sexta-feira, 7 de agosto de 2020
Nada Pop

Uma vida entre discos e livros: entrevista com Agnaldo Nascimento, da Versus Mare

Há uns meses atrás, publiquei aqui uma resenha do álbum Cordilheira, da Versus Mare. Confesso que, com total desconhecimento sobre a banda, ouvi o álbum e fiquei encantada não só pelo som ser bom, mas também porque eu estava às vésperas da minha tão sonhada viagem aos nossos países vizinhos Argentina e Uruguai e o disco era um grito de liberdade pela América Latina (que agora, pouco tempo depois dessa resenha, precisa gritar ainda mais). Foi a partir dessa resenha que eu e o Agnaldo, também conhecido como Gui Nascimento, vocalista da Versus Mare, começamos a nos seguir nas redes sociais até que um dia ele me chamou e falou sobre seu primeiro livro, Horses, que narra a história de jovens com histórias familiares diferentes e um pouco sombrias.

Minha loucura por livros despertou o interesse não apenas em ler Horses, mas também em conversar com alguém que estava produzindo coisas tão interessantes e transitando entre a música e a literatura. Essa conversa rolou ali no Instagram mesmo e você pode lê-la a seguir:

Como a música e a literatura entraram na sua vida?

GUI NASCIMENTO – Desde criança eu sempre tive a necessidade de me expressar. Começou desenhando, depois, fui herdando uns livros das minhas primas mais velhas que iam crescendo e deixando de ler livros infantis. Lá pelos 12 anos comecei a ouvir rock e a assistir MTV. Também comecei a ler coisas mais maduras como O Apanhador no Campo de Centeio e, conforme ia entrando no universo da música e da literatura, já fui me embrenhando na criação. Demorou um pouco pra eu ter banda, mas desde cedo já escrevia músicas e textos literários.

Livro Horses – Saiba mais clicando neste endereço: https://bit.ly/2rPDbXk

Você trabalha com o que além da banda?

GUI NASCIMENTO – Estou trabalhando com edição de sistemas de ensino. Crio o conteúdo de língua portuguesa.

Você faz Letras, né? Acredito que tenha sido sua primeira opção de curso… Estou certa ou você pensou em cursar outra coisa? Aproveitando, já pensou em viver de algo que não fosse música ou literatura?

GUI NASCIMENTO – Eu sou formado em Jornalismo, mas fugi correndo (risos). Aí depois entrei na Letras. Acho que é o mais próximo daquilo que gosto de fazer. Não conheço quem viva de literatura, a não ser quem faz tradução, dá palestras, participa de mesas, essas coisas. Música é ainda mais difícil, se tratando de rock autoral.

Sim, infelizmente é a verdade… Viver de arte em geral no Brasil é muito difícil. Aproveitando, como você enxerga a cultura em tempos tão obscuros como os que estamos vivendo? Você tem uma visão de futuro pessimista ou otimista sobre esse assunto?

GUI NASCIMENTO – Enquanto a maioria da população estiver dopada com fake news e não perceber os impactos das decisões que são tomadas pelos governantes, vai ser difícil pensar em mudança. O Chile só está lutando porque já são anos de desgaste e exploração das classes menos favorecidas. Aqui, os cortes estão só começando. Se não houver outro fator que desperte as pessoas, eu acho que ainda vai demorar algum tempo até que se perceba o quanto têm sido prejudiciais as medidas obscuras que estão sendo tomadas. Não sei se isso é uma visão pessimista, mas é como eu enxergo. Quanto à arte, acredito que serve de ferramenta para combatermos, principalmente no dia a dia, essa sensação de gosto amargo que o presente nos traz.

O que te inspira a compor e a escrever?

GUI NASCIMENTO – Estou sempre buscando referências pra dialogar com tudo o que me motiva a criar. Às vezes crio para entender alguma situação, para refletir sobre, para protestar também. Nunca é uma só a motivação. Compor o Cordilheira me levou a buscar mais conhecimento sobre o nosso continente. Acho esse processo muito enriquecedor. As inspirações artísticas são muitas. Mas a pegada da Versus Mare sempre foi calcada, de um lado, na guitarra distorcida com influência de bandas dos anos 90, grunge e alternativo, e, do outro, por influências de música brasileira. Essa mistura sempre foi a base, embora existam outras. Na literatura eu também estou sempre buscando novas inspirações, mas meus escritores de base são James Joyce, Cortázar, Raduan Nassar e Clarice Lispector.

