segunda-feira, 26 de outubro de 2020
Nada Pop

Uma conversa com a Letty sobre “Aposentadoria”, indústria musical, KLB e muito mais

Letty – Foto: Gilbert Spaceh

Se você acompanha a música independente no Brasil, provavelmente ouviu falar da Letty nos últimos dias. A cantora paulista lançou, no dia 1º de maio, o single chamado “Aposentadoria”, que, antes de ser divulgado pra todo mundo, foi vendido em um modelo de recompensas, campanha que pode ser uma forma adotada por outros artistas independentes e da qual já falamos aqui no Nada Pop (aqui para ver).

Mas antes de “Aposentadoria”, música bem clara sobre a reforma da previdência, Letty já lançou três EPs, todos em inglês, e um outro single em português, também sobre a política nacional, chamado “Golpista” e endereçado a vocês sabem quem.

No melhor estilo Do It Yourself, Letty vem consolidando sua carreira musical e falando tudo o que pensa sobre as dificuldades que artistas, especialmente mulheres, enfrentam pra divulgar seu trabalho. É sobre isso e outras coisas que conversamos em uma troca de e-mails às vésperas do lançamento do seu novo single. Confira!

Nada Pop – Vamos começar pelo novo single, “Aposentadoria”, que assim como sua primeira música em português, “Golpista”, tem nome e letra bem diretos, sem necessidade de questionar a inspiração da letra. Você sente que sua frustração com os rumos da política sai melhor em português ou foi uma atitude proposital para que a mensagem fosse passada para o público mais geral, que precisa pensar sobre isso?

Letty – Acho que é uma mistura explosiva das duas coisas. No meu último show lá no Estúdio Aurora, antes de tocarmos “Aposentadoria”, eu disse que tem coisas que só saem da gente em forma de palavrão ou na língua materna. Essa música é basicamente isso: um palavrão em língua materna! Sinto que não podemos mais perder tempo sendo mal interpretadas. Num país onde a interpretação de texto é luxo, me fazer entendida é praticamente um ato de subversão.

Em uma live você afirmou ter vontade de compor mais em português… Por que isso ainda não rolou e por que as primeiras composições nasceram em inglês? Há a possibilidade de um EP só em português?

Com toda a certeza. Serei toda em português daqui pra frente! Todo esse momento atual me empurra pra língua materna de uma forma ou de outra. Eu acabei compreendendo que sempre compus em inglês por vergonha: me sinto menos exposta cantando em uma língua que não é a minha. É como se cantando em português eu esteja nua no meio de todo mundo; sabe aquele sonho que todos têm, em que você está pelada na frente dos coleguinhas da escola? É mais ou menos isso.

A Isabel Allende uma vez disse: “Eu só posso ser eu mesma na minha língua materna” e é exatamente isso. Sinto que compor em português me traz uma autonomia que eu não tinha antes. Estou no ápice do meu nervo exposto enquanto artista.

Ainda sobre “Aposentadoria”, para anunciar o pré-lançamento e o esquema de recompensas, você disse que estava tentando entender como funciona a indústria da música. Acha que conseguiu entender ou está longe disso? O que você entendeu até agora?

Quanto mais eu procuro entender, menos eu consigo rs., mas o que acontece no mercado musical é o que acontece com todas as nossas relações com o mundo: vivemos num mundo capitalista e patriarcal, e as práticas dessas ideologias nos são impostas goela abaixo de maneira cruel. Esse é o ponto de partida pra conseguirmos repensar o que acontece e, a partir daí, construir alternativas realmente humanas. Isso vale pra absolutamente tudo, não só para a indústria da música.

E sobre essa busca, o que mais te desanima no cenário mainstream/underground e no perrengue que artistas underground passam pra conseguir tocar, disponibilizar músicas etc.?

Como eu disse antes, a esfera musical reproduz o modo de vida da sociedade, então as dificuldades enquanto artista estão entrelaçadas à nossa condição de classe, gênero e raça. E ainda tem a cereja do bolo: artistas não são considerados trabalhadores, são vagabundos e parasitas. O trabalho intelectual é desvalorizado e subestimado sob a justificativa de “talento”, de “dom”. É esse discurso da “meritogracinha” que ouvimos todos os dias, né. E é muito triste ver o trabalho do artista sendo desvalorizado dentro da própria classe: ver donos de bares e produtores destratando musicistas, por exemplo, é de doer.

Queria que você explicasse, pra quem ainda não entendeu, o porquê das ressalvas, suas e de outros artistas, quanto ao Spotify e outros serviços de streaming. E qual a melhor forma, na sua opinião, de o público apoiar um artista independente (financeiramente ou não)?

Essas plataformas de streaming promovem o que eu apelidei carinhosamente (risos) de “uberização da música”. O artista tem que pagar pra subir sua música e não recebe diretamente por ela. Em um texto de 2013, um compositor disse que recebeu $16,89 dólares por 1 milhão de plays no Pandora. Eu nunca recebi um centavo, lógico rs., se você não está nas playlists badaladas do Spotify, você meio que não existe. Pra mim, o contato direto do artista com seu público cria um laço muito mais humano (e não terceirizado). Dessas plataformas, acredito que o Bandcamp seja a mais viável, porque você pode comprar o álbum direito do artista e só uma porcentagem vai pra empresa. Foi daí que tirei a ideia da campanha de pré-lançamento de “Aposentadoria”, já que o Bandcamp só aceita dólar.

Eu fiquei realmente surpresa com a quantidade de gente que apoiou e tenho absoluta certeza de que isso não aconteceria se eu tivesse liberado um pré-save no Spotify, por exemplo. Plays no Spotify não pagam boletos. Se algum dia pagarem, me avisa que subirei todas as minhas músicas lá!

Mas nem só de perrengues a gente vive, né? Quais as coisas que mais te orgulham e te fazem ter vontade de continuar batalhando como uma artista de rock no Brasil?

Eu vejo que os artistas independentes no Brasil são muito insistentes e admiro demais isso. Está tudo desabando, dando errado, estamos fodidos e sem dinheiro, mas o show continua e a galera tira leite de pedra. Eu amo os artistas independentes que passam perrengue, que gravam em casa, que fazem gambiarra para as coisas darem certo. São essas as pessoas que quero ter por perto me inspirando!

O esquema de recompensas rolou como você esperava? Acha que é uma forma a ser aplicada nos próximos lançamentos? Um crowdfunding pra um EP é uma possibilidade ou está fora de cogitação?

Confesso que eu fiquei realmente assustada com a recepção da campanha, porque eu sempre pensei que pra fazer um esquema desses você precisa ter um super público – o que não acontece comigo. E as pessoas se mobilizaram demais! Talvez por causa do caráter exclusivo das recompensas, era justamente o que eu queria: fazer com que quem apoiasse se sentisse tão especial a ponto de receber um clipe que o público não vai ver. É a prova de que o trabalho de formiguinha funciona, e as coisas só se constroem coletivamente e valorizando cada etapa e pessoa do processo. Isso com certeza me abriu os olhos para a possibilidade de um crowdfunding pra um EP. Um dia nois chega lá!

E quais os próximos planos após “Aposentadoria”?

Sobreviver à pandemia pra ajudar a dar aos fascistas o fim que eles merecem. Essa é a minha prioridade.

No dia do seu aniversário você postou uma foto sua criança cantando, mostrando que seu amor pela música vem de muito cedo, mas em que momento você percebeu de fato que ia tentar viver de música, gravar, ter uma banda? E como você começou a mostrar seu trabalho para as pessoas e a gravar suas músicas?

Eu sempre tive uma relação muito profunda com a música, desde bebê. Meu pai é uma pessoa muito musical então acho que isso ajudou a me incentivar. Eu sempre soube que queria estar em um palco, sempre amei fazer performances com escova de cabelo rs.

