segunda-feira, 9 de março de 2020
Nada Pop

Um EP que vai da jazzada ao slowfunkmetal – Escutem o disco debut da banda Pretos Novos de Santa Rita

Quem não terminou o ano passado em exaustão com tantos absurdos estampados diariamente nas redes sociais e noticiários, com aquela falta de ar, de crença, esperando por um ano novo e com medo de uma versão piorada de 2019, com uma avalanche de retrocessos, máscaras caindo e a perpetuação da impunidade?

Nesse contexto caótico, tornou-se urgente resistir. E na música não foi diferente. Assistimos com muita inquietação a repressão do Governo contra iniciativas culturais, censura, corte em investimentos, fim de alguns editais, e pente fino na curadoria de outros, o risco iminente do retorno de um dos momentos mais sombrios da história do país.

O ano passado foi pesado, e em contrapartida acompanhamos o nascimento, renascimento e fortalecimento de diversas iniciativas, bandas, projetos de pessoas engajadas nas mais diversas frentes artísticas e gêneros musicais. E no início desse ano convidamos artistas, produtoras de eventos e selos para indicar seus lançamentos preferidos de 2019 e a lista alcançou 101 álbuns que você pode conferir aqui.

Um dos lançamentos indicados para a lista foi o “Se Chegar na Esquina é Checkpoint” da banda  Pretos Novos de Santa Rita, formada em Campo Grande, zona Oeste do Rio de Janeiro, por Bing (Vocal), Ton (Guitarra), Sonic (Baixo), Genesis (Bateria). O Ep foi disponibilizado nos últimos dias do ano passado, carregado de reflexões e um groove que deixa a gente na dúvida entre dançar ou chorar.

Para falar mais sobre o disco, convidei Lucas, artista carioca que intercala sua produção musical entre o rap, trap, rock nos projetos Santos e SVI. E logo na sequência preparei uma entrevista com os integrantes da banda.

Resenha por Lucas Santos

Esses Pretos Novos de Santa Rita de que falamos não estão esquecidos a busca de serem encontrados, pois sabem que o seu entorno ainda não é o lugar ideal, mas é um lugar que precisa refletir sobre o que falam, ouvir o som que trazem, se conectar com sua criação

Um EP que vai da jazzada ao slowfunkmetal. A jovem banda da Zona Oeste carrega consigo uma feijoada rítmica onde de tudo vem um pouco pra fazer a liga. Com músicas carregadas de ironias e reflexões pessoais, os Pretos Novos de Santa Rita trouxeram no fim de 2019 o seu primeiro EP, intitulado “Se Chegar na Esquina é Checkpoint”, que mesmo nos quarenta e cinco do segundo tempo vale a audição e se destaca como uma das melhores revelações do ano dentro do meio musical independente.

O nome da banda sugere e faz menção ao cemitério dos pretos novos, onde pessoas escravizadas eram enterradas numa localização próxima à Igreja de Santa Rita, no Centro do Rio. O nome alcunha também o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que pesquisa essa memória social tão importante para a memória preta carioca e brasileira. Talvez faça sentido pensar o lugar da banda em relação a isso. Dentro de uma cidade partida e gentrificada, a banda formada na Zona Oeste da cidade traz um som que é escavado, uma arqueologia sonora que denota uma pesquisa cuidadosa que dá num resultado carregado de originalidade.

As letras da banda, cantadas e rimadas por Bing (vocalista), carregam muito do seu trabalho solo com um hip-hop mais experimental. As letras são carregadas de reflexões pessoais que trazem críticas ora sutis ora bem explícitas. Se é possível destacar uma faixa dentre a tracklist, Slowfunkmetal, que tem um arranjo que traz um groove intenso de hip-hop e jazz e traz uma das letras mais ácidas do disco. Não sou preto convicto / […] Eu sou preto com raiva / Mais inútil que ser playboy, é fazer banda cover. A banda fala sobre experiências que outres artistas pretes podem se identificar, onde as angústias da vida cotidiana estão impressas de forma muito direta, destaco também uma das faixas mais interessantes do disco, Janela: Sempre que eu espero, eu me fodo / Ninguém que mais do que eu.

Esses Pretos Novos de Santa Rita de que falamos não estão esquecidos a busca de serem encontrados, pois sabem que o seu entorno ainda não é o lugar ideal, mas é um lugar que precisa refletir sobre o que falam, ouvir o som que trazem, se conectar com sua criação. Por isso destacamos esse trabalho como uma das melhores revelações que 2019. Vida longa a esses pretos novos e que tragam cada vez mais novidades.

Entrevista com Pretos Novos de Santa Rita

1 – Como foi o inicio da banda? Como vocês se conheceram?

O início da banda foi de forma nada convencional, o Ton (Guitarra) e o Sonic (Baixo) se juntavam para fazer um som meio de brincadeira, mas com uma idéia de fazer um projeto no futuro, um tempo depois começamos a frequentar o estúdio do Philip Sanchez (Fluxroom), ponto de encontro de músicos em campo grande. O Bing (Vocal) e Genesis (Batera) também frequentavam o estúdio. Já nos conhecíamos, tínhamos até um certo contato por causa da cena musical, outros projetos, mas não tinha rolado de fazer nada juntos. Começamos a trocar idéia e um dia decidimos participar de um evento para fazer uma jam, mas sem tanta pretensão, só pela diversão. Fizemos uns ensaios e tocamos, só que o show foi tão legal, a conexão entre nós como banda foi tão bacana que saímos empolgados e aí sim começamos a pensar em montar o projeto.

