sábado, 26 de setembro de 2020
Nada Pop

Marginal Arte: “Precisamos da arte para não morrermos de realidade”

Na França, no lendário e revolucionário ano de 1968, havia um lema que dizia: “La beauté est dans la rue”(A beleza está na rua). No Brasil, já em finais dos 1960´s, mesmo sem existir internet, a gente tava em sintonia com outros centros urbanos mundiais e os movimentos contraculturais, que eram essencialmente uma revolução juvenil em curso. Nem é preciso lembrar que vivíamos em plena ditadura militar por aqui (1964-1988) e os submundos gritavam diante da repressão cotidiana estatal, política e social.

Além de tiro, porrada e bombas, contra as opressivas condições de vida também era possível e preciso lutar com ideias e através das expressões artísticas. Fosse como fosse. E claro, nem é preciso dizer que a arte oficial burguesa já não chegava até nós naquela época, e assim era preciso inventar a nossa própria. Pra expressar o que estava dizendo de sintonia com o mundo, no mesmo 1968, um cara chamado Hélio Oiticica, artista anarquista do Rio de Janeiro, lançou um lema pra chamar atenção: Seja marginal, seja herói. Era uma referência ao que ele e outros próximos a ele estavam fazendo através da pintura, literatura e peças de teatro de caráter libertário. E ainda que ele não fosse nenhum fodido, já que sua família era de classe média, ele e seus amigos demonstravam sensibilidade com o que se passava do outro lado do muro, e por isso fizeram a diferença.

Já nos 70 e 80, outros movimentos autenticamente originados nos meios operários, como o Black Power que daria origem aos primeiros bailes de soul e funk e em seguida ao break e ao hip-hop, e mesmo os roqueiros de subúrbio que dariam origem ao punk paulista, eram bons representantes e responsáveis por uma autêntica arte marginal. Aqui caberia pelo menos duas bíblias à parte sobre o assunto, o que não é objetivo dessas parcas linhas. O mais importante das referências históricas acima é clarear o nosso aqui e agora.

Resgatar o que de melhor e comum havia nesses movimentos: o fazer e acontecer, seguindo a mais pura lógica marxista de que “a libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. É isso o que está por trás, por exemplo, do lema punk Faça Você Mesmo (D.I.Y.). Pode ter certeza que, embora não tenha o mesmo apelo de décadas passadas, quando essa contracultura estava no auge, hoje mesmo está acontecendo uma cena de gente que faz e acontece no submundo das grandes cidades. Aqui em São Paulo, é até difícil uma quebrada onde o punk, o pixo, o hip-hop, não tenha seus remanescentes e resistentes representantes.

Acreditem, a gente precisa dos resistentes, não somente para a ação em torno das inúmeras causas e bandeiras políticas, mas também para que tenhamos os espaços de convivência, com cultura e com arte. São tantos temas e tipos de arte, seja o realismo, o impressionismo e o muralismo das pinturas (que são autênticos avós do grafiti); é a literatura beatnik que nada mais eram do que escritores marginais; é a música dos guetos com guitarra, ou com beats, o teatro, enfim, ARTE. “Precisamos da arte para não morrermos de realidade”, como um dia escreveu o filósofo Nietzsche.

Talvez o primeiro passo para nos reaproximarmos de coisas tão vitais quanto a arte e a filosofia, é nos darmos conta de que podemos fazê-las nós mesmos. Querem saber? Eu tenho uma estante cheia de livro fodidos que poderia citar aqui, mas se eu fosse dar uma boa dica de leitura, começaria pelos muros da cidade e pelas portas de banheiro. Sem dúvidas! Quem diz que comentário de internet é que nem porta de banheiro, nunca deve ter lido direito e muito menos ter sentado em privada de banheiro público na vida. Pra enxergar a beleza do mundo, as vezes é preciso se permitir andar sem rumo e dar umas belas cagadas fora de casa.

Tudo o que precisamos é nos organizarmos, desorganizando algumas ideias. A livre expressão crua, ácida e a linguagem direta do underground são algo que os ditos entendedores de arte nunca vão entender. Isso é o que permite existir uma tal classe artística, que não passa de um bando de panacas bem-remunerados, enquanto uma porrada de gênio anônimo vive por aí com pouco ou quase nada e sem o menor reconhecimento.

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Sobre o autor

Giuliano Mascitelli

Jornalista fracassado e vocal da banda punk Lata do Lixo da História. Escreve textos curtos, crônicas e poemas de qualidade duvidosa.