Meu primeiro contato com a música foi através do Hélio Ziskind, que tive o prazer de ver um show no fim do ano passado e chorar feito criança. Desde que nasci tenho um CD com a trilha sonora do Castelo Rá-Tim-Bum que ouço até hoje. Tanto que na fila pra tirar foto com o Hélio depois do show, eu era a única adulta e disse pra ele “sou a criança mais velha nessa plateia”! Mas a verdade é que eu não me sustento com música. A minha vida gira em torno dela, mas não é o meu ganha pão, só que isso nunca foi justificativa pra eu desanimar ou deixar de levar a sério. Tenho banda desde os meus 13 anos de idade, comecei a tocar e a me apresentar com 11 (um bebê tocando no festival de música da escola rs.).

Eu queria aprender a tocar pra compor, e minhas composições surgiram junto com o meu aprendizado no violão, mas a coragem de mostrar minha música autoral só veio quando lancei meu primeiro EP, Anywhere But Here (2015), que foi quando descobri o universo independente da música no Brasil. Foi aí que pensei “Que legal, não estou sozinha, tem mais gente que escreve as próprias músicas!”. Antes disso, as coisas só ficavam no caderno mesmo.

Entre um EP e outro, você teve uma banda, a Letty and the goos. Qual a diferença desse projeto pra sua carreira solo? Pretende voltar com ele ou com outro projeto paralelo?

A Letty and the Goos começou com as minhas composições, dos primeiros EPs, com uma roupagem um pouco diferente, e acabamos incorporando composições que não eram minhas no processo. Essa é a principal diferença pro meu projeto solo: as composições são todas minhas e aí eu levo as músicas para os meninos (Gui, Érico e Bob) fazerem a magia acontecer. Eu tenho muita vontade de ter milhões de projetos, mas é aquela coisa né: a vida não ajuda rs., mas agora talvez seja uma oportunidade de explorarmos uns featurings virtuais inusitados, como tenho visto por aí.

Em duas vezes que eu te vi tocar, você tocou Patti Smith e recentemente falou sobre a vontade de juntar mulheres para tocar músicas da Patti. Se você pudesse convidar essas mulheres agora, quem você chamaria (pode ser do cenário independente ou não)?

Ah, que pergunta deliciosa! Eu sempre quis montar uma superbanda pra tocar a discografia da Patti Smith. Divagando aqui eu convidaria a Ana Frango Elétrico (estou perdidamente apaixonada por ela), Karina Buhr e Juçara Marçal. No quesito banda dazamiga independente, não consigo nem citar porque faria com todas, daria mais ou menos umas 20 bandas rs.

Patti Smith é sua maior inspiração musical? Quem e o que mais te inspira na hora de compor?

Sim, com certeza. Porque foi ela quem me abriu os olhos pra essa conexão literatura-música, pra um lado mais cabeça, mais poético do rock. Considero a Patti uma artista completa, assim como a Amanda Palmer, por exemplo. São pessoas que enxergam a arte numa totalidade e vivem aquilo o tempo inteiro. Pra mim, ser uma artista completa é isso: ter a capacidade de enxergar tudo de outra maneira. Há quem chame isso de inspiração, mas eu acredito que seja um exercício constante de olhar as coisas com um outro olhar.

Ainda sobre inspirações, você é uma grande fã do KLB rs., e pela sua emoção no dia da live deles, eu não sei se é considerado um guilty pleasure, mas eu vou considerar que sim, ok? rs. Você tem outros guilty pleasures musicais que não tem vergonha de assumir? Acha que eles também te inspiram ou serviram de algum jeito pra sua formação musical?

De jeito nenhum! KLB é algo que eu nunca vou ter vergonha de dizer que adoro rs. Moldou meu caráter, foram os meus primeiros ídolos, não posso negar minhas raízes rs.

Bom, como toda boa roqueira eu tive minhas fases, né? E a que mais durou foi a fase glam – sou uma grande conhecedora de “bandas farofa” dos anos 80. Acho micão falar isso hoje em dia? Acho, porque são bandas que se eu conhecesse hoje certamente iria achar uma bosta. Continuo ouvindo e cantando quando tomo banho? Continuo. O filme do Mötley Crüe, por exemplo, é grotesco, mas despertou a Letty de 14 anos que estava adormecida rs., e além dessas farofices, eu gosto muito de Coldplay, muito mesmo. Até as músicas ruins que eles têm lançado de uns anos pra cá.

