhar.

Por fim, outra versão bem interessante presente na coletânea foi a música “Como o Diabo Gosta”, do disco Alucinação, de Belchior. A versão trazida pela banda Fogo Caminha Comigo foi bastante corajosa, e reitera artisticamente a força desse trabalho conjunto da Rock  Triste. E quando se fala em coragem, não se trata em mexer em obras irretocáveis, mas em reconhecer, por meio de todas essas versões, que na música não há velho ou novo, mas uma transformação. “Já tenho este peso, que me fere as costas, e não vou, eu mesmo, atar minha mão.”

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop