quarta-feira, 28 de outubro de 2020
Nada Pop

Terror Revolucionário pelo México [parte 3.1]

Seguindo a série de diários de 3 tours da banda Terror Revolucionário, chegamos na terceira parte em que a banda fez uma tour pelo México. Devido ao tamanho do relato (gigante mesmo, mas bom), essa terceira parte será divida em três, ou seja, a 3.1 (abaixo), a 3.2, que será publicada na sexta-feira, 10/1, e finalmente a última parte do relato na próxima segunda-feira, dia 13/1. Para ler e conferir a passagem da banda por países da América Latina, basta clicar AQUI (Chile) e AQUI (Argentina).

Texto por Thiago Cardoso (Barbosa Osvaldo)

Em janeiro de 2017, nos preparativos da Tour Europeia, procurando por contatos, dicas e parcerias, eu conheci o Pancho, vocalista da lendária banda mexicana Anarchus, e ele se preparava para ir ao Obscene Extreme Festival com sua banda também. Ficamos em contato durante esse período até a gente se conhecer pessoalmente no OEF. Anarchus e Terror Revolucionário tocaram no mesmo dia e tudo foi como uma grande festa.

Após a turnê, um dia qualquer eu comentei com ele que gostaria de conhecer o México e prontamente ele disse: É só avisar quando você quer vir e aqui será muito bem recebido!

Assim combinamos, com muita antecedência, uma viagem do Terror Revolucionário ao México. Isso foi em fevereiro de 2018, e planejamos a tour para agosto de 2019. Teríamos 1 ano e meio para nos prepararmos. De início, seriam apenas 4 shows. E seria uma turnê conjunta Anarchus (México), Anthropic (USA) e Terror Revolucionário. Mas faltando 2 meses para o início da tour, a banda Anthropic cancelou a sua ida ao México. Nós seguimos firme e tocamos o barco. Através do César, médico forense que reside em Huajuapan de León, cidade situada no estado de Oaxaca, amigo de Pancho e grande apreciador de bandas barulhentas, me apresentou a Oscar, baixista da banda punk Causa Justa, e com Oscar conseguimos agilizar os demais shows que seriam os primeiros desta tour, totalizando 8 shows ao todo.

Antes, organizamos no dia 28/07/2019, mais uma edição do Terror Fest, novamente no Saloon Red Rock, Samambaia/DF, e fizemos até um bingo para arrecadar uma graninha para ajudar nos custos da viagem. Era também o lançamento oficial do nosso último material, o CD Campo da Esperança, com vários sons inéditos e 61 músicas no total. Foi bem divertido e valeu a pena. Muitos amigos e pessoas que nos acompanham foram até lá nos desejar boa sorte, neste que seria o último show antes de partir para o México.

Compramos as passagens com alguns meses de antecedência, sempre pesquisando pelos melhores preços e planejando nosso orçamento, já que quase tudo nessa viagem sairia do próprio bolso (que nem o site do Mário Pacheco). Inclusive alugamos um apartamento por 7 dias bem no centro da Cidade do México, onde seria nossa base.

09/08/2019 – Aeroporto de Brasília – Cidade do México

Na madrugada, no início do dia 9 de agosto de 2019, começaria a nossa aventura por terras mexicanas. Tudo ok com as bagagens, merchandise espalhado pelas malas, baixo e guitarra sem problemas no embarque como bagagem de mão, e lá iam os 4 integrantes do Terror Revolucionário, mais a minha companheira e esposa Paula, que nos ajudou bastante no apoio logístico. Foram 6h30 de viagem e chegamos para uma rápida escala no Aeroporto Internacional de Tocumen na Cidade do Panamá. Mais 4h de voo e finalmente chegamos na Cidade do México. Pouco antes de aterrissar avistei uma paisagem com um vulcão muito bonito, mas demorei para ligar o celular e tirar uma foto bacana. Sem problemas com o controle migratório, foi rápido até, sem necessidade de visto. Jeffer demorou um pouco mais para passar, mas nada demais. Passaportes carimbados e vamos pegar as bagagens. CDC foi parado na alfândega e teve que mostrar a sua mala cheia de cacarecos undergrounds (CDs, adesivos e outros) que ele levou para distribuir e divulgar durante o rolê. Apesar da demora, passou ileso.

Fomos trocar dinheiro nas casas de câmbio ali mesmo no aeroporto, que aliás é a melhor opção para trocar dinheiro na cidade. No aeroporto, melhor local para fazer câmbio. Pode acreditar! Muitas opções de casas de câmbio. Pela cidade vimos poucas, e nenhuma trocava real, somente dólar e/ou euro.

Sem internet nos celulares, somente a Paula conseguiu acessar o wifi do aeroporto, não conseguiríamos ir as 5 pessoas e mais todas as bagagens e instrumentos num carro só. A opção foi pegar um táxi gigante, que comportou bem a todos nós e nos levou ao apartamento na Rua Isabel La Catolica. Pelo caminho muito trânsito, até um carro de funerária fazendo um cortejo fúnebre com o carro todo enfeitado eu vi pelo caminho. Vimos uma loja de rock tipo a Porão Rock Wear no caminho, que era bem perto do local que iríamos ficar. Uns 30 minutos para rodar 8 km de distância. Chegamos no apartamento, bem massa, muito bem localizado, 2 quartos, sofás cama, colchões que dava para ficar umas 8 pessoas numa boa. Ao lado do prédio tinha um bar bem legal que tocava uns rock.

