quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

#050 – Os 10 álbuns de Jose Antonio Algodoal (Pin Ups, Portal SIM, ex-diretor MTV Brasil)

O Jose Antonio Algodoal é uma dessas pessoas que marcam a sua história no mundo e que se tornam inspiração para centenas de outras. É um dos principais nomes na história da música nacional, ajudando a formar os alicerces do rock alternativo com o Pin Ups. Além disso, atuou nos bastidores da extinta e fundamental MTV Brasil (a atual não conta), dirigindo diversos programas por quase 20 anos na emissora. Podemos dizer que o Zé é uma lenda viva, ícone de sua geração e que ainda é referência quando pensamos em “guitar hero”.

Existem diversas  entrevistas interessantes, engraçadas e emocionantes conversas com Zé Antonio, desde pequenos a grandes portais de música. Precisamos destacar exatamente essa humildade do Zé, sempre tratando todos bem e sempre simpático – digo isso por experiência própria e por diversos outros relatos de nosso conhecimento.

Em 2019, o Pin Ups lançou o seu último e mais recente álbum, o ‘Long Time No See’. Além da Alê Briganti, que desde 1989 integra a banda, a atual formação do grupo contava com Flávio Eduardo Cavichioli, na bateria, e Adriano Cintra, na guitarra. Mesmo com 20 anos de diferença do penúltimo álbum da Pin Ups, o “Bruce Lee”, a banda não parece ter envelhecido em nenhum momento, mas se adaptando aos novos tempos e continuando firme em suas origens mesmo com um álbum diferente de todos os outros discos já lançados pela Pin Ups. Participei como público do show de lançamento de ‘Long Time No See’, realizado no dia 15 de junho no SESC Pompeia em 2019, em São Paulo. Um evento que ficará marcado na história e na memória.

Para muitos, essa é uma lista sem muitas surpresas, mas é extremamente interessante ver quem inspirou a pessoa que inspira tantas outras. E não só musicalmente. Essa série dos 10 álbuns do Nada Pop é totalmente inspirada no livro “Discoteca Básica”, de autoria do Jose Antonio e com entrevistas de 100 personalidades relatando e seus 10 discos favoritos. Diversas histórias de pessoas totalmente diferentes entre si, mas em comum o amor pela música.

O livro “Discoteca Básica”, do Zé Antonio Algodoal, reúne 100 personalidades e seus 10 discos favoritos. Compre na Amazon com o nosso link, basta clicar na imagem.

“Fazer uma lista dos álbuns prediletos é complicado. Quando publiquei o Discoteca Básica, sofri para chegar naqueles dez títulos. Mas apesar das minhas escolhas estarem lá registradas nas páginas do livro, sempre soube uma lista é algo vivo, afinal a gente muda a cada dia. E embora eu vá repetir aqui alguns álbuns já citados, fico feliz em poder incluir alguns títulos que ficaram de fora”, comenta Zé Antonio Algodoal especialmente para o Nada Pop. Confira a lista do Zé logo abaixo.

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1 – THE BEATLES – WHITE ALBUM (1968)

Esse disco sempre estará nas minhas listas. Eu era um moleque de sete anos quando mãe me mostrou ob-la-di ob-la-da. Amei aquela música e pedi à ela que comprasse o disco. Tenho muito carinho por essa lembrança. Quando recebi o disco fiquei maravilhado. Adorei aquela capa branca com o nome em relevo, o pôster com as letras, as fotos que vinham encartadas, mas o que me deixou mais fascinado era o fato de um mesmo disco ter músicas tão diferentes, da agressividade de Helter Skelter à delicadeza de Dear Prudence, a guitarra de While My Guitar Gently Weeps e a estranheza de Revoultion 9.

Demorei muitos anos para entender o impacto que aquele álbum teve em minha formação musical. Ali aprendi como uma banda pode compor músicas tão diferentes entre si e manter a identidade, a importância dos arranjos, e o valor dos detalhes. Há alguns anos alguma publicação elegeu ob-la-di ob-la-da como uma das piores músicas de todos os tempos. Obviamente discordo. Basta estar em um show do Paul McCartney pra ver a comoção que ela ainda causa quando é tocada. Cinco décadas depois essa canção ainda faz pessoas felizes.

2 – REVISTA POP APRESENTA O PUNK ROCK (1977)

Acho que só quem viveu a era pré-internet pode entender completamente a importância desse lançamento. Os discos importados eram raros e bem caros, e demoravam muito para ser lançados por aqui. E isso só começou a mudar no final dos anos 70. Naquela época uma das poucas maneiras de saber o que acontecia no universo musical fora do país era ler a revista Pop, que falava sobre aquilo que se costumava chamar de “universo jovem”. E foi onde eu vi as primeiras fotos dos punks ingleses.

