sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Nada Pop

Ascensão e queda da Pós-modernidade – dedicado à todos os estúpidos da minha geração

Eu não sei se a minha geração é a mais estúpida que já existiu, prefiro acreditar que não. Mas vamos lá, nascemos entre o início e o meio dos anos 1980, vivemos muito pouco da Guerra Fria e lembramos vagamente da queda do Muro de Berlim. Quando começamos a tomar consciência de si, já era outra década. Os anos 1990 das modas eletrônicas, neoliberais e das cores fluorescentes.

Os discursos oficiais eram os piores possíveis, sempre com certo otimismo arrogante e entusiasta do progresso técnico que só a nova economia globalizada poderia promover. O contraponto praticamente não existiu, já que filosoficamente estávamos diante do fim da história.

Era, na verdade, o primórdio da pós-modernidade. Sobre o modo de vida que passamos a adotar a partir daquela época, o filme ‘Transpotting’ fez o melhor resumo que se tem notícia. Pra quem não conhece e pra quem quer lembrar, o discurso Choose Life do protagonista Renton:

Então veio 1992, a Eco 92 no Rio de Janeiro. Eu nasci e cresci lá, então claro que minha mãe me levou pra ver aquele circo montado por ONGs, ecologistas, governantes e autoridades internacionais. Foi a primeira vez que ouvi falar de Green Peace e sobre salvar baleias, salvar a floresta amazônica e sobre o buraco na camada de ozônio. Lembro que tinha até índios e ocas temporárias no meio do aterro do Flamengo. Minha mãe acreditava naquilo e me fez acreditar também.

Em 1997, mudei pra SP, depois de passar um par de anos num interior do sul de Minas Gerais. Acho que esse ano foi crucial pra muita coisa e pra muita gente, mas pra mim especialmente, foi uma mudança e tanto. Já tinha ouvido falar muito sobre a vida aqui e sobre Racionais MCs. Pra minha sorte, um manual de sobrevivência, chamado ‘Sobrevivendo no Inferno’ acabara de ser lançado naquele ano.“Din-din-don rap é o som!” estava sempre tocando no auto-falante de algum carro, praticamente em toda esquina que eu parava.

No auge dos meus 16 pra 17 anos, comecei a alimentar o maior otimismo que alguém pode ter na vida. Tinha lido alguma coisa sobre Che Guevara, talvez uma revista, talvez junto com outra revista com letras do Bob Marley (que traduzi mal e porcamente com um dicionário Michaelis que minha mãe tinha) e já colecionava CDs do Planet Hemp. Minha cabeça naquele momento era a soma de tudo isso, com certeza. Estava decidido, eu queria ser um revolucionário! Comunista, guerrilheiro, maconheiro, roqueiro, skatista, neo-hippie, etc. Acho que Wasted do Black Flag fala sobre isso.

Quando olho pro Mundo pós Covid-19, nesse exato instante, tenho duas certezas: eu fiz a escolha certa na vida e perdi. Perdemos. A sensação de derrota é inevitável “quando se descobre que tudo deu em nada e que só morre pobre”. Posso dizer que a decisão tomada aos 17, me deu tudo que eu queria e me tirou tudo que eu precisava até chegar aqui, com quase 40. Mas a dialética permite questionar os vencedores do sistema, tudo que vocês acumularam e acreditaram possuir do que vale agora?

Boa pandemia à todos.

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Sobre o autor

Giuliano Mascitelli

Jornalista fracassado e vocal da banda punk Lata do Lixo da História. Escreve textos curtos, crônicas e poemas de qualidade duvidosa.