quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Nada Pop

“Estamos de saco cheio da sociedade que ainda acredita em mulheres burras e fracas” – Entrevista com a banda Venuz

Graças aos algoritmos de alguma rede social que, de vez em quando funcionam bem, como nesse caso, acabei conhecendo a banda Venuz. Formada por cinco mulheres, o grupo mostra a força das ideias feministas em tudo, desde a formação, letras, o logo e o nome, tudo bem girl power.

As cinco integrantes cariocas são: Aila Dap (vocal), Carolina Vianna (baixo), Juliana Valente (bateria), Renata Guterres e Valentinne di Paula (guitarras). A Venuz existe desde 2017 e, entre algumas mudanças na formação original, a banda lançou “Rebela”, álbum de 2018, com sete faixas, e quatro videoclipes, incluindo o mais recente sendo o “House of Rising Sun”, versão da música do The Animals, de 1964, sendo uma daquelas versões que faz homenagens a original.

Por todos esses motivos, eu troquei uma rápida ideia com as meninas sobre a história da banda, planos para o futuro etc.

Falem de como a banda surgiu, como se conheceram e como é o processo criativo de vocês, que deu vida ao Rebela.

Aila: A banda surgiu antes da minha entrada. Conheci as meninas através de grupos de músicos no Facebook. Quando me uni a elas, estava numa fase de compor bastante sobre a temática feminista. Trouxe minhas composições para a banda e as meninas lapidaram.

Juliana: Conheci a Renata através de grupos de músicos no Facebook também. Eu já tinha uma banda com outras meninas e o projeto acabou não rolando, mas logo depois ela me chamou pra formar outra banda. Já passaram pela Venuz uma vocalista, baixista e guitarrista. Só eu e Renata estamos desde a primeira formação.

Renata: A nossa antiga guitarrista postou nesse grupo do Facebook que queria formar uma banda de meninas e eu fui lá responder. Logo marcamos e eu lembrei de uma antiga amiga que eu já tive banda antes, a Juliana, e a chamei.

Já passou pela Venuz bastante gente que ajudou a formar nossa essência tal como é agora, montamos toda a ideia, identidade, marca e melodias voltadas ao rock autoral feminista. Com o tempo, foram surgindo pessoas que se transformaram na essência da Venuz, como a Aila, a Carol e a Valentinne.

O importante é termos em comum o sonho de viver de música e mostrar que mulher tem espaço na música e no rock e isso faz com que cada uma adicione um pouco e transforme a Venuz musicalmente, e isso é incrível! Foi assim que nos tornamos o que somos hoje.

Quanto ao processo criativo, geralmente, a Aila vem com as letras e adicionamos as nossas partes. Marcamos encontros para compor, às vezes no ensaio rola umas ideias e vamos trabalhando até as músicas nascerem e aí vem o Chico pra lapidá-las, nosso produtor musical.

Carol: Hoje eu não carrego mais o título de “última a entrar para a banda”, agora quem carrega esse título é a Valentinne (risos), porém, desde a criação da banda eu acompanho a Venuz e mesmo antes de fazer parte, nunca tinha faltado a um show. Nós somos como uma família, temos nossos momentos bons e ruins, mas todas se ajudam independentemente da situação, e quando estamos unidas não tem tempo ruim.

Todas vocês trabalham em tempo integral com música? Há projetos paralelos além da banda?

Renata: Não, também sou designer e trabalho com isso. Mas felizmente posso unir duas profissões pelas quais eu sou apaixonada. Sou a designer da Venuz também, cuido de toda a identidade visual, das capas dos álbuns, material promocional, etc. É lindo poder juntar os dois e é isso que eu quero fazer da vida, cada vez mais.

Aila: Eu trabalho apenas com a Venuz e sou instrutora de pole dance. Tenho interesse em iniciar um projeto paralelo acústico em breve.

Juliana: Ainda não rola a dedicação em tempo integral, mas em breve tenho certeza! Eu toco também na Rock is Her, parte de uma webserie feita pela Linha Produções, com previsão de estreia em 2020.

Carol: Não trabalho integralmente com música, infelizmente precisamos de outros meios para poder conseguir investir na música, em gravação, instrumentos etc. Faço faculdade de Engenharia e trabalho na área… Não tem nada a ver com música (risos), mas são duas coisas que amo fazer.

Como surgiu a ideia de gravar uma versão “The House of the Rising Sun”? E por que lançar no Dia do Músico?

Renata: A ideia surgiu após vermos que essa música não é uma música dos anos 60, e sim uma música folclórica americana que tem seu primeiro registro gravado por uma mulher, toda no feminino, mas se tornou conhecida pela gravação do Animals nos anos 60 na sua versão masculina.

Não se sabe ao certo se a “house” citada na música era um cabaré ou uma prisão feminina. Após lermos e estudarmos sobre, vimos o quão feminista poderia se tornar toda essa história que poucos sabem e resolvemos gravar nossa versão com algumas alterações. Sobre a data, buscamos sempre lançar em datas especiais, porque acreditamos que isso influencia na repercussão e essa música foi finalizada com essa data importante próxima, por isso essa escolha.

Valentinne: Surgiu bem antes de eu me juntar às meninas, e logo comprei a ideia. A parte mais legal disso tudo é que quase não temos divergências de gostos e opiniões. É muito fácil fazer parte da Venuz, nos complementamos muito bem e nesse projeto não foi diferente.

Toda essa coisa de lançar material em dias específicos faz parte da dinâmica da banda e significa muito para todas nós. O clipe de “House” não apenas foi lançado no Dia do Músico, um dia absolutamente relevante para nós, como também foi gravado no dia do aniversário da Aila, a nossa vocalista que dá sangue, suor e lágrimas pela banda.