Quais foram os três álbuns e os três livros que mais marcaram a sua vida e por quê?

GUI NASCIMENTO – O Nevermind, do Nirvana, me direcionou pro tipo de som que eu faço hoje, isso foi lá pelos meus 14 anos e lembro do choque. Na mesma época eu conheci o Ten, do Pearl Jam, que gerou o mesmo efeito. Depois dos 20, eu conheci o álbum de música brasileira que eu mais ouvi na vida que é o do Clube da Esquina. Fiquei encantado com a aura das músicas. Até hoje é um álbum que me tira do chão e que me energiza.

Sobre os livros, Ulysses, do James Joyce, é considerado um dos livros mais difíceis da literatura e, quando li, com uns 20 e poucos anos, não entendi nada, mas a quantidade de possibilidades que aquele livro oferecia abriu a minha cabeça a machadadas. Foi a partir daquele momento que consegui escrever meus primeiros textos longos. Um livro que me cativou na adolescência e que é menos “cabeçudo” é o Outsiders, da escritora Susan Hinton, que fala de briga de gangues de classes sociais diferentes e teve uma adaptação do Coppola. Há ecos desse romance no meu livro Horses. Outro livro importante pra mim é O Jogo da Amarelinha, do Cortázar, que é um livro que o leitor pode escolher entre dois modos de lê-lo.

Gui Nascimento em show com a Versus Mare no Augusta 339 – Foto por Strangers Lost

Já que você falou dele, como foi o processo de criação do Horses? Quando começou a escrevê-lo?

GUI NASCIMENTO – Comecei em 2016, a partir de um esboço de algo que eu tinha escrito ainda na adolescência. O enredo era sofrível, mas tinha uma espécie de espinha dorsal que me motivou a escrever do zero, agora com a bagagem de tantas leituras e experiências. Criei cada um dos 20 capítulos utilizando diferentes estruturas, então cada capítulo parece ter um “mundo interno” próprio. Gostei desse método. Me permitiu ter a sensação de novo fôlego a cada passo dado.

A gente também falou um pouco antes sobre arte e cultura no Brasil. Você sente que tem uma missão como artista? Quando alguém lê seu livro, ouve suas composições ou simplesmente te vê no palco, você espera que elas sintam o quê? O que você pretende passar para o seu público?

GUI NASCIMENTO – Não sei bem se acredito nesse negócio de missão, fica parecendo que a arte só é arte se servir a algum propósito nobre e elevado. Acho que se estou fazendo o que faço, é porque tenho algo a dizer que só consigo dizer por meio da arte. Tento passar uma mensagem que possa ser entendida de forma plural. Não quero passar simplesmente a minha interpretação daquilo que criei. Quero que o leitor ou o público também busquem suas interpretações.

De Nirvana a J. D. Salinger, uma vida entre discos e livros com Gui Nascimento – Foto: reprodução

A gente tá chegando no fim de um ano em que você lançou um disco e um livro. Qual sua sensação sobre esse ano que tá acabando e quais os planos de trabalho para o ano que vem com a banda e como autor?

GUI NASCIMENTO – Lancei o livro em agosto e ainda está tudo no começo. É meu primeiro livro e estou procurando os meios de divulgá-lo. Algumas pessoas já estão me dando retorno sobre suas leituras, e isso me deixa muito feliz. Pretendo continuar divulgando tanto em eventos literários quanto em shows da banda. Quanto à Versus Mare, seguimos tocando o nosso disco Cordilheira. Acredito que em breve vá rolar algum vídeo clipe, além de nova agenda de shows para o ano que vem.

O livro Horses está à venda no site da Editora Penalux. Endereço para conhecer mais o livro: https://bit.ly/2rPDbXk

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Sobre o autor

Letícia Pataquine

Formada em Letras pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é colaboradora do Nada Pop com pautas, principalmente, envolvendo mulheres com banda. É natural de Guarulhos, Região Metropolitana de São Paulo.