Para um Brasil ainda sob ditadura, aquelas imagens eram fantásticas. As calças rasgadas, os alfinetes, cabelos coloridos retratavam uma liberdade e uma individualidade rara por aqui. Eu ficava curioso para saber como era o som daquelas bandas com visual tão agressivo. Eis que então a revista lança essa coletânea com bandas como Ramones, The Jam, Sex Pistols, Ultravox e Stinky Toys. Pela primeira vez nos sentimos contemporâneos, era possível ouvir o que acontecia na Inglaterra. E ali estava tudo o que eu queria ouvir, uma sonoridade crua, simples, barulhenta e distante do progressivo que reinava por aqui. Esse foi meu disco de cabeceira por muitos anos e ainda hoje é um dos meus prediletos. Falo sem medo de errar que esse disco foi responsável pelo surgimento de muitas bandas aqui no Brasil.

OBS.: A versão de “I Might Be Lying” do Eddie & The Hot Rods é diferente nessa playlist. A original não tem no Spotify.

3 – JESUS AND MARY CHAIN – PSYCHOCANDY (1985)

Outro disco que me marcou muito. Tudo ali era maravilhosamente errado. Os vocais enterrados em uma parede de feedbacks, uma bateria minimalista e melodias simples e bonitas. Deu vontade ter uma banda, e o Jesus foi, sem dúvida, a maior inspiração nos primeiros tempos do Pin Ups. Tentei por muito tempo entender toda aquela microfonia. Hoje sei que o William usava um pedal Shin Ei Fuzz Wah e também percebi que aquele som é inimitável, faz parte de um conjunto perfeito criado pelos irmãos Reid. Continuo amando aquele disco e amando essa banda, que mesmo deixando alguns excessos para trás continuam relevantes e incríveis.

4 – PRIMAL SCREAM – SCREAMADELICA (1991)

Embora hoje tudo isso pareça estranho, nos anos 90 a maioria das pessoas aqui no Brasil era muito fechada em seu nicho musical. Quem era punk brigava com os metaleiros, que não suportavam os alternativos, que detestavam música eletrônica e todos achavam que MPB era coisa de hippie. Uma besteira que felizmente foi deixada de lado. Estou contando essa história porque o Screamadelica foi um dos primeiros álbuns a quebrar essa resistência, principalmente no meio alternativo.

Mas essa mudança não aconteceu apenas por aqui. A mistura do rock com a dance music, as atmosferas eletrônicas, gospel, pop e psicodelia trazidas pelas mãos do produtor Andrew Weatherall fizeram com que esse álbum mudasse a história da música britânica, e que seja merecidamente reconhecido como um dos melhores discos de todos os tempos. Muitos álbuns são importantes para sua época, mas poucos resistem ao tempo como aconteceu com Screamadelica. As músicas são tão boas que nos fazem esquecer que já se passaram quase três décadas do seu lançamento. Amo esse disco e essa banda.

5 – DEVO – OH NO IT’S DEVO (1982)

Quando eu era adolescente eu não fugia à regra e gostava de rock pesado, que naquela época era ridiculamente chamado de “rock pauleira”.
Fiquei sabendo da existência de um programa na rádio Excelsior chamado Rock Sandwich em que um bloco era apresentado pelo Leopoldo Rey e o outro pelo Kid Vinil. Logo na primeira semana as novidades mostradas pelo Kid chamaram a minha atenção e ali meu interesse musical mudou completamente. Gravei duas músicas do Devo e passei a ouvir aquilo sem parar. O rock pauleira já era passado.

Mas aqui, além da importância do álbum quero aproveitar e agradecer a tudo que aprendi com o Kid Vinil. Sempre ouvi seus programas e anos depois tive o prazer de dirigir o Lado B, programa da MTV em que ele foi um dos apresentadores. Costumo sempre dizer que qualquer um que goste de música, mesmo sem saber, tem uma dívida com o Kid.

