segunda-feira, 21 de setembro de 2020
Nada Pop

Após 20 anos separados, a Last Brigade reúne ex-integrantes do Nitrominds

É possível dizer que a Last Brigade é mais do que uma banda inspirada pelo Down by Law. O grupo, formado por Ricardo Almeida (vocal), Adilson Ribeiro (baixo), Alex Xavier (bateria), André Alves e João Amstalden (guitarras), reúne dois ex-integrantes da Nitrominds que, juntos, possuem três discos lançados e cinco turnês europeias desse período.

André Alves e Ricardo Almeida se reencontram na música após mais de 20 anos, já que o Ricardo saiu do Nitrominds em 1998. A nova banda ressurge de uma amizade que nunca ficou para trás.

“Esse novo trabalho significa pra mim um recomeço depois de tantos anos. Continuei compondo, mas não colocando isso em pratica com os amigos. Meu último trabalho foi com o Nitrominds, em 1998, quando deixei o grupo. Mas aquela chama sempre continuou viva. Acho que quem compõe ou produz qualquer tipo de arte deve colocar isso pra fora. Isso precisa ser colocado para as pessoas verem, criticarem, se divertirem. A arte é isso, é compartilhar. Estou muito feliz por mostrar esse trabalho”, diz Ricardo.

Já para o André, que continuou com o Nitromids até o ano de 2012, quando a banda anunciou o fim definitivo da carreira do grupo, continuou na música, na Statues on Fire, com origem em 2014 e em atuação até o momento. “Entrei no Last Brigade há pouco tempo. Eu e o Ricardo temos um plano de tocar juntos desde que ele saiu do Nitrominds, coisa que eu nunca o perdoei”, brinca André.

A Last Brigade nasceu em 2019 e desde então vem trabalhando nas músicas para o lançamento do seu primeiro trabalho. No momento, o grupo disponibilizou uma “demo live”, que pode ser conferida no YouTube e Bandcamp. O grupo é idealizado pelo Ricardo, sendo o primeiro trabalho novamente relacionado a música após integrar, entre 1994 e 1998, o Nitrominds.

Ricardo sempre teve uma voz marcante e forte, algo que fez ser um dos motivos da escalada da banda no cenário hardcore/ punk no começo dos anos 1990. A sua volta para a música, principalmente no atual momento do país, tem um relação forte e profunda com a faixa The Last Brigade, do Down by Law, que encabeça o álbum “Blue”, lançado em 1992.

Não quero derrubar o dia
Tem que haver uma maneira melhor
Não quero machucar ninguém
Eu só quero fugir
Só quero fechar meus olhos agora
Queria que o mundo fosse embora
Esta é a última brigada
O mundo olhou nos nossos olhos
E nos deu promessas e mentiras
Eles disseram que tínhamos o futuro
Veja o que isso significa hoje
Eles disseram que éramos o futuro
Contanto que jogamos do seu jeito
Esta é a última brigada
Então, vamos derrubar o dia
Mas tem que haver outra maneira
Agora você não gosta do sistema
Mas qual é o sistema de qualquer maneira
Eu não quero marchar para nenhuma bateria
Eu só quero encontrar meu próprio caminho
E eu terminei com todo o ódio
Esta é a última brigada

Tradução da faixa “The Last Brigade”, do Down by Law.

“Infelizmente a gente está vivendo um ponto fora da curva na humanidade. Nós temos que nos adequar e nos reinventar. As perdas que estamos enfrentando causa um estresse coletivo. É inevitável que a gente não absorva tudo isso. A primeira coisa que devemos fazer é agir de forma contrária a tudo o que presidente diz. Claro, precisamos trabalhar, mas devemos nos proteger e cuidas das nossas famílias, mas isso tudo observando os cuidados necessários, as restrições. Não é o momento de relaxamento. Também não é motivo de medo extremo, pois isso afeta a nossa motivação e até as nossas convicções podem ser afetadas”, comenta Ricardo quando questionado sobre a atual situação no Brasil e no mundo e como isso tem sido observado por ele.

Já o André foi mais direto ao responder a esse mesmo questionamento, mas fez um complemento quando questionado sobre o que esperar do futuro após a pandemia. “Eu não sei se sou a melhor pessoa para falar do futuro da música ou o futuro do país após três meses isolado e ver nada mudando de fato. Não existe teste, não existe uma política clara e pelo visto o esforço das pessoas está cada vez menor, não preciso nem dizer que eu acho o Bolsonaro um facínora. Passei do otimismo de se manter ocupado e tentar reinventar os processos para o torpor. A Statues on Fire é uma banda que pode ter apoio de alguns incentivos de cultura, como tivemos, devido ao nome e ao bom management, mas eu fico imaginando quem não tem esse mojo de entrar nos meandros desse mercado público”, explica.

Existe uma frase clássica na qual diz que “a vida sem música seria um erro”. Ricardo leva esse argumento a sério e o sentimento de libertação conquistado com o lançamento da “demo live” traz uma reflexão também sobre o papel do artista. “O papel do artista também é o de sustentação da sociedade, de mostrar realmente que existem possibilidades diferentes e melhores da gente conviver. O artista tem um papel muito importante, não o de doutrinação, mas de mostrar um caminho diferente do que é hoje. A música se encaixa totalmente nisso, ao menos naquilo que eu sei fazer. Olha, eu acho que eu amo mais a música do que realmente sei fazer música. É isso, estou muito feliz de ter esses caras junto comigo. O André é um parceiro de muitos anos e estamos revivendo esses momentos. Espero que todos gostem e se divirtam”, conclui.

A “demo live” é uma gravação ao vivo da Last Brigade, com o registro sendo realizado por Regis Ferri, com mixagem e masterização pelo próprio Andre Alves em seu estúdio Rising Power Studios. Sobre como tem sido a sobrevivência do André nessa pandemia, ele explica que mantém o espaço fechado no momento. “Meu estúdio está fechado e continuará fechado até que seja seguro, se for só ano que vem… que assim seja. Seguimos falidos, porém não teremos o peso nas costas de ver nossos amigos infectados”, finaliza André.

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Sobre o autor

Maurício Martins

Jornalista, editor e fundador do Nada Pop. Um dos organizadores do tributo ao SUB e apresentador do podcast Arte Inflama. Siga no Instagram: @nxdapop