Fomos atrás de um rango, pois já eram umas 14h, e o que mais se via nos quiosques de rua eram tortilhas (que se encontra em todos lugares que passamos pelo México), sempre com um acompanhamento. O cheiro da tripa cozida era forte. Das tortilhas também. Achamos um restaurante e eu e a Paula já provamos do mole, que é um molho com vários temperos e chocolate. Achei estranho. O guacamole estava bom, e ainda tinha uns molhos de pimenta deliciosos. Aliás, sempre vem muita pimenta nos rangos. Eu, Jeffer e CDC esticamos mais pelas ruas, passamos na loja que lembrava a Porão e fomos caminhando até o Zócalo – a principal praça – onde tem um bandeirão enorme do México, e onde ficam ao redor vários prédios públicos. Uma outra praça ao lado tinham artesãos e uns índios catimbozeiros benzendo quem quisesse. O cheiro do catimbó era forte e marcante. Achei bom. Vacilei em não ir lá me benzer.

10/08/2019 – Tianguis del Chopo / El Mundano

Tianguis del Chopo é uma inacreditável e sensacional feira do rock que acontece todos os sábados desde 1980. Devem ter umas 100 barracas com muita coisa relacionada ao mundo rock em geral. Bancas com LPs raros, camisetas, botas, coturnos, acessórios em geral. Vi colete dos Warriors à venda ali. Vários LPs raros. Fomos cedo, lá começava umas 9h da manhã. Nos dividimos em dois Ubers. Fui na frente junto com o CDC. Fomos perguntar alguma informação a um vendedor ambulante de bebidas, e o cara, trajando uma camiseta do Discharge, pergunta de onde nós somos. Falamos: Brasil! Ele logo solta: “Crucificados pelo Sistemaaa”. Era o Rolo, ex vocalista do Atoxxxico, banda clássica mexicana. Na feira, hoje em dia, é proibido o consumo de bebidas alcoólicas, pois devem ter rolado alguns problemas com bebidas e confusões. Lá conhecemos pessoalmente o Oscar e sua companheira Ana Lilia. Oscar fez nossas camisetas da tour. Ele tem uma banca de camisetas há mais de 20 anos. Através deste casal que conseguimos o contato para tocar em Tianguis. Às 11h as bandas se reuniram com a organização e depois houve um sorteio com a ordem para as apresentações. Adriana sacou o nosso número, e pegou a penúltima posição. Muito bom! Tocaríamos umas 15h. Lá começava cedo, umas 12h tocou a primeira banda. E era bem corrido. Uns 20 min de som para cada banda. Fui dar uma volta pela feira, vi punks, bangers, povo usando camisetas de bandas como Eskorbuto, Los Crudos, Discharge, Besthoven, Anti-Cimex. Dessas eu vi muito, por vários lugares que passamos. Jeffer tomou um enquadro de uns caras que o cercaram por estar filmando. Estava sozinho na hora e passou um susto.

O palco ficava montado numa das pontas da feira, com uma área grande e aberta na frente. Nesse dia tocaram bandas de variados estilos: rap, grunge, heavy metal. O coroa da organização lembrava o Dan Beehler do Exciter versão mexicana. Rolou entrevista para rádio, fotos, galera chegando para trocar ideia. Demoramos um pouco para ajeitar as coisas no palco e perdemos alguns minutos. Foram uns 18 minutos de show, e foi foda. Deviam ter mais de 300 pessoas vendo a gente tocar, e o público começou a esquentar, chegar perto e agitar. Punks, rockeiros doidos, curiosos, metaleiros. A resposta do público foi muito boa e foi muito bom para a banda começar a tour nessa feira. Conhecemos a Rosa, organizadora do show do dia seguinte em Valle de Chalco. Depois nos apertamos num táxi e voltamos para nossa base no centro da cidade.

A noite tocamos no espaço chamado El Mundano, perto uns 500 metros da nossa base. O Bar El Mundano fica no segundo andar de um prédio, logo ao lado de uma estação de metrô e muito bem localizado. Espaço muito foda e perfeito para um show underground. Palco massa, iluminação, decoração do bar com grafites, caveiras, banheiro cheio de adesivos. Fomos a pé até lá. Um pessoal veio ao nosso encontro para irmos juntos ao local. Logo quando chegamos encontramos o Rafinha, camarada de Brasília que atualmente está morando na Cidade do México. Ele tocava bateria na banda punk chamada Naüzo no início dos anos 2000. Inclusive a Daiana, ex vocalista do Terror Revolucionário passou por esta banda. Foi muito bom encontrar o Rafinha.

Oscar e Ana organizaram esse show e cuidavam da entrada. Tocaram neste dia bandas punks e grind/noise. Causa Justa, banda do Oscar, toca punk/hardcore cru, com 2 vocalistas. Scumdogs também tocou. Decomposed Society é uma banda muito louca e barulhenta com um vocalista figura que fica plantado no palco e tem um vocal insano. Ao final dos sons ele ajeitava o cabelo de um jeito muito engraçado. O baixista Julio pegou materiais da gente para distribuir e com ele é capaz de rolar alguma coisa através do seu selo. Ficamos animados que ele gostou tanto da banda. Fomos a última banda. O som no PA estava foda e tinha um backline muito bom também. O show foi animal demais e a recepção calorosa e com os hermanos mexicanos agitando bastante. Tinha um cara, José Augusto o nome dele, que subia no palco e dava uns mosh muito sinistro por conta do tamanho do cara. Esse camarada colou em 4 shows nossos. Tocamos todo o set list e a galera pedindo mais som. Tivemos que tocar mais uns sons que deixamos na manga. Depois pediram mais, e tocamos alguma coisa antiga que não tava previsto. Foi sensacional! E os mexicanos gostam muito de trocar ideia, conhecer a banda, compram bastante merchandise. Deixamos os preços muito em conta para sair tudo. Voltamos para casa felizes e com a sensação de missão cumprida nesse dia. Foi foda!

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Redação Nada Pop

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