Quais as maiores influências de vocês? Pelo clipe de “Deixa ela entrar”, há também influências do cinema, certo?

Aila: Minhas principais referências são Gwen Stefani, Lady Gaga e Taylor Momsem, tento mesclar entre o pop e rock. De referências brasileiras tenho Pitty e Luxúria. “Deixa Ela Entrar” tem com referência alguns seriados sobre bruxas, como As aventuras de Sabrina e American Horror Story (Coven).

Juliana: Influências de batera eu tenho tantas! Taylor Hawkins, Glen Sobel, Raphael Miranda e Jean, do Ego Kill Talent, Anika Nilles, Vera Azevedo, Rayani Martins e duas que tenho o maior prazer de já ter tocado juntas que é a Dani, da The Monic, e Vlad, da Blastfemme.

Renata: Eu tenho um gosto musical bem variado, mas no dia a dia eu escuto basicamente rock anos 80/90/00 o tempo todo. Minhas influências como guitarrista são: Slash, Angus Young, Lita Ford, Nita Strauss, Orianthi, Edge, Jerry Cantrell, Rafael Bittencourt, Kiko Loureiro e Richie Sambora.

Carol: Fui criada numa família que sempre teve muito envolvimento com a música, principalmente rock dos anos 60 em diante. Alguns nomes que acho importante citar e que considero grandes influências no meio musical e como baixistas são: Flea, John Entwistle, Carol Kaye, Eddie Van Halen, Geddy Lee, Cliff Burton, John Paul Jones e John Deacon.

Vocês são bem combativas, contra o fascismo, machismo e homofobia… Falem um pouco sobre o posicionamento da banda, de como veem a música e a arte em geral nos dias obscuros de hoje (tanto a produção quanto as ameaças de censura a todo momento) e a participação de mulheres e LGBTQI+ tanto no rock como na música em geral.

Aila: Rebela aborda muito essa temática, trazendo a consciência de que a luta se faz necessária. Por isso, o primeiro passo é a conscientização de toda essa problemática que nos ronda… Esse é nosso principal objetivo: chamar atenção para tudo o que há de ruim e precisa ser abolido. Conseguiremos isso mediante união e força. Isso vale para o machismo, para o descaso da política com a cultura e para homofobia.

Juliana: E não é necessário apenas cantar porque é um tema atual. É preciso muito comprometimento e verdade. Tem muita mina capaz de fazer isso!

Renata: Cresci ouvindo rock e a maioria das referências que eu via e ouvia eram bandas compostas somente por homens. Já ouvimos muito as frases machistas: “Por que só mulher?” “Tem espaço pra homem?” “Vocês não podem cortar os homens assim”, etc. Isso nunca foi colocado ao contrário, nunca ouvi ninguém questionar o porquê de tanta banda ter só homens dessa forma. Estamos aqui pra abraçar essa minoria e todas as referências femininas e LGBTQI+ que tivemos e queremos nos tornar uma referência também. Mostrar que é possível e que temos sim que ocupar esses lugares.

Venuz – Foto: Isabella Alves Tavares

Ainda sobre isso, o que esperam despertar nas meninas que ouvem o som da Venuz pela primeira vez?

Aila: Queremos mostrar que elas não estão sozinhas, que compartilhamos os mesmos desejos, que entendemos seus medos, que queremos ouvir suas histórias e compreendemos suas trajetórias.

Juliana: De fato queremos que elas se sintam incluídas e compreendidas do nosso jeito. Estamos de saco cheio da sociedade que ainda acredita em mulheres burras e fracas.

Valentinne: minha intenção, além de fazer o que amo, é realmente inspirar as pessoas, e até incentivar mais meninas a tocarem guitarra. Quero que vejam nossos clipes e se sintam tão inspiradas quanto eu me sentia na adolescência quando via meus ídolos tocarem. Música é sentimento, é expressar-se em poesia e ritmo, e muitas vezes é catarse.

Carol: Esperança! Esperança que as pessoas respeitem as nossas causas, nossa voz e a nossa importância. Durante muito tempo, a música foi usada para reivindicar melhora quando algo não ia bem e hoje usamos a música para mostrar que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive no rock.

2019 foi um bom ano pra Venuz? Quais os próximos passos da banda a partir de agora?

Aila: Foi um ano de grandes passos e mudanças. Lançamos 3 videoclipes, mudamos de guitarrista, fizemos menos shows, mas a maioria deles bem importantes para nós. Em 2020 planejamos shows fora do Rio e também novos lançamentos.

Carol: 2019 foi um bom ano, com poucos shows e grandes conquistas. 2020 promete ser melhor ainda, com muita novidade em relação a composição, shows… Não posso falar muito para deixar com ar de surpresa, mas logo vocês irão ver.

Valentinne: Foi ótimo, porque eu entrei! (risos). Brincadeiras à parte, tivemos sim nossos desafios, pessoais e como grupo, mas com certeza as conquistas foram maiores que as dificuldades. 2019 foi um bom ano, mas acredito que 2020 será ainda melhor!

E posso dizer para seguirem a gente no Instagram, pois sempre postamos novidades lá, e nosso canal do YouTube é “bandaVENUZoficial”, então entra lá, dê like nos nossos vídeos e ativem o sininho para ficarem por dentro das novidades! Fui boa no merchan? (risos).

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Sobre o autor

Letícia Pataquine

Formada em Letras, fala sobre livros no Instagram, reclama no Twitter e faz listas e resenhas como editora do Nada Pop.