quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Nada Pop

“Ninguem sabe fazer festa como a gente” – Uma matinê na Jailhouse

Flyer do show punk na Jailhouse – Por Marcella Pasquarelli

Final de agradável tarde de domingo. Numa calçada da Rua Tuiuti, ladeira abaixo pra quem vem do metrô Tatuapé, se vê ao longe o bolinho de gente vestindo majoritariamente preto. Alguns rostos conhecidos da cena local e outros nem tanto.

Bastaram alguns minutos na porta da Jailhouse para começar a chegar um pessoal diferente. Era uma leva de gente vinda diretamente de Campo Grande; o motivo: junto à Mais Raiva do Que Medo, Geração Suburbana e Deserdados, no line up estava a Intervenção, banda meio paulistana meio campo-grandense. O Lipe, vocal e guitarra da banda interestadual, é que vai recebendo quem chega. Alguns abraços, goles, tragos, conversas fora e risadas depois, é chegada a hora de cair pra dentro.

O lugar é agradável. Por fora, parece só mais um dos casarões típicos desse bairro abastado, mas por dentro todo ambiente cheira à rock´n´roll. Logo na entrada, tem uma sala decorada com quadros e alguns sofás velhos e grandes, uma verdadeira sala de estar. O bar fica centralizado na passagem da entrada para a sala principal, nos fundos da casa. O estreito corredor liga a um amplo salão, com mesa de bilhar de um lado e o palco do outro. E para arejar as ideias tem uma área externa, com mesas disponíveis à céu aberto. E foi por ali que eu fiquei sentando, tomando um refrigerante e conversando com alguns amigos enquanto a casa ia começando a lotar.

Já passava das 19h quando no palco começaram a se plugar os instrumentos. Um, dois, três teste e microfonia. Era a Mais Raiva do que Medo se preparando para abrir a GIG. Hora do show. Quem se aproxima é logo brindado com um hardcore punk, cru e agressivo. Ainda que sem envolvimento de todos os presentes, como geralmente acontece com a primeira banda do role, foi agito total!

Mais Raiva do Que Medo

Na bateria o Alfredo marretando sem dó, no baixo a cadência do Dingo, na guitarra o Renê (diga-se de passagem, tá a cara do Beníco Del Toro no filme Medo e Delírio em Las Vegas, só que numa versão punk); e à frente da banda, o vocal Caneta, com sua careca consolidada e a barbona já batendo no peito. Lembrei de uma cena agora dele com o fio do microfone enrolado no pescoço a la GG Allen! Em mais uma grande performace, ele ainda puxou dois clássicos zona-nortistas da já extinta banda Ácratas, de qual participava há uma década atrás. Meia hora de pure energy. Fecharam ainda com chave de ouro, mandando um cover de Varukers (vocês que me lembrem qual, porque eu não vou lembrar).

Tempo para uma ida ao banheiro e uma bisbilhotada na banquinha improvisada sobre a mesa de bilhar, onde nosso querido Pedro “Weirdo” Padron estava pondo de volta em circulação alguns vinis da sua coleção pessoal:

– E aí mano, porra não dá uma dor no coração vender essas belezuras?
– Sabe como é, os boletos chegam…

A noite tava começando a cair, a casa cada vez mais cheia e o clima cada vez melhor. Eis que já à postos estão Julinho, Felipe e Julião. A Geração Suburbana, com seus já 20 anos de punk rock, sobem ao palco com um anúncio prévio do frontman, completamente ignorado pela galera, diga-se de passagem, que já se aglomerava à frente dos amplis:

– A gente não conseguiu ensaiar, mas tá aqui o Julião que participou das gravações do Vivemos Presos. Então 1,2,3,4…

Geração Suburbana

E os riffs e refrões grudentos começam a escorrer pelo suor do pogo. Pra variar, o auge foi o bom e velho “Eu não quero ser manipulado por ninguém, sou livre e me governo muito bem!” sempre entoado em coro. E precisa de ensaio? Já fechando o show, subiu ao palco o Lipe para compor a guitarra, enquanto o Julinho mandava bala na gaita, fazendo Pai Eu Sou Punk. Fodido!

Falando em Lipe, a terceira e penúltima banda a tocar foi a Intervenção. Que banda! No baixo e backing vocal a Binha e na bateria a Wanessa completam o power trio. A cadência do punk bem tocado, se mistura com a saudade de muitos ali presentes ao rever a banda num palco por aqui.

Intervenção

No intervalo entre um som e outro, o Lipe:

– Cara, ninguém faz festa que nem os punks. A gente só fala de desgraça e assim mesmo se diverte!
Que belo resumo desse dia.

22h da noite e ainda faltava chavear. O fechamento da GIG estava na cara que seria por conta da Deserdados. Será que alguem ali foi só para ver essa banda? Eu apostaria que sim. O trio de Pirituba, Lambão, Celo e Favela já são um clássico do punk nacional, tão importantes para cena quanto seus pioneiros dos anos 80´s. E quem conhece a banda, sabe bem como começa o show: “Tudo começou em 77…”

Deserdados

Sem medo de errar, 99% dos presentes estavam ali trocando suor, se espremendo e se encaixando como dava em torno do palco e também na janelinha e na porta, que só quem já foi na Jailhouse sabe. Marcaram presença todos os hits, Lavagem Cerebral, Hostilidade Militar, Punk até a Morte, 3° Mundo, Rock de Combate e tantos outros dos primeiros discos Revolução Agora! e Mau Exemplo?…, bem como do mais recente álbum Mais um Dia. Em vários momentos subiam duas e até três pessoas para arrancar os microfones dos pedestais e cantar, empurrando guitarra e baixo pro fundo, pra junto da bateria. Que momento mágico! Como é bom não só repetir o jargão, mas ver diante dos olhos que o punk rock não morreu! Sentir os arrepios dessa cena maravilhosa.
Fim da GIG.

Hora de se hidratar e tomar um ar fresco na área externa. Dentre tantos cumprimentos, abraços e saudações a pessoas conhecidas, me lembro de um mano que nunca vi, com visu raw punk se aproximar e me saudar pelo simples fato de estar ali, compartilhando o momento. Lembro de ele me dizer que era de Artur Alvim. Lembro de gente que eu não conhecia se despedindo de mim com um sincero “valeu mano, satisfação!”. Acho isso lindo no meio punk.

E o que mais eu poderia estar fazendo em São Paulo num domingo à tarde se não indo a uma matinê punk? Eu realmente não sei. Mas sei que quem foi na Jailhouse naquela tarde não se arrependeu. Quem não foi perdeu.

Zona Norte Punks

Não bastasse poder presenciar o som de todas essas bandas fodidas, posso me orgulhar de que nesse dia, estive cercado de amigos, camaradas, e algumas pessoas que realmente amo. Salve os punks! Salve todas as punks! Salve especialmente os punks da Zona Norte! Realmente, ninguém sabe fazer festa como a gente. ÊRA!

Siga a artista Marcella Pasquarelli no Instagram (@artsdaora), a responsável pela arte do flyer do show.

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Sobre o autor

Giuliano Mascitelli

Jornalista fracassado e vocal da banda punk Lata do Lixo da História. Escreve textos curtos, crônicas e poemas de qualidade duvidosa.