2 – Pretos Novos/Santa Rita é uma das estações do VLT, sistema de transporte público que foi inaugurado para interligar a região portuária e o centro histórico do Rio de Janeiro. Existe alguma relação com esse nome e a história da banda?

Sim, existe. O nome do projeto é de certa forma uma provocação, afim de evidenciar o racismo, a negligência do Estado quanto a nossa história, tentando esconder a violência que nos é infligida, não só neste caso, mas em tantos outros que acontecem o tempo todo. Quando chegamos nesse nome foi como um basta. Não iremos nos esconder, nos furtar da responsabilidade de falar sobre esses assuntos. Queremos evidenciar a cultura negra, a história, a luta e usar música como resistência diante desse momento caótico que estamos vivendo.

3 – Como foi o processo de gravação do disco?

O processo foi um pouco longo, aquele rolê de músico independente, início de projeto, sem recursos, encaixando o processo de criação e de gravação entre trabalho, estudo, responsabilidades pessoais… Mas ao mesmo tempo foi muito prazeroso e importante para nós como músicos e também como amigos. As nossas músicas são um reflexo de nossas  experiências de forma direta nas letras e com experimentações de sons, de timbres. Tivemos a produção do Philip Sanchez (Fluxroom) que nos ajudou bastante nesse período e tirou o melhor de nós dentro do estúdio. Na parte de mixagem e masterização quem fez a produção foi o Bing,  o que é ótimo, ter alguém da banda fazendo essa interlocução com a técnica. Foi importante também conseguirmos parar e pensar no projeto, entender o que queremos falar com a nossa arte e o resultado é algo que nos orgulha bastante.

4 – Quais são suas principais referências?

Isso é bem complicado de responder porque escutamos bastante coisa, de estilos diferentes até, e isso tudo acaba sendo incorporado na criação das músicas. Escutamos desde aquele samba do domingão em família até uns grind brabo (isso só o Feliz escuta hahaa), passando por afro beat, rap, trap, funk, soul, jazz, post rock… Somos uma bagunça boa.

5 – Qual foi a inspiração para o nome do Disco “Se Chegar Na Esquina É Checkpoint”?

Saindo do estúdio (Fluxroom), o Bing estava segurando um pedestal e o alertamos para que não saísse na rua com o objeto apontado para cima por conta do perigo do mesmo ser confundido com uma arma de fogo. O título é oriundo da resposta dada por Bing na ocasião: “Tá maluco? Se eu chegar na esquina é checkpoint”. O nome, portanto, faz uma alusão aos casos noticiados de pessoas (negras) que morreram “portando” itens que foram “confundidos” com armas de fogo pela polícia, como furadeira, guarda-chuva, macaco hidráulico, celular, etc.

6 – É possível perceber nas composições que existe um sentimento de contestação em relação à forma como a sociedade lida com a negritude, a vivência de pessoas periféricas e o mundo artificial das redes sociais tanto no cotidiano quanto no cenário musical. De que forma essas questões influenciaram vocês na construção desse primeiro disco?

Raiva! Ter que falar o óbvio todos os dias é algo extremamente cansativo. Desde novos percebemos a diferença de tratamento quanto a galera privilegiada e nós. É algo que entendemos da forma mais dura possível, cada um com a sua experiência de vida. As letras do disco foram construídas muito em cima do olhar do Bing, sobre situações que todos nós vivenciamos de uma alguma forma e as músicas saíram em cima desse sentimento de mostrar o que sentimos da forma mais direta possível.

7 – Existe uma idealização da música como instrumento libertador, que conecta pessoas, e muitos artistas utilizam-se dela como forma de protesto às normas sociais preestabelecidas. Como consequência disso espera-se que os espaços e a “cena” musical sejam acolhedores e livres de opressões. Até que ponto isso é real para vocês?

A música para nós é um momento de liberdade, é sobre fazer o que amamos, então quando estamos criando, tocando, fazemos de forma sincera. A nossa intenção é criar conexão com as pessoas que queiram e a partir disso nos unir para resistir, principalmente nesse momento, música é um instrumento de resistência importante. Agora sobre a cena é complicado, pois a cena é formada por pessoas com visões diferentes o que não é algo necessariamente ruim, mas a idéia de uma cena totalmente acolhedora é uma mentira. Há uma visão muito individualista dentro de alguns espaços, se você não estiver dentro de um certo padrão, se não fizer parte de uma certa galera, muitas vezes lhe são negadas oportunidades e o que você faz é desvalorizado. Por isso nos unir é muito importante. Acreditamos que essa visão de cada um por si não leva a lugar nenhum e nem minimamente aprofunda as discussões.

A banda vai se apresentar no próximo final de semana, 14/03, no evento Baile+Banda. Curta, siga Pretos Novos De Santa Rita nas redes e acompanhe as novidades e a agenda de shows.

Serviço

Baile+Banda com Pretos Novos de Santa Rita e Micah
10$ – Lote Promocional
15$ – Antecipado
20$ – Na Hora
Link para a compra: http://bit.ly/2uFLuHc
Local: Motim – Rua Gonzaga Bastos, 302 – Vila Isabel

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Sobre o autor

Lety Trash

Lety Trash é editora do Nada Pop, além de guitarrista na Trash No Star, integrante da Errática, produtora na Efusiva Records e MOTIM, um centro de cultura no Rio de Janeiro.