Entre músicas ridículas e maravilhosas, tudo serve pra moldar a gente enquanto artista né? De repente pode virar até um parâmetro para “o tipo de artista que não quero ser” rs.

Na letra de “33” (música do EP The Rolling Stones Were Always Wrong, em parceria com Matheus Krempel) você fala sobre meritocracia, mas também sobre as metas criadas pela sociedade de coisas que você tem que alcançar/fazer até certa idade. Essa música já fazia muito sentido em tempos de redes sociais, e agora, em meio à quarentena, faz mais sentido ainda, pois todos os dias a gente se depara com alguém querendo “transformar um momento de crise em uma oportunidade” e vendendo essa ideia para outras pessoas. Queria que você falasse como surgiu essa música e saber se você concorda que ela se encaixa nesse momento. Pra você, que é artista, está rolando uma pressão ainda maior pra produzir nesse período?

Eu já tinha a música e a melodia pronta (coisa que não costumo fazer, pois geralmente eu faço tudo junto) e faltava um tema pra eu escrever sobre. Tinha até rascunhado uma letra em português, mas não tinha ficado bom. Aí um dia eu abri o Facebook (não lembro quando, mas foi em 2018) e nessas páginas maravilhosas que desmascaram coaches, me deparei com um vídeo de uma coach que dizia que os judeus não saíram da câmara de gás porque não se esforçaram o suficiente. Foi aí que nasceu “33”. Particularmente, adoro essa música porque ela tem se mostrado cada vez mais atual. Basta lembrar do comentário que o [Jorge Paulo] Lemann fez sobre o coronavírus, que foi exatamente o que você disse: toda crise gera oportunidade (guilhotina mandou lembranças).

Com relação à produção, estamos vivendo em uma era em que todo mundo tem que ser relevante na internet, todo mundo precisa ser formador de opinião, “fazedor de textão”, praticante de yoga saindo da zona de conforto… Então tudo desemboca na produção de conteúdo. A monetização do YouTube gera isso – se você para de produzir conteúdo relevante, você perde a monetização, aí tem o lance dos algoritmos, tem que postar selfie para conseguir alcance num post, tem que patrocinar, tem que colocar hashtag… É enlouquecedor, especialmente quando você é só alguém que quer fazer a porra da sua música e divulgar pra quem possa se interessar. Agora até os professores, com as aulas a distância, têm que virar “blogueirinhos”. Eu mesma vou dar uma pausa nas redes sociais depois do lançamento de “Aposentadoria”, porque é algo que suga a alma da gente, credo.

Pra terminar, já que estamos falando de quarentena, que está sendo um momento complicado pra todos, o que você tem feito, lido, escutado etc… pra passar por essa loucura de forma menos traumática?

Eu acho que temos que encarar desafios que realmente motivem a gente (não é motivar no sentido coach de “33”, pelo amor de deus rs.) e deixem a gente orgulhosa. Pra alguns, esse desafio é fazer exercício, por exemplo, mas pra mim, jamais.

Eu resolvi encarar os livros da minha estante que nunca li por medo de não entender nada. Quero encarar Grande Sertão Veredas e Ulisses. Sugiro que as pessoas mergulhem em leituras que as distanciem da realidade. A literatura é uma fuga maravilhosa e tem sido o meu maior prazer. Também tenho tentado abrir meus ouvidos pra outros tipos de música (agradeço ao Du, da Deadman Dance, por me mandar um drive com música clássica rs.) e forçar os miolos a aprender coisas novas. Se a gente ficar lendo notícia e lembrando que o Bolsonaro existe 24h por dia, a gente vai enlouquecer e é justamente esse o objetivo dele, né? Ser o centro das atenções e emburrecer a gente, então façamos o contrário só pra irritá-lo.

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Sobre o autor

Letícia Pataquine

Formada em Letras, é editora do Nada Pop que ama: 1. música; 2. escrever; 3. fazer listas.