6 – 100% DYNAMITE (1998)

Ao fazer a lista tentei evitar coletâneas, afinal já citei a Revista Pop Apresenta o Punk Rock. Mas preciso ser honesto e incluir esse disco. O motivo é simples: eu achava que não gostava de reggae, e esse foi o disco que me fez perceber que o motivo era meu desconhecimento da música jamaicana. Eu estava em Londres quando esse disco foi lançado pela Soul Jazz Records e recebeu muitos das publicações musicais. Comprei pra ver o que achava e ali começou um caso de amor com o reggae, ska, dub, rocksteady, roots, dancehall, etc. Logo percebi a influência e a importância de tudo aquilo, e o quanto muitas das bandas que eu gostava beberam naquela fonte. Desde então pesquiso, compro discos, vou a shows, e percebo a beleza e a infinidade da música jamaicana, e a importância de estarmos sempre abertos a sons, influências e culturas que vão além do nosso repertório.

7 – THE JAM – IN THE CITY (1997)

Paul Weller é um dos meus heróis na música. Ele lançou seis álbuns com o The Jam, outros seis com o Style Council e 14 em carreira solo, (sem contar os discos ao vivo), sempre com cheio de elegância e estilo.

Eu sinceramente poderia escolher qualquer desses discos, mas resolvi optar pelo primeiro do The Jam por ter sido o álbum que lançou Paul Weller ao mundo, e também porque fez parte da minha formação musical.

8 – DAVID BOWIE – HEROES (1977)

É difícil escrever pouco sobre David Bowie, um artista cuja importância vai muito além da música. E é igualmente complicado escolher apenas um álbum da carreira para colocar em minha lista. Bowie sempre esteve à frente de seu tempo. Foi provocador, se tornou referência para gerações de músicos ditou moda, comportamento, atitude, explorou inúmeras possibilidades sonoras, atuou em filmes e em palcos e foi elegante até o momento de sua morte. Dificilmente aparecerá alguém tão influente, sofisticado e criativo. Heroes foi lançado em 1977, ano do punk, mas a sonoridade era outra, mais escura, com um belíssimo lado quase todo instrumental, referências ao krautrock, uma capa icônica e a música título, minha predileta em toda a obra de Bowie. Quando me perguntam sobre a importância desse disco, sempre lembro de uma entrevista de John Lennon sobre o disco Double Fantasy. Quando perguntaram o que ele procurava a resposta foi: “do something as good as “Heroes”

9 – VELVET UNDERGROUND – VU (1985)

Por que esse disco? Porque apesar de amar todos os discos do Velvet, esse foi o primeiro que eu tive da banda e que foi milagrosamente lançado no Brasil em 1985. Embora alguns discos solos do Lou Reed Tenham saído em nosso país, acho que o Velvet Underground & Nico só foi lançado por aqui em 2012, com um atraso de mais de quarenta anos. O VU trazia gravações de estúdio até então inéditas, gravadas entre 1968 e 69. Musicas como I can’t Stand It, Stephanie Says, Foggy Notion e a magnifica Ocean. Lou Reed gravou algumas canções do VU em seu primeiro álbum solo, mas sinceramente acho as originais melhores. Na minha opinião Lou foi um dos maiores poetas do rock, uma alma livre e provocadora. No ano 2000 eu tive o privilégio de fazer uma entrevista om ele para a MTV, um dos momentos mais memoráveis da minha vida. No final ele fez questão de me dar ingressos para o show. Mas essa história eu conto em outro momento.

10 – THE STOOGES – THE STOOGES (1969)

Lembro de ver uma foto do Iggy Pop no palco, todo cortado e sangrando olhando desafiadoramente para a plateia. Aquela imagem forte me chamou a atenção e eu queria muito ouvir a música daquela figura agressiva. Consegui então uma fita cassette com o álbum The Idiot, mas aquilo não fazia sentido. Não podia ser o mesmo cara que cantava Sister Midnight e China Girl. Só um tempo depois quando consegui o disco de estreia dos Stooges é que tudo fez sentido. Adorei desde a primeira audição e esse disco também foi uma referência fortíssima para o Pin Ups. Lembro de quando Iggy veio ao Brasil para um show antológico no extinto projeto SP. Foi devastador, fiquei com o ouvido zumbindo por dias. Há dez anos estava fazendo a cobertura do Planeta Terra onde Iggy se apresentou novamente, e embora a energia do palco estivesse praticamente intacta, nos bastidores vi um senhor com olhos já um pouco envelhecidos e de uma gentileza e simpatia tocantes. Passei a gostar ainda mais do Iggy Pop.

Aproveitando, o Nada Pop está com uma campanha no Apoia-se, contamos com o seu apoio para continuar esse trabalho. É possível contribuir com qualquer valor a partir de R$ 1 real. Junte-se a nós: https://apoia.se/nadapop. Para mais listas dos 10 álbuns, basta clicar AQUI.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop