quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

Yannick Hara nos convida a pensar sobre a tecnologia em seu novo álbum

Se você já assistiu e gostou do filme Blade Runner, de 1982, e não viveu isolado em uma ilha em 2019, você provavelmente lembrou, ou foi lembrado, de que novembro do ano passado foi o mês desse clássico filme dos anos 80. Afinal, seu roteiro se passa em um, até então, distante novembro de 2019.

Durante o ano passado, diversos artigos e eventos discutiram as previsões insanas que Phillip K. Dick, autor do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas, que deu origem ao filme, fez sobre o futuro distópico que vivemos hoje e é claro que o assunto principal de todos é a tecnologia e a relação dos seres humanos com ela. E é em meio a essa discussão que surge o álbum O Caçador de Androides, disco do rapper paulista Yannick Hara, que fala exatamente sobre essa cultura da alta tecnologia e da baixa qualidade de vida.

A influência literária de Androides sonham… não é apenas perceptível no título do álbum. O disco em si parece um audiobook de cyberpunk. A capa, a persona encarnada pelo rapper, as letras intensas e a referência à trilha sonora do filme criam toda a atmosfera para a qual somos levados logo no início de “Blade Runner”, primeira faixa do disco, que termina com um poema de Rafael Carnevalli nos alertando que a distopia dos anos 80 é, de fato, a realidade bizarra de hoje.

sou um humano buscando avanço/ gerando inteligências artificiais/ criando ranço da própria raça/ comendo chips, babando nos comerciais/ sou uma réplica de deus, tudo que a tecnologia me roubou/ em sua imagem e semelhança, sou eu um robô? […] cuidado com as teletelas e os drones: o grande irmão é real e vai nos coordenar por nossos fones.

Conforme o álbum se desenvolve, com “O prólogo e o título” (música que tem participação de Clemente Nascimento, da banda Inocentes), “Androides sonham com ovelhas elétricas” (com participações de Moah, da banda Lumiére, Rike, da banda NDK, e Keops e Raony, do Medulla), “Voight Kampf” e “Eu quero mais vida, pai” (com participação de Sara Não Tem Nome), mais somos levados ao universo de Blade Runner e instigados a comparar esse universo com nossa sociedade.

Quando conversamos, há alguns meses, com Yannick sobre a música “Lágrimas na chuva” – inspirada na cena final do filme, quando o personagem Roy Batty (Hutger Hauer) fala um dos monólogos mais famosos do cinema, e que conta com participação de Rodrigo Lima, do Dead Fish –, o rapper falou exatamente sobre querer passar essa mensagem no álbum, fazendo o ouvinte refletir sobre a baixa qualidade de vida em alta resolução.

E isso fica ainda mais óbvio nas faixas finais do disco, especialmente em “Replicantes”, que compara o nome dos robôs do filme com o fato de que o sistema quer nos deixar cada vez mais iguais, perdendo nossa originalidade e criatividade, e “A ideal mão de obra escrava”, música cuja sonoridade lembra Prodigy e fala sobre as incansáveis reformas feitas pelos governos, sempre em nome de um suposto benefício à população, que segue miserável.

Mas, como eu disse, a beleza desse álbum não se limita às letras. Enquanto viajamos pelo universo dos replicantes, é possível também perceber a vasta influência musical de Yannick, que une rap, dubstep, punk e pós punk, synth pop e trap em um só álbum. As participações especiais, já citadas aqui e que incluem também o rapper Cronixta, na faixa “O Artificial”, também explicitam a diversidade das influências que compõem o disco.

O Caçador de Androides está disponível no Youtube e em todas as plataformas digitais e é um convite a quem gostou do filme e/ou do livro, é fã de Phillip K. Dick, quer conhecer uma das obras mais faladas durante o ano de 2019 ou simplesmente gosta de música boa feita por um artista versátil e questionador.

Show de Lançamento do álbum “O Caçador de Androides”

Quando: 31 de janeiro
Onde: Sesc Belenzinho
Entrada: Entre R$ 9 a R$ 30
Participações: Sara Não Tem Nome, Clemente (Inocentes) e Rodrigo Lima (Dead Fish).
Mais informações: https://bit.ly/2MMe4fY

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Sobre o autor

Letícia Pataquine

Formada em Letras, fala sobre livros no Instagram, reclama no Twitter e faz listas e resenhas como editora do Nada Pop.