quarta-feira, 28 de outubro de 2020
Nada Pop

Terror Revolucionário pela América Latina [parte 2]

Seguindo a série de diários de 3 tours da banda Terror Revolucionário, chegamos na segunda parte em que a banda fez uma mini tour pela Argentina. Para conferir a primeira parte dessa série, no Chile, basta clicar AQUI.

Por Thiago Cardoso (Barbosa Osvaldo)

Nesse ano de 2019, mais precisamente em fevereiro, Terror Revolucionário completa 20 anos de persistência e muita teimosia. Continuamos firmes e fortes, apesar da idade da pedra de alguns integrantes, seguimos em frente.

Aproveitamos que a Adriana está fazendo um curso de pós graduação pegando aulas em Buenos Aires/Argentina, e com aquela antecedência de alguns meses, nos preparamos para fazer uma mini tour pela região de Buenos Aires. Fomos atrás de contatos para fechar umas gigs e compramos nossas passagens divididas em várias prestações. Dois caras foram fundamentais para acontecer os três shows: Juan Ruedy (de Moreno) e Hernan Diente (de Buenos Aires).

Mais uma vez, por intermédio do grande amigo Jorge Fúnebre (baterista da lendária banda paraguaia D.L.50, que também comemora 20 anos de estrada em 2019), nos apresentou o Juan Ruedy, que agita várias coisas na sua cidade chamada Moreno, um distrito bem afastado da região mais central de Buenos Aires. Juan toca baixo nas bandas Kemagorra e Asesinato en Masa, e já tocou há muito tempo atrás no Migra Violenta. Lembrei a Juan que tocamos juntos Terror Revolucionário e Migra Violenta em janeiro de 2005 em Santo André/SP.

Outro amigo nosso, grande parceiro, Juan Lerda, com quem já tive o prazer de tocar no início do Possuído pelo Cão e gravar o disco Possessed in the Circle Pit, nos ajudou com o contato do Diente. Juan foi morar em Buenos Aires no começo de 2006 e assim teve que sair das bandas Violator e Possuído pelo Cão.

Observação: no vídeo abaixo assista o show da Terror Revolucionário a partir de 24 minutos e 50 segundos.

01/02/2019 (sexta-feira) – Moreno/Argentina

Adriana já estava por Buenos Aires por conta do seu curso. Eu (Barbosa), fui alguns dias antes do início dos shows com a minha família. Jeferson e Fellipe CDC viajaram no dia do show e passaram por uma grande peregrinação para chegar até Moreno. Eles acordaram às 3h para estarem às 4h no aeroporto e ainda pegaram duas escalas até Buenos Aires. Chegando lá, Alan e Javier os esperavam, para servirem de guia e conseguirem chegar até Moreno. Pegaram um ônibus na saída do aeroporto e mais um trem, que durou mais de 1h de viagem até Moreno. Trem lotado, lotado!!! Entupido até a tampa. Fora que sumiram com a bagagem do Jeffer (equipamentos de bateria). Essa bagagem só veio a ser entregue quase dois dias depois, após muita reclamação com a companhia.

Adriana, eu e Paula (minha esposa), pegamos um metrô e depois o trem na estação Once até a última estação: Moreno. Viagem longa. Exatamente 1h09min de trem lotado até o final. No começo passavam uns ambulantes vendendo bebidas, lanches. Depois fica tão cheio que nem espaço tem mais para esses vendedores circularem pelo trem. Chegando em Moreno, ao sair da estação, precisávamos ainda pegar outro transporte. Procuramos por um táxi. Mas acho que nem tem táxi por ali. Por sorte, já meio perdidos ali pela cidade, apareceu um cara e perguntou se estávamos indo para o show. Esse cara nos salvou, chamou uma espécie de lotação – remise -, e ainda pagou a conta. No trajeto ele ligou pro Juan Ruedy e disse que tinha nos encontrado e ajudado. Uma pena que ele não pôde ficar até o final do show. Gracias, hermano! Essa rede subterrânea chamada underground funciona e dá suporte em todos os cantos.

Chegamos no local, uma ocupação – El Cañon, que resiste a alguns anos, onde funcionou uma garagem de ônibus coletivo, numa região de periferia. Por conta de ser uma ocupação, a direção do endereço era clandestina, e por isso não constava no flyer de divulgação. Espaço alternativo, onde dão oficinas e tem salas de aulas para a população carente local. Acontecia uma feira alternativa com exposições, estande de tattoo, camisetas, livros, lanches, peluqueria. Muitas crianças no local, filhos dos punks, e muitos punks. Um cigarro acesso ali, outro azarado acolá. Mesa de totó com a criançada no comando, skate, pichações, frases anarquistas espalhadas pelo local. Um palco nos fundos do galpão. Tinha um bar que vendia umas cervejas e um drink muito doido com erva mate – fernet -, que tinha gosto de fumo, servido num copo descartável de 1 litro.

CDC e Jeffer chegaram e já era mais de 19h, já tinha tocado a primeira banda, Kush, grindcore. Na sequência veio a veterana Asesinato em Masa, banda do Juan, com uma pegada bem HCNY. Tocaram também as bandas Sudaka Terror (crust) – que tem um vocalista brasileiro, o Reinaldo, Deceso (grind), Kemagorra (crust). Kemagorra é a banda do Javier (que encontrou CDC e Jeffer no aeroporto), Juan (nosso anfitrião) e tem a Pauli no vocal também. Muito boas as bandas que tocaram nessa noite. Fomos a última banda. O evento tinha que encerrar às 22h e corremos pra montar nossos equipos.

Jeffer conseguiu emprestado tudo, inclusive as baquetas, já que o seu equipamento estava sumido pela companhia aérea. Mas funcionou bem. Tocamos com a garra de sempre do Terror Revolucionário e a reação foi muito boa. Uns punks agitavam muito e no intervalo das músicas tinha um deles que dava umas pancadas no palco que fazia tremer tudo. Esse cara fazia incendiar e atiçar o público e também a banda. Tocamos todo o set list, e, a pedidos, tivemos que voltar e tocar mais vários sons. Muito mais que o esperado e planejado. Esse primeiro show superou nossas expectativas e foi muito bom! Quase no final, uma mina pediu o microfone e agradeceu a presença de todxs que colaboraram com os materiais de higiene pessoal que seriam doados a integrantes de movimentos sociais que se encontram encarcerados. Depois ficamos ali confraternizando com a galera, tomando umas cervejas, vendendo um qualquer no merchandise. Juan Ruedy ajeitou um carro que fez lotação e nos levou até Buenos Aires.

02/02/2019 (sábado) – Buenos Aires/Argentina

Marcamos encontro com o Juan Lerda, que iria nos acompanhar nesse dia. Juntos, pegamos metrô e fomos para o bairro Villa Crespo. No caminho o Juan nos contou um pouco da história do local onde rolaria o show. Esse pico também é clandestino, não constava no flyer, e o interessado que procurasse saber a direção do local. Aconteceu um lance de uma explosão de uma bomba que seria destinada a um juiz e machucou muito uma ativista. Por isso o local está sendo investigado e a polícia faz batidas constantemente. Não era permitido sequer ficar na porta do local nesse dia do show para não chamar atenção. É um espaço antifascista, onde movimentos sociais se reúnem, tem aulas de boxe, muay thai e outras modalidades, e acontecem shows underground também. Muitas bandeiras com símbolos antifas, sharp. É um espaço cultural com vários ambientes. Tem um local maior com palco para eventos. Mas nesse dia, acho que até por conta de vazamento de som para vizinhança, as bandas tocaram no porão. Um porão muito quente, úmido e com forte cheiro de mofo. E muitos fumantes também. Difícil ficar lá embaixo por muito tempo. Por isso até as pessoas se revezavam e ficavam na área do bar.

Tocaram as bandas Primitivo, Nada, Saló e Cutre. Nada tem uma pegada punk bem Black Flag. Saló com partes arrastadas e vocais gritados. Cutre, banda do Diente e com o baixista do Motosierra, tocam um hardcore/punk bem na pegada americana. Muito bom o som do Cutre. E os caras são muito gente fina. Emprestaram cabeçote Peavey 5150, as coisas da bateria. Nesse dia, o Jeffer já tinha comprado umas baquetas. Terror Revolucionário foi a última banda. Muito calor, “palco” escuro e destilamos lá todos nossos sons do set list. Valeu! Nesse dia apareceu a amiga da Adriana, Viviane, que mora em Campina Grande/PB. Mina figura, pilhadaça, super engraçada. Demos boas risadas com as histórias dela. Depois fomos comer a melhor pizza de Buenos Aires na pizzaria Guerrin.

03/02/2019 (domingo) – La Plata/Argentina

La Plata fica a 60 km de Buenos Aires. Sebastián, organizador do show no Pura Vida Bar, conseguiu um carro para nos buscar. Eliseo, às 19h estava lá para nos levar ao local. Pura Vida Bar tem um ambiente maravilhoso para um show do jeito que gostamos. Palco massa, iluminação, som muito bom, um mesanino que serve como camarim para guardar os equipamentos. Local perfeito! Povo foi chegando, fumando seus cigarros. Los Basura foram a primeira. Depois tocou um duo meio jazz experimental muito louco chamado Batate Split. Na sequência veio Cutre. Foda o show deles. Depois foi a gente. Tinha uma galera boa. Achei que para um domingo daria pouco público, mas conforme ia ficando mais tarde, mais gente ia chegando. Um fotógrafo tirou umas fotos muito boas das bandas. A resposta do público foi bem boa.
Facinerosos, banda do Sebastián, toca hardcore rápido e tem um vocalista que lembrava o Pedro Catarro tanto na aparência, quanto nos trejeitos louco. Juntamos o povo que estava lá ao final e tiramos aquele retrato para a posteridade. Valeu Argentina! Foi bom demais!!!

Muito obrigado a todxs que puderam comparecer e nos apoiaram. Um salve especial ao Juan Ruedy, Alan, Javier Kemagorra, Gaby Sudaka Terror, Juan Lerda, Diente e pessoal do Cutre, Eliseo, Sebástian e Facinerosos.

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Redação Nada Pop

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