sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Nada Pop

O lançamento do EP de estreia da Brutal Mary

Foi difícil iniciar o texto pra falar sobre esse lançamento. No release: “Brutal Mary é um trio punk feminista de Brasília e existe desde 2018 influenciada por bandas como Hole e Bikini Kill“. Sim, é uma banda punk, é possível captar todas as influências citadas. Mas depois que comecei a ouvir o Ep, essa descrição ganhou um outro significado. Bem mais amplo, profundo e os arrepios foram inevitáveis.

É duro ouvir nas letras e sentir nas vozes de Ana e Arthemyz tanta coisa que já vivi. A identificação é assustadoramente imediata. E acredito que muitas de vocês leitoras, infelizmente já passaram por pelo menos um outro refrão desse disco (ou por todos). Vou deixar aqui o link para o Youtube porque a banda disponibilizou por lá todas as letras, e ouvir sacando as letras fornece os tais arrepios que falei logo ali no início. E para os meninos, vale a leitura, a escuta e tentar entender que nessa relação vocês estão numa posição privilegiada de poder e que pensar em formas de desconstrução desse padrão é uma das formas mais eficazes de provocar uma mudança significativa. Afinal, não basta apenas escrever e ler livros sobre opressões se na vida real as reproduções desse esquema continuam firmes e fortes.

foto por João Pedro Rinehart Franco

Abrindo o Ep, a música BandAid. Considero a mais forte do disco. A faixa fala sobre abuso, a relação de poder do homem sobre a mulher e como somos diariamente silenciadas. Achei que ouvir essa porrada logo de cara me fez ter vontade de ouvir as outras, comprar o disco, entrar em contato com as meninas, dar um abraço nelas e dizer que “olha, estamos juntas nisso”.

homens só querem transar, esperam meu corpo quebrar em desespero. Pais que querem te culpar, forçadas a engravidar e nós não queremos o seu feto

A segunda faixa é “Bruja” e ela traz a tona outro assunto que assombra 100 entre 100 mulheres diariamente, que são os relacionamentos abusivos. A letra é em inglês, mas é fácil sentir o ódio no vocal, na distorção da guitarra, na música inteira. Traduzindo um trecho “enquanto você o ama, ele faz você depender dele”, bem… um clássico ainda né?

Em seguida vem “Ah, não!” e o medo de voltar pra casa sozinha está em cada estrofe. “A rua é um campo de batalha e eu não vou ser estuprada”. A música é dançante, é pra exorcizar tudo no suor da roda punk.

Fechando o Ep, “You are the trash“. Boa pra dar uma acalmada depois de um turbilhão de sentimentos causados pelas músicas anteriores. A música é leve mas a letra não.

A gravação e lançamento do disco foram independentes, a captação do som e mixagem ficaram por conta do Rafael Lamim (vocalista, guitarrista da Enema Noise), os vocais gravados no estúdio Afra e as baterias no estúdio Texas (ainda com a antiga integrante Brenda Kubota).

Atualmente Brutal Mary é: Ana (guitarra e voz), Arthemys (baixo e voz), Lury (bateria)

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Sobre o autor

Lety Trash

Lety Trash é editora do Nada Pop, além de guitarrista na Trash No Star, integrante da Errática, produtora na Efusiva Records e MOTIM, um centro de cultura no Rio